quinta-feira, 27 de agosto de 2015

GUEST POST: MEU COLEGA DE TRABALHO É ESTRANHO

Relato da E.:

Acompanho o blog faz mais de um ano e adoro! Abriu meus olhos para muitas coisas e hoje em dia defendo o feminismo com unhas e dentes. Girl power!
Mas o motivo do meu e-mail é buscar sua opinião, Lolinha. Porque estou em uma situação chata e não sei bem como saio dela. Precisava desabafar, e você me veio à mente.
Eu entrei na empresa que trabalho há pouco tempo, acabei de ser efetivada após o período de experiência, e adoro o ambiente, adoro meu trabalho, adoro o pessoal... Bom, quase todo o pessoal.
Eu trabalho no setor administrativo, em uma área que tem muito mais homens do que mulheres, e digamos que eu não me enturmei com a patotinha principal de mulheres do meu setor. Resumindo, acabei ficando mais próxima de colegas homens. Nunca vi problema nenhum nisso, sempre tive amigos e colegas homens tanto na escola, faculdade, e em outras empresas.
A maioria deles é legal e me respeita muito. Porém, não me lembro bem como, mas se aproximou de mim um que eu acho estranho. Vamos chamá-lo de S.
Acho que começamos a conversar por causa de um livro que ele estava lendo. Tínhamos outros interesses em comum. Até aí tudo normal, certo?
Só que não.
O S. tem idade para ser meu pai, ele inclusive tem filhas quase da minha idade, é casado e tals. Apesar de ter família, não faz questão de sair de casa, não gosta de pessoas, detesta os vizinhos, espanta os namorados das filhas, adora RPG e videogame. Fala mal de muita gente, sempre sabe fofocas de todos.
Ele meio que grudou em mim e fica me bajulando, vive me comprando livros e doces e deixando na minha mesa e no meu armário.
E eu sou casada! Recusei veementemente os presentes e disse que não podia aceitar, mas ele insistiu e disse que não tem segundas ou terceiras intenções e que é casado e feliz e tem filhas e bla, blá, blá. Disse que é uma maneira de agradecer a atenção e a companhia e que a empresa é cheia de cobras falsas. Mesmo assim eu deixei bem claro que não era para ele me comprar mais nada, que eu agradeço mas irei recusar qualquer outra coisa e que não sou interesseira. Deixei os livros no armário da empresa e dei os doces para outras pessoas.
Me incomoda muito o jeito dele, parece muito que ele está dando em cima, sabe Lola? Que quer alguma coisa, sempre tem uma história alheia de traição, fala que os caras daqui são casados e “pegam” novinhas mesmo assim, mas ele não.
Ele vive me elogiando, dizendo que pareço uma princesinha (sou pequena e tenho cara de adolescente, apesar de já ter 20 e poucos anos), diz que meus sapatos são fofos, que sou delicada, que meu cabelo é lindo, que eu tenho um jeito de andar “gostoso”. Esse comentário foi o pior de todos.
No dia que ele me disse isso, tive um pesadelo que ele estava me estuprando. Depois disso, tentei me afastar dele no trabalho.
Mas mesmo assim, todos os dias pontualmente ele aparece com seu sorriso besta (que eu acho de psicopata) e a mão estendida para eu apertar, tanto de manhã quando chego, quanto à tarde antes ir embora. E eu meio que tenho asco, não sei explicar, principalmente depois do pesadelo, não gosto nem que ele chegue perto de mim.
Sem falar que toda vez que ele passa pela minha mesa ele meio que fica me olhando. E eu ignoro, só sei que é ele porque minha visão periférica me permite ver o suficiente para identifica-lo. 
Sem falar que quando vamos para o refeitório (sempre em grupo) e estamos sentados à mesa, ele fica me olhando com a mão no queixo, meio que como quem está admirando ou algo assim, sabe? Aquilo me dá náusea. E eu evito olhar para a cara dele.
Sem falar que ele disse que eu lembro a filha mais velha dele. O que só me fez pensar que talvez ele já tenha abusado dela e piorou ainda mais o jeito que eu enxergo ele, sabe?
E ainda, ele sempre dizia que tinha desativado o Facebook, e do nada ele diz que ativou de novo e fica olhando fotos minhas e das minhas irmã e dizendo que são muito parecidas comigo. Aquilo me deu pânico, não queria aquele cara mega estranho fuçando na minha vida ou das minhas irmãs! Achei um absurdo!
Quando entrei na rede social, lá estava a solicitação de amizade. A primeira coisa que fiz foi mandar o link do perfil dele para minhas irmãs e pedir que o bloqueassem. Em seguida, fiz o mesmo. Até hoje ele nunca falou nada de eu ter recusado o convite ou comentou que não conseguia mais ver o meu perfil ou das minhas irmãs. Mas se ele viesse perguntar eu ia falar a verdade: não adicionei porque não quis e bloqueei porque não quero ser incomodada.
Isso não é algo que chega a me tirar o sono, porque se for para pensar “não é nada de mais” e me sinto boba e parece que estou enxergando coisa onde não tem e exagerando.
Mas que ele é creepy, ele é.
E também agora entrou uma moça nova, que é menor que eu ainda. Agora ele fica bajulando ela e esqueceu um pouco de ficar em volta de mim. Estou considerando conversar com ela e perguntar se ela se sente assim também, porque à vezes penso que é só coisa da minha cabeça.
Não sei se é só algo platônico inofensivo ou se eu tenho motivos para me preocupar. 
Não contei isso para ninguém além das minhas irmãs, que ficaram muito preocupadas (elas querem que eu procure o canal de denúncia da empresa), mas me sinto mal e não sei como contar e nem como irão reagir.
Eu me sinto assediada, apesar de não ser nada físico ou muito direto. Não sei o que fazer.
E maldita a educação de “menina” que nos faz ser educadas e cordiais e gentis até com quem não merece e por isso acabamos em situações como essa. Não quero fazer escândalo e arrumar encrenca, talvez até perder meu emprego por causa disso.

Meus comentários: É complicado, N. Você não pode acusar alguém de ser estranho. O que ele fez até agora não parece ser assédio sexual, nem moral, nem nada. Pode ser um pouco de stalking, mas até chamar disso parece exagerado. Sem dúvida é uma droga. Não sei até que ponto você deveria falar com a empresa. Ou com a colega nova que ele vem conversando. Isso é fofoca e, a meu ver, parece injusto.
Os presentes que ele te deu são a coisa mais errada. Mas, pelo jeito, depois que você falou, ele parou, certo?
Por um lado, você não pode acusá-lo de nada. Por outro, se ele te incomoda, você pode sim (até deve) se afastar dele. Você não é obrigada a ter um ótimo relacionamento com todo mundo do seu trabalho. 
Não sei se sou ingênua (ok, sei: sou), mas se eu fosse você falaria com ele. Diria que me sinto incomodada com o jeito que ele me olha, com a atenção que ele me dá, e que gostaria que ele parasse de fazer isso. Imagino que a reação dele será se afastar de você (e provavelmente incluir você nas fofocas. passar a falar mal de você também).
Corte o papo, não seja simpática nem educada com ele. E siga seu instinto, que te avisou que seu colega é estranho e pode ser perigoso. Nada de ficar sozinha com ele. Pode até ser que ele seja apenas um bajulador bobo e babão, um sem-noção que não sabe que mulheres têm muitos motivos para ficar desconfiadas com esse tipo de assédio. Mas pode ter algo a mais que está fazendo com que você sinta que ele é creepy. Ainda que você não possa denunciá-lo, você pode se afastar dele.

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

"NÃO ME INCOMODA SER FEIA, SÓ O QUE VEM COM O ADJETIVO"

Ilustração que a linda Dani Libardi fez pra mim e que vai virar quadro aqui em casa

Vários comentários excelentes e muita polêmica: este foi o resultado da discussão diante do post da S., "Sou gorda. Onde está o meu harém?"
Panthro sugeriu o episódio 3 da temporada 4 de Louie, "So did the fat lady". O final deste episódio tem um excelente monólogo que pode ser visto aqui (mas está em inglês, sem legendas). 

"Não poderia ter me identificado mais. Sou feia, segundo qualquer padrão que conseguiria imaginar. Não me incomoda, como me incomodaria? Me incomoda o que vem com o adjetivo.
Não sou gorda, pelo contrário, e jamais equipararia o que passei ao que a garota deve ter passado. Ainda assim temos histórias incrivelmente parecidas, em pontos que se repetem, e se repetem, e continuarão a se repetir...

Também ouvia os comentários maldosos de completo desconhecidos, também ouvias as piadas dos grupinhos, também ouvi o 'até ela' entre risos. Também era ignorada, e também via o garoto sendo zoado por eu simplesmente falar com ele. Ouvi o comentário do garoto feio. E acima de tudo a pretensão, proferida ou não, de que a garota feia se interessaria por qualquer um que fala com ela. Ouvi do 'beta', muito mais do que do 'alfa', que parecia estar ocupado demais e que não poderia me deixar mais feliz.
Ouvi de mulheres, em mais raras vezes, mas ouvi.
Poxa, só queria acenar para a autora. Acenar para a Lola também...
É só um comentário vazio e quer não pretende chegar a ponto algum. É só um aceno... (Anônima)

O maior prazer na vida é fazer o que
as pessoas dizem que você não
consegue fazer
"Queria prestar minha solidariedade a S, autora do post, mas fica difícil.
Um homem vem e escreve que os homens gordos e feios, coitados, são ridicularizados e só levam fora.
Outra vem e escreve 'simples , basta vc se amar e parar de chorar'.
Outra tenta dar conselhos pra autora se sentir melhor, e toma pedrada (vc só falou coisa óbvia, a autora já sabe disso, que desnecessário...).
Minha opinião (correndo o risco de tomar pedrada de qualquer um dos lados):

- por favor, não comparem homem gordo com mulher gorda. Não tem nem cabimento a comparação. TODOS os gordos que conheço estão casados ou namorando. O único que sei que é solteiro, é porque é um boçal, chato, machista, pegajoso, que ninguém aguenta namorar dois meses (mimimi, porque sou feio, porque sou gordo, porque sou pobre, porque vão me meter chifre), ninguém aguenta mesmo. Então, se o homem fica solteiro é porque é um CHATO e não porque é gordo.
- mimimi, só tem mulher interesseira. Nossa, não sabia que não existia homem interesseiro querendo "encostar" na primeira tonta que aparece. Pela minha profissão (médica), infelizmente já conheci alguns assim, que acham que médica é ser rica, e eles até já quiseram casar/ morar junto, pedir empréstimo pra mim kkkkkk tomaram um NÃO bem grandão.
- sou magra, ano passado e retrasado estava no sobrepeso. Emagreci porque quis, sabe por quê ? Porque sei o que os gordinhas passam e nem de longe quero passar pela mesma coisa. Já passei a adolescência inteira sendo chamada de feia porque era magrela com óculos fundo de garrafa, agora que estou ok, arrumadinha, operação de miopia, e um corpo nos conformes, não quero passar outra metade da minha vida sendo chamada de gorda feia. E não tem coisa pior do que se olhar no espelho e se achar feia. Não quero passar por isso de novo.
Gatx feminista: que se danem
os seus ideais patriarcais de
beleza. Eu sou lindx
Tenho permissão para querer emagrecer, ou vou ser fatalmente chamada de gordofóbica, como já fui chamada aqui três anos atrás? Paciência esgotando em 3,2 1...
- S, autora do post: fui chamada de feia durante todo o período de escola, e por motivos diferentes do seu, consigo me colocar no seu lugar e entender o que vc passa. Superei isso há muito tempo. Pode até pegar mal falar assim, fica clichê, mas a mudança na sua vida tem que vir de dentro de vc, e não de fora. Senão não adianta. E é possível sim, vc ser /se sentir linda.

Se quiser conversar um pouco mais sobre isso, se eu puder te ajudar, peça pra Lola nos colocar em contato que será um prazer. Bj e fique bem!" (Maria Valéria)

10 passos: clique p/ampliar
"S, Nesses dias que vc estiver mal, tenta focar nas qualidades, tá? Com certeza vc tem muitas. E psicoterapia tb pode te ajudar. Me ajudou, não 'curou', mas ajudou demais. É um processo lento, mas as coisas melhoram... Hoje eu gosto de uns 80% do meu corpo, na minha pré-adolescência eu gostava de uns 5%. Eu via defeito em tudo, tudo mesmo. Até quando eu recebia um elogio sincero eu achava que era zoeira. Estamos com vc. Beijos!" (Rê Bordosa)

"Me dá uma tristeza de saber que mesmo no feminismo, a gordofobia não é um assunto levado a sério. É muito fácil para as feministas magras falarem das gordinhas com atitude e que têm os namorados lindos. Só que até você atingir esse estado de autoestima, tem uma vida toda sofrendo com humilhações, piadinhas e fiscalização do corpo. Coisas desagradáveis faladas pelas pessoas que mais nos amam até completos desconhecidos.
É muito fácil dizer para ignorar e ter atitude. Muito fácil colocar a responsabilidade da redenção na vítima. De certo, é desejável às vítimas de gordofobia que saibam q o peso na balança não significa ser melhor ou pior que alguém, mas as pessoas têm que saber que gordo também é gente, cidadão, paga seus impostos e tem sentimentos como todo mundo.
É difícil pra gente superar tudo isso. Eu me forço a acreditar que vestir 40 ou 42 ou não ter ninguém me fiscalizando na fila do fast food é bom. Mas não é fácil ter 'atitude' quando o mundo te prova (falo por experiência própria) que você merece ser tratada com dignidade proporcionalmente ao seu percentual de gordura." (Mila)

Meu corpo não pediu tua opinião
"Já que há tantas pessoas dispostas a ajudar, eu sugiro para as pessoas magras e de peso normal: evitem frases gordofóbicas. Não vá falar: 'vou na academia porque se não vou sair rolando', 'não vou comer essa sobremesa porque não posso engordar', 'deleta essa foto porque fiquei com cara de gorda', 'não acredito que meu ex tá namorando aquela gorda', 'se eu não emagrecer 2 kg, não vou poder colocar biquíni na praia', 'tenho que emagrecer pra ficar uma noiva linda' (...) e tantas outras frases gordofóbicas. Se coloquem no lugar da pessoa gorda quando forem falar uma frase dessas. (Anônimo)

Outra ilustração super
verdadeira da Dani Libardi
"Por enquanto o que posso falar é que me IDENTIFIQUEI completamente com o post, COMPLETAMENTE.
Uma vez um cara falou: homem pode até namorar mulher feia, mas gorda NUNCA. Assim mesmo, com essas palavras. Isso faz anos mas nunca saiu da minha cabeça. É tão desgastante notar pelos comentários que parece que falamos idiomas diferentes e ninguém procura olhar o lado do outro. Um mascu aí falando que a mulher já nasce valorizada e o homem corre em busca de valorização, faz-me rir.

O homem tem as oportunidades na mão, a ele é dado o poder da escolha, enquanto a mulher tem de calcular cuidadosamente seus passos para não ultrapassar os limites da moça de família e a puta, da bonita e da feia, da apresentável e da gorda.
Quanto aos comentários falando que tem um monte de gordinha namorando, que o que importa é atitude, isso pra mim é igual boto cor de rosa, para mim é lenda e só." (Sandra)


"Fico triste em ver os leitores da Lola perpetuarem o mito ridículo de que gordas não têm vida sexual. Sou gorda, bem gorda, e nunca me faltou parceiro. E relacionamentos também. Óbvio que tem pessoas que não se interessam por mim, mas ninguém está imune a isso. Entendo que isso é um drama pra quem é adolescente, mas um adulto já deveria ter entendido que atração sexual é muito mais complexa do que o padrão estético midiático. Existe gosto pra tudo.
Me incomoda saber que meninas jovens plus size vão ler esse texto e acreditar que estão fadadas à eterna solidão, assim como eu me sentia quando eu tinha treze/ catorze anos. No mais, nunca fui ridicularizada em um encontro ou quando dava em cima de alguém. Meninas que têm esse medo: coragem! A internet ajuda muito também (viva o Tinder!), principalmente pra quem não tem muito saco de sair mais pra night.
E não, você não precisa ser uma pessoa super extrovertida. Sou bem anti social, nerd, e não tenho problemas. A maioria dos meus amigos atuais são ex-parceiros. Tenho muito mais dificuldade de fazer amizades com meninas.
Agora, já o mercado de trabalho é sim um problema. Tive (e tenho) muita dificuldade de conseguir emprego. Diria que 2/3 das minhas entrevistas de emprego mal sucedidas são por causa disso. E olha que eu sou bem móvel, já tive empregos em que ficava em pé dez horas por dia, subindo e descendo escada." (Júlia)
Baleia é um bicho magnífico. Como virou insulto?

terça-feira, 25 de agosto de 2015

GUEST POST: POR QUE ELES E NÃO EU?

Maíra, que tem um blog junto com seu marido, me enviou este texto curto (pros padrões aqui do blog). Segundo ela, quando foi comentar a situação abaixo no whatsapp, recebeu "tantas respostas absurdas que pensei que sou mesmo do outro mundo. Gostaria de ouvir os comentários dos seus seguidorxs". Então, lá vai. 

A desigualdade social existente no país é algo que sempre me incomodou bastante. Hoje, como trabalho com direito criminal, atendendo à parte mais desprezada da sociedade, incomoda-me ainda mais. Porém, eu brinco que o meu trabalho pode ser qualquer coisa, menos tedioso. Cada dia é uma novidade. Uma infinidade de desgraças.
Uma, em particular, me chamou a atenção esses dias. Havia uma criança chorando demais no corredor e atrapalhando o trabalho de todos. Fui lá conversar e pedir, educadamente, que a pessoa descesse com a criança, pois ela estava incomodando. A mãe, até envergonhada, me explicou que tinha levado a criança para o pai ver, porque o pai estava preso, e, como teria audiência naquele dia, era a oportunidade.
Eu perguntei então porque ela não levava a filha ao presídio, onde o pai poderia abraçar, ficar junto e tal. Afinal de contas ali ela só iria vê-lo, de longe, algemado nas mãos e pés, com um macacão laranja, uma cena que choca qualquer um, imagina uma criança. Ela me explicou que, para isso, a filha teria que ser registrada, e ela estava providenciando a documentação, já que o pai não tinha RG.
Eu fiquei embasbacada! Como alguém não tem RG no mundo de hoje! Em Santa Catarina, que é um dos melhores estados do Brasil, isso ainda existe! Fiquei pensando no futuro daquela menininha linda: negra, de cabelos cacheados, olhos expressivos e cheia de energia. Qual a oportunidade que essa menina terá dentro da nossa sociedade? Primeiro já não terá apoio de ambos os pais, pois um está preso e passará um bom tempo por lá. Segundo, enfrentará os piores desafios do mundo sendo pobre, negra e mulher. Por que alguns (como a maioria das crianças com quem eu convivo) têm tantos estímulos, boas escolas, natação, balé e etc e essa não tem nada? Por que uma desigualdade tão alarmante? 
Vivemos num país muito pobre e, pior, que tem uma das maiores desigualdades sociais do mundo. É muito triste de ver. Hoje, assim como ontem, anteontem ou amanhã, iremos nos deparar com a parte mais desprivilegiada da população. Voltarei pra casa agradecendo a Deus por tudo que tenho, mas o meu questionamento sempre continuará: por que eles e não eu?

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

O QUE UM CASAMENTO ABERTO ENSINOU A UM HOMEM SOBRE FEMINISMO

Pedi a super querida Elis para traduzir este texto interessantíssimo de Michael Sonmore. Saiu na New York Magazine mês passado e deu muito o que falar.
Relacionamento aberto e poliamorismo não são a minha praia, e podem não ser a sua. Ainda assim, a narrativa de Sonmore é muito válida. 

Enquanto estou escrevendo, meus filhos estão dormindo em seu quarto, Loretta Lynn está cantando no rádio e a minha esposa está em um encontro com um homem chamado Paulo. É o segundo encontro dela esta semana, o quarto este mês. Se tudo acontecer normalmente, ela chegará em casa no meio da noite, deitará ao meu lado e me contará tudo sobre como foi o sexo com Paulo. Eu não vou explodir com raiva nem remoer ressentimentos. Vou falar para ela que é uma história excitante e que estou feliz por ela ter se divertido. É excitante porque ela está animada, e eu estou feliz porque sou feminista.
Antes da minha esposa começar a dormir com outros homens, eu certamente me considerava feminista, mas na verdade só entendia o conceito de forma abstrata. Quando parei de trabalhar para ficar em casa com as crianças, comecei a entender em um nível diferente. Eu sou um dono de casa financeiramente dependente, que lida com a dificílima provação que é criar filhos. Agora que entendo a realidade da situação, eu não culpo as mulheres por exigirem mais para si mesmas do que a vida de uma dona de casa. 
Ainda assim, como homem, se eu quisesse, poderia retratar o que faço como "trabalho" e, assim, reivindicar para mim o prestígio que os homens tradicionalmente derivam do "trabalho". Sempre que digo a alguém que fico em casa com as crianças, a pessoa invariavelmente comenta, "É o trabalho mais difícil do mundo." As pessoas dizem isso porque a única forma de tratar um homem que fica em casa com os filhos é falar que o que ele está fazendo é um trabalho duro. 
Mas há uma mensagem subjacente ao elogio que faz dele ambíguo: todos nós sabemos que ninguém nunca diz isso às mulheres. Mulheres cuidam, homens fornecem cuidados. A diferença é crucial. Apesar da minha retirada completa do mercado e das fontes tradicionais da identidade masculina, eu ainda posso argumentar que sou um provedor. Eu forneço cuidados.  
Dessa forma, minha autoimagem masculina foi esticada, mas não quebrou. Apesar da sacola de fraldas, eu ainda era um Homem. Não foi até a minha esposa mencionar, uma noite, que ela tinha beijado outro homem e gostado e que queria mais do que beijar na próxima vez que eu percebi o quanto o meu status de Homem dependia de um único fato:
que a minha mulher transasse só comigo. 
***
Quando as pessoas perguntam como tudo começou, eu respondo isto: nós nos casamos cedo. Ela havia transado antes, mas apenas com algumas pessoas algumas vezes. Ela nunca tinha tido um namorado, nunca teve um amante. Eu fui o primeiro homem que ela teve a chance de conhecer de maneira íntima. 
Quanto ela tinha 30 e poucos anos, já tendo tido nossos filhos, entrando em sua melhor fase sexual, ela sentiu intensamente sua falta de experiência sexual. Felizmente para mim, ela estava disposta a conversar sobre o assunto, disposta a perguntar se eu estaria aberto a explorar outras opções. Nós abrimos uma garrafa de vinho e começamos a conversar, conversar e conversar.
Ela não apresentou a questão como uma questão feminista, mas depois de me perguntar muito por que a ideia da minha esposa fazer sexo com outros homens me incomodava, eu cheguei a algumas conclusões: a monogamia significava que eu controlava sua expressão sexual e, sem querer parecer um especialista em estudos sobre as mulheres, a opressão do patriarcado se resume, basicamente, ao medo dos homens de que mulheres independentes sexualmente sejam mulheres que eles não conseguem controlar. 
Não temos medo de seu intelecto, seu espírito ou sua capacidade de ter filhos. Temos medo de que, quando for a hora do sexo, nós não sejamos os escolhidos. Esse medo mesquinho nos levou a uma cultura de fazer julgamentos sobre todo o espectro da expressão sexual feminina: Se uma mulher gosta de sexo, ela é uma vadia e uma prostituta. Se ela só gosta de sexo com seu marido ou namorado, é chata e sem graça. E se não gosta de sexo, é frígida e sem sentimentos. Toda opção é uma armadilha. 
O feminismo sempre retorna ao sexo, mesmo quando estamos falando de qualquer outra coisa. A questão não é que todas as mulheres devem ser aventureiras sexuais. O celibato é uma expressão tão válida quanto a licenciosidade. A questão é que as mulheres é que devem decidir, e não os homens -- mesmo os homens com quem elas são casadas. Para a minha esposa, a escolha entre honrar nossos votos e saciar seus desejos era uma escolha falsa, outra armadilha. 
Ela sabia o quanto nosso amor era profundo, e sabia que o fato dela desejar uma variedade de experiências sexuais conforme nós passávamos a vida juntos não diminuiria ou atrapalharia esse amor. Eu precisei de seis meses -- muitas conversas longas e intensas e um oceano de vinho tinto -- para saber disso também.
Quando minha esposa me disse que queria abrir nosso casamento e ter outros amantes, ela não estava me rejeitando, estava abraçando a si mesma. Quando entendi isso, eu finalmente me tornei um feminista. 
***
Isso aconteceu há dois anos e, no momento, nunca fomos mais felizes, nunca estivemos mais em sintonia, mais próximos, unidos, fortes. Qualquer que seja o poder a que eu renunciei, não me faz falta. Eu não recomendaria isso a todos, mas digo a todos que funciona para nós.  
Como funciona? Nós nos alternamos para sair. Como temos filhos pequenos (com 3 e 6 anos de idade), um de nós fica em casa. (Não gostamos de contratar babás porque limita nosso horário, preferimos sair despreocupados em vez de ficar pensando que vamos virar abóboras à meia-noite.) Sair sozinhos para encontrar outras pessoas foi uma transição fácil. Funciona para os dois e, sim, eu também tenho minha carta branca sexual. Só não uso a minha tanto quando minha esposa usa a dela. O que é importante é a igualdade de oportunidade, não os resultados.
Qual é a sensação? Ótima... na maioria das vezes. Na maior parte do tempo, a sensação é de estar lidando de maneira madura e responsável com nossos desejos e necessidades dentro de nosso casamento cheio de amor e apoio mútuo. A sensação é de ser adulto, especialmente porque tudo depende de uma comunicação honesta e aberta. Nós nos orgulhamos muito de todas as nossas conversas. 
Eu conheço muitas pessoas que dizem que nunca irão se casar porque não querem se divorciar, e ouvir isso sempre me entristece porque elas estão se privando da magia que acontece quando duas pessoas compartilham suas vidas. As pessoas não se divorciam porque não aguentam mais compartilhar, elas se divorciam porque sentem que não podem compartilhar o suficiente. Eu nunca esqueço que minha esposa é uma pessoa completa em si mesma, um indivíduo completo e dinâmico e, embora estejamos juntos, não somos um só. 
Muito frequentemente, as pessoas ficam presas nos papéis de marido e mulher, e abre-se uma lacuna entre o que elas acham que deveriam ser e quem realmente são. Abrir nosso casamento nos permitiu preencher essa lacuna, de modo que a pessoa que chamo de "esposa" é a mesma pessoa que minha esposa vê no espelho. Mentir para o outro começa com mentir para si mesmo, e agora não precisamos mentir para ninguém.  
Existem, claro, momentos de ciúmes, ressentimentos e insegurança. Recentemente, minha esposa saiu para um encontro e dormiu no apartamento do cara. Eu não tinha notícias dela desde as 10 da noite, ela ainda não estava em casa às 6 da manhã. Minhas mensagens não foram respondidas e minhas ligações foram para a caixa postal. Um nó se formou em minha garganta enquanto eu imaginava todo tipo de situação perigosa e percebia que não só não sabia onde ela estava, mas não fazia ideia de com quem ela estava. 
Eu me vi indo à polícia e dizendo, "Acho que ela está em Red Hook com um cara chamado Ryan. Não sei o sobrenome dele, mas acho que ele é designer gráfico." Não sei se existe uma palavra que descreva a mistura única de terror extremo e vergonha imperdoável que senti naquela manhã imaginando que tinha perdido minha esposa para Ryan, o possível designer gráfico. Quando ela finalmente me enviou uma mensagem às 7h30, o alívio me percorreu como se fosse morfina. Ela escreveu, "merdamerdamerda descuuuulpa. Eu dormi."  Eu respondi,  "Estou feliz que você está bem, mas na próxima vez nada de silêncio. Lembre-se: você não está sozinha."
O que mais surpreende as pessoas é quando eu digo que o que me incomoda não é o sexo. O sexo é a parte fácil, a parte divertida. O que pode ser difícil é aquilo que o sexo representa, conecta, revela. Eu não quero que ela se apaixone por outra pessoa, e sempre que ela sai para um encontro eu enfrento a possibilidade disso acontecer. 
Aconteceu no começo: a primeira pessoa com quem ela saiu após abrirmos nosso casamento se apaixonou por ela, e minha esposa, confusa com o ardor dele, tentou retribuir seu amor. Assistindo isso acontecer, fiquei confuso, com raiva e apavorado dela querer me deixar. Ela me garantiu que não queria e, qualquer que fosse o sentimento que nutria por ele, não diminuía o que sentia por mim. Acreditar nela naquela época foi o maior exercício de confiança possível. Nós sobrevivemos porque no fim eu acreditei nela, e também porque aprendi a confiar em mim mesmo.
Este tem sido o grande desafio do meu casamento aberto: criar força a partir das vulnerabilidades. Fazer isso requer uma autoconfiança suprema. Primeiro você precisa amar a si mesmo real e verdadeiramente. É o alicerce sobre o qual todos os outros amores são construídos. De todo lado vem a mensagem de que o que estou fazendo é para fracos, perdedores, fracassados. De que se eu tivesse dinheiro e status, conseguiria manter minha esposa "na linha". De que sua autodescoberta acontece às custas da minha autoestima. 
Meu casamento aberto exigiu muito da minha capacidade de silenciar a voz da dúvida na minha cabeça, aquele sentimento corrosivo de ser uma pessoa sem valor. Mas eu acredito que consigo lidar com essas exigências, e que sou capaz de construir minha autoconfiança com base apenas na dignidade que todos nós temos. 
Sou grato a minha esposa por ela nos ter levado a dar esse salto, e o que quer que aconteça conosco no futuro, eu faria tudo de novo. E quando chegar em casa hoje à noite, deitar ao meu lado e me contar a história excitante de seu encontro com Paulo, ela também fará tudo de novo.