sexta-feira, 6 de março de 2015

FEMINISTAS ESTÃO TÃO CERCADAS PELO ABUSO ONLINE QUE ALGUMAS COMEÇAM A DESISTIR

Não me canso de repetir: a internet é uma ferramenta maravilhosa para que muita gente tenha voz para tentar mudar o mundo, mas também é um espaço cheio de oportunidades para que covardes anônimos ataquem minorias.
Nana Queiroz
Já passou da fase de nós feministas considerarmos os insultos, ameaças, e toda tentativa de silenciamento como "normal", "ossos do ofício". Não, não é normal um bando de misóginos de chans (fóruns anônimos) mandarem pacotes com esterco para a Ana Freitas, uma jornalista que escreveu um texto sobre nerds e machismo (e foi atacada por nerds machistas para provar que ela tinha total razão). 
Juliana de Faria
Não é aceitável que tantos caras asquerosos possam nos ameaçar impunemente. Quando isso vai parar? Quando um deles cumprir uma ameaça e alguma de nós for estuprada e/ou morta? 
Pedi para a querida Lidiany traduzir este artigo de Michelle Goldberg que saiu no Washington Post. Ele fala da realidade americana, que não está muito diferente da nossa. 

Jessica Valenti é uma das feministas mais bem sucedidas e visíveis de sua geração. Como colunista do The Guardian, seu rosto aparece regularmente na primeira página do site. Ela escreveu cinco livros, um dos quais foi adaptado para um documentário, desde a fundação do blog Feministing. Ela dá palestras em todo os EUA. E afirma que, por causa do assédio incessante que escritoras feministas enfrentam online, se ela pudesse começar novamente, iria preferir ser completamente anônima. "Não sei se eu faria isso usando o meu nome real", ela diz que fala às jovens que estão interessadas ​​em escrever sobre feminismo. "Não são apenas as preocupações com a segurança física, mas as consequências emocionais" do constante e incessante abuso.
Este é um momento estranho, contraditório para o feminismo. Por um lado, nunca houve tanta demanda por vozes feministas. Estrelas pop como Beyoncé e Taylor Swift vestiram com orgulho o manto feminista, incentivadas por fãs online. Depois de anos sendo desprezado pela grande imprensa, o movimento agora é uma obsessão editorial: Faça Acontecer, de Sheryl Sandberg, Não Sou Uma Dessas. de Lena Dunham, Bad Feminist, de Roxane Gay, e Yes Please, de Amy Poehler, estão nas listas dos mais vendidos, às vezes no topo da lista. 
"Histórias sobre preconceito de raça e gênero chamam atenção de grandes audiências, tornando a política de identidade um centro de lucro de confiança em uma indústria de mídia assolada pela insegurança", Jonathan Chait escreveu recentemente na revista New York -- uma proposição que teria sido impensável uma década atrás.
Anita Sarkeezian
Por outro lado, enquanto a mídia digital tem amplificado vozes feministas, tem também cobrado um alto preço psíquico. Pede-se para as mulheres contarem suas histórias, mas elas estão sendo ferozmente punidas quando o fazem. Algumas -- em especial as mulheres que têm a audácia de criticar o sexismo no mundo dos videogames -- tiveram que deixar suas casas ou foram forçadas a cancelar aparições públicas. Anúncios falsos que solicitam sexo violento foram publicados em seus nomes. E claro, o assédio no Twitter nunca pára. 
Roxane Gay,Bad Feminist
"Ser insultada e ameaçada online é parte do meu trabalho", disse Lindy West, que trabalhava no Jezebel, recentemente em "This American Life". Jamia Wilson, diretora-executiva do grupo de defesa feminista Women, Action and the Media (Mulheres, Ação e Mídia), acrescenta: "Isso realmente pode afetar a maneira como as pessoas se sentem sobre si mesmas".
Jamia Wilson
As feministas do passado enfrentaram críticas raivosas, cartas ao editor e até mesmo protestos. Mas é mais difícil escapar do ódio incessante, violento, sarcástico e sexualizado que suas sucessoras absorvem. Para as mulheres não brancas, abuso racial vem junto com o sexismo. "Recebi ameaças de estupro racializadas que não acho que iria necessariamente receber se eu fosse branca", diz Wilson. "Um monte de coisas sobre anatomia -- anatomia das mulheres negras". Ela fala sobre o abuso online na terapia. "Há trauma, especialmente relacionado com as ameaças de morte e de estupro", diz ela. Eventualmente, esse abuso continuado acaba mudando as pessoas -- tanto como elas vivem quanto como elas trabalham.
Em seu memorável livro Backlash [leia inteiro aqui, traduzido], Susan Faludi descreveu as mensagens culturais anti-feministas da década de 80 como um "processo gradualmente implacável" que "serviu para agitar ansiedades particulares das mulheres e quebrar suas vontades políticas." O backlash online de hoje pode ser ainda mais esgotante. Ele enfraquece a moral e leva ao esgotamento."Você não pode ser chamada de puta dia sim, dia não por 10 anos e não ter um impacto muito sério em sua psique", diz Valenti, que pensa em desistir "o tempo todo." Quanto tempo pode esta geração de feministas aguentar?
Mulheres audaciosas, é claro, têm sido alvos de raiva e desprezo há tempos. Em 1969, quando Marilyn Webb falou sobre o feminismo em uma manifestação contra a guerra em Washington, muitos dos homens que estavam ouvindo se enfureceram, gritando para que ela saísse e exigindo que ela fosse puxada para baixo e estuprada. As feministas da Segunda Onda regularmente lidaram com a hostilidade do mundo real dos homens de esquerda, que seria inconcebível hoje. 
Nona Willis Aronowitz, editora no Talking Points Memo, é filha da reverenciada escritora feminista Ellen Willis, que escreveu para publicações como o Village Voice e The New Yorker. "Esqueça  comentaristas aleatórios online -- as pessoas que trabalhavam com ela nessas publicações eram totalmente sexistas", diz Aronowitz. Os funcionários, Willis escreveu uma vez, regularmente se referiam a suas colegas do sexo feminino como as "feministas stalinistas."
Desta forma, as histórias hoje sobre abusos na internet inevitavelmente levantam clichês sobre calor e cozinhas -- demandas para que as mulheres endureçam e desenvolvam uma casca grossa. Polêmicas e ativismo, afinal, são atividades relativamente cômodas. Ler "tweets virtuais asquerosos" é muito melhor do que ser "um imigrante sem documentos tentando alimentar sua família nos Estados Unidos, ou alguém que é injustamente encarcerado, ou qualquer uma das questões nas quais trabalhei," reconhece Sally Kohn, colunista do Daily Beast que anteriormente era a única contribuinte de esquerda feminista lésbica na Fox News, tornando-a um alvo especial para trolls.
No entanto, ainda que as mulheres tentem ignorar o abuso, ele pode derrubá-las, diz Aronowitz. Algumas jovens escritoras têm dito a ela, mais ou menos brincando, que se sentem com PTSD (transtorno de estresse pós-traumático). "Elas não vão escrever sobre isso novamente porque têm medo do ódio online?"
De fato, algumas não vão. Em 2013, a ativista pró-escolha Jaclyn Munson escreveu sobre ter ido disfarçada a um centro anti-aborto. Logo um stalker lhe enviou ameaças de morte. Ele a assustou tanto, que ela começou a dormir com as luzes acesas. Um ano atrás, exausta e esgotada, ela parou de escrever online, excluiu sua conta no Twitter e agora planeja ir para a faculdade de direito, o que ela espera que irá ajudá-la no seu trabalho com as questões sobre as quais ela se preocupa de forma mais segura, menos exposta. "Estava se tornando emocionalmente esmagador estar nas linhas de frente o tempo todo", diz ela.
Agora as coisas estão diferentes com a existência de misoginia organizada, com grupos de homens que estão com raiva da organização do movimento feminista, como os Men’s Rights Movement (movimento pelos direitos masculinos) e Gamergate, uma rede difusa de entusiastas do videogame furiosos com os protestos contra o sexismo na indústria. Nos anos 80 e 90, "a cultura mainstream da mídia era mais anti-feminista. Isso era quando diziam que o feminismo estava morto, todas as mulheres só querem casar, esse tipo de coisa", diz a colunista Katha Pollitt, uma colega minha no Nation. "Mas os masculinistas, Gamergate, isso é novidade. São grupos de homens incrivelmente enfurecidos que se encontraram uns nos outros".
Talvez, Pollitt diz, seja "um sinal de nosso sucesso" que a reação anti-feminista seja principalmente digital. Mas quando misóginos online decidem alvejar uma mulher em particular, eles muitas vezes têm acesso a uma quantidade sem precedentes de informações pessoais sobre ela. "Na época em que tudo era apenas impresso, você escrevia seu artigo, mas não havia fotografias de si mesma em todos os lugares", diz Pollitt. "As pessoas não sabiam onde você morava, não sabiam nada sobre a sua vida privada. É totalmente diferente agora".
Uma vez que uma mulher se torna alvo de um grupo de direitos dos homens, como  A Voice for Men, o fórum misógino do Reddit, The Red Pill, ou mesmo apenas uma de conta de direita no Twitter como Twitchy, ela será soterrada pelo ódio. O ataque, além de assustar o alvo, serve como um aviso para espectadoras. Jill Filipovic, uma escritora política sênior que fala sobre questões feministas na Cosmopolitan, diz que recentemente tentou convencer uma amiga a se candidatar a um cargo público. "Há várias razões pelas quais eu não gostaria de fazer isso, mas uma delas é que eu sigo você no Twitter, eu vejo o que as pessoas dizem para você. Eu nunca poderia lidar com isso", sua amiga lhe disse.
Muitas pessoas não conseguem. Ano passado, a ativista pelo direito ao aborto Lauren Rankin desistiu de escrever online e principalmente no Twitter, porque as ameaças e insultos se tornaram cansativos demais. Ela continua a servir no conselho da ONG pelos direitos reprodutivos, A Is For, e se depara com os manifestantes anti-aborto como uma voluntária acompanhante para clínicas, mas já não se envolve publicamente. "Eu não gosto da ideia de que eu estava com medo e fui intimidada para sair da internet", diz ela. "Mas acho que me reorganizei sobre por que faço o que faço, de forma que eu possa manter a minha sanidade mental. Infelizmente, isso não envolve tanto a internet".
Filipovic, ex-editora do blog Feministe, diz que, apesar de ter engrossado sua casca ao longo dos anos, a necessidade diária de se preparar contra os ataques online fez com que ela mudasse. "Eu duvido muito mais de mim mesma. Você lê tantas vezes que você é uma pessoa terrível e idiota que é muito difícil não começar a acreditar que talvez eles vejam algo que você não enxerga". Ela também acha mais difícil baixar a guarda. "Eu ainda não descobri como passar o dia todo me preparando contra as críticas -- e não apenas críticas, mas as coisas realmente horrendas que as pessoas dizem para você e sobre você. E, em seguida, ir para casa e 30 minutos mais tarde ser uma pessoa emocionalmente disponível e normal".
Enquanto isso, a criadora do Feministe, Lauren Bruce, já não tem mais qualquer presença online. "Eu tive que desistir dessa parte, a fim de viver o resto da minha vida", diz ela. "A fim de trabalhar, ter uma boa família e me sentir emocionalmente completa, eu não poderia continuar nesse ambiente tóxico."
Sandra Fluke
As mulheres que querem enfrentar esse ambiente tóxico passam por um dilema. Online, a maneira mais fácil de entregar a sua mensagem é torná-la pessoal. De Lena Dunham a Sandra Fluke e Emma Sulkowicz, todas as figuras feministas mais proeminentes dos últimos anos abriram suas vidas para o público. Artigos em primeira pessoa escritos por mulheres atraem muitas visitas. "Eu tentei orientar algumas poucas jovens escritoras", diz Jessica Valenti. "Elas estavam encontrando dificuldades para conseguir publicar seus primeiros artigos, então disse a elas para escreverem algo sobre suas vaginas, e de repente as portas se abriram."
Essa auto-revelação, no entanto, atrai uma grande quantidade de sadismo. Considere o site para mulheres xoJane, especializado em narrativas em primeira pessoa. Ser publicada lá pode ser uma grande oportunidade, mas as escritoras raramente duram muito tempo no site. "Nós as trazemos pra cá, as desenvolvemos, elas são capazes de fazer o seu nome e deixar sua marca online, e na primeira oportunidade elas vão para algum lugar mais seguro, como a mídia impressa", diz Emily McCombs, editora executiva do site. "Parte disso é definitivamente não conseguir aguentar o assédio".
Ela mesma decidiu que seu próximo trabalho não será online -- ou seja, será longe da ação. "Como resultado da escolha de ser uma escritora online, eu tenho que ler mensagens diretas de trolls nas minhas redes sociais me dizendo como eu sou feia e gorda todos os dias", diz ela. "Existem fóruns inteiros na internet onde grupos inteiros de pessoas discutem o quanto estou envelhecendo mal. Você não consegue aturar isso por muito tempo. Eu já vi muitas mulheres neste setor ficarem esgotadas".

quinta-feira, 5 de março de 2015

GUEST POST: COMBATER AS OPRESSÕES, NÃO A VIDA ESTUDANTIL

Angélica, que concluiu sua dissertação em Londres com distinção (sobre a privatização da água na Bolívia em 2000), e está cheia de planos para o doutorado (vai falar de Belo Monte), estudou na Universidade Federal de Ouro Preto durante cinco anos, entre 2003 e 2008. 
Diz ela: "Longe de mim defender macho criminoso e práticas imbecis reiteradas. Mas é necessário que se pondere. Há coisas maravilhosas desse sistema de Ouro Preto e a vivência na universidade que colidem com relatos tão parciais". Então vamos a sua opinião:

O meu relato é sobre o que lutar contra, para que tenhamos grandes resultados. Falar de Ouro Preto envolve um universo de contradições; espero colaborar com a luta e com a discussão.
Quando li o guest post sobre trote em Ouro Preto, já imaginava o que estaria por vir. É complexo e terrível o relato, e piores são as denúncias sobre violação de direitos humanos relacionados às festas de Ouro Preto. Há fatos dramáticos da história institucional das repúblicas de Ouro Preto relacionados à opressão. Houve óbitos de moradores de repúblicas que foram imediatamente associados ao consumo de álcool e outras drogas.
Trote na UFOP
Acredito que a fama que se fez ao longo dos anos impede qualquer outra versão midiática dos fatos, mesmo que apurados e desvinculados. De fato, temos mais é que denunciar mesmo e dar visibilidade. Chega de opressão de qualquer forma no espaço pensante de mais alto nível da vida acadêmica: a casa. Onde estudantes moram, comem, dormem, dividem experiências, estudam, conversam, conflitam, fazem amigos e festas, aprendem a viver essa etapa da vida e essa instituição republicana. Não pode haver opressão.
Eu morei em uma república de Ouro Preto, a Rebu –- a primeira república federal para mulheres, fundada em 1975. Até então, havia poucas casas femininas, e as "repúblicas federais" eram exclusivamente masculinas (é importante mencionar que as repúblicas não recebem fomento público para manutenção e moradia. As repúblicas federais, onde não se paga aluguel, pertencem à universidade, mas tiveram diversas formas de aquisição e foram doadas. A mais recente forma de surgimento de repúblicas federais foi feita pela própria comissão de repúblicas, e novas casas públicas vêm sendo construídas. Existem também repúblicas particulares e o alojamento da universidade). 
A Rebu foi conquistada com a luta de grandes mulheres que, em plena ditadura militar, estudando curso superior fora de casa, resistiram a uma rocha machista quase inquebrável. Tanto a instituição da universidade quanto todos os aspectos da vida na cidade eram (e são) machistas. Falo sobre a Rebu porque nela vivi maravilhosos anos, que edificaram meu caráter. Apesar de o ambiente estudantil de Ouro Preto não se restringir absolutamente às repúblicas, a casa onde morei fez grande diferença na minha construção pessoal e na luta política e social de Ouro Preto.
Como em qualquer instituição, as repúblicas têm liberais e conservadores. Exercitando a “difícil tarefa de se amar a democracia”, é de se perceber nítidas mudanças comportamentais nas gerações republicanas. Me formei em 2008 e, sempre que volto à casa, fico impressionada com a capacidade de reflexão e o brilho das atuais moradoras, a constante discussão política e a necessidade de criar novos mecanismos de relacionamento na vida republicana. 
Eu sou otimista, vejo que a força dessas repúblicas e suas práticas vêm amadurecendo com o tempo. Mas não é suficiente. Precisa de mais gente atuando firme para que essas mudanças aconteçam. Precisa da universidade, dos movimentos, de agentes externos para apoio e construção. Alguns republicanos podem até ser ignorantes à gravidade da situação, mas tem mais gente boa do que gente ruim, faltam lideranças para essas mudanças. 
Esse sistema é carente de apoio público, que deve ter a iniciativa de dialogar com essas repúblicas para a construção. Pela característica sazonal dos moradores, que ficam o período da graduação na república, as mudanças a longo prazo requerem mais participação para enfrentar as práticas danosas, sem desconfigurar as características fundamentais da instituição: a inclusão, o legado, a autonomia, a história e interação positiva dessas casas na vida da cidade, a possibilidade de participar dessa moradia estudantil absorvendo as grandes lições de vida coletiva.
Lendo relatos como esse, é de se pensar sobre quem mora nessas repúblicas, por que agem dessa forma, quem são os estudantes da universidade federal que mantêm ou negligenciam esses relatos, se foram realmente negligenciados por todas e todos. Há centenas de repúblicas femininas em Ouro Preto, há milhares de mulheres. É falso generalizar: nesse combate, devemos atingir os opressores e descobrir simpatizantes. Em caso de abuso de qualquer forma, as mulheres devem se unir. 
Pode soar romântico de alguma forma, é preciso muita educação humanista e paciência histórica, mas cada vez mais estamos falando de conscientização para fortalecer a luta. Como instituições históricas, de gestão e financiamento próprios, com suas práticas reiteradas, importantes para a cidade, as repúblicas têm muito a oferecer na luta para combater opressões. São força por si, protagonistas numa mudança que acontece lentamente todos os dias por dificuldades às vezes em até alcançar o discurso feminista e de inclusão, perante todo o machismo e abuso que se pratica na sociedade.
É importante pontuar que existe muita gente que considera que abusos são tradições, ou são liberdade de discurso, que o politicamente correto chegou para dar fim à toda aquela época de outrora em que bom mesmo era fazer piadinha com oprimido e, de alguma forma, exercer poder. 
Os ídolos dessa galera são esses Jackass Gentili que viram um filme americano sobre os colleges e se empolgaram. Não é só em Ouro Preto que se justificam opressões com tradição, mas para mim é muito difícil compreender que na cidade onde mais se prega a liberdade, continuamos mantendo essa gente tão careta e covarde.
Meu argumento é que os pretextos não sejam contra as repúblicas ou a vida estudantil de Ouro Preto, mas ao machismo institucional, à verdade que tanto se nega sobre quebra de preconceitos que vem à tona. É difícil melhorar o sistema. É uma pedra que se rola morro acima, por enquanto. Os movimentos feministas já foram até Ouro Preto protestar e questionar, mas acredito que devem ter mais sororidade com as mulheres que moram nessas repúblicas, de forma a buscar um entendimento do que de fato acontece, como se enfrenta e de onde sairão as soluções. 
Muitas das estudantes ainda estão despreparadas para o feminismo como uma luta construtiva, seja dentro da universidade, seja no comportamento estudantil. Eu tenho muito mais intuição na força conjunta das mulheres republicanas de Ouro Preto do que em ataques com a intenção de destruir as repúblicas, já patrimônio cultural da cidade.
Mulheres e homens de Ouro Preto, combatamos o machismo.

Hino da Rebu
Mexo, remexo na inquisição
Só quem já morreu na fogueira sabe o que é ser carvão
Eu sou pau pra toda obra, deus dá asas à minha cobra
Minha força não é bruta, não sou freira nem sou puta
Porque nem toda feiticeira é corcunda,
Nem toda brasileira é bunda
Meu peito não é de silicone
Sou mais macho que muito homem
Sou rainha do meu tanque
Sou Pagu indignada no palanque

quarta-feira, 4 de março de 2015

ARTIGOS NA GRANDE MÍDIA DESTROEM MASCUS AMERICANOS

Nessas últimas semanas vários artigos sobre MRAs (Men's Rights Activists, ou Ativistas pelos Direitos dos Homens, ou como prefiro chamá-los, mascus) americanos foram publicados em revistas mainstream dos EUA. 
Pra começar, um texto interminavelmente longo, e chato, apareceu na Vox, com o título "A internet está cheia de homens que odeiam o feminismo. Aqui está como eles são em pessoa". Ainda que o autor seja crítico do masculinismo, ele certamente humaniza os mascus, ao pintá-los como pobres coitados em vez de seres asquerosos cheios de ódio (aliás, não só contra as feministas, mas contra as mulheres, ponto). 
No artigo, o autor gasta sei lá quantas noites (três?) bebendo cerveja com um mascu anônimo, "Max", que não é ninguém na fila do pão. Sim, ele é retratado como um loser, um fracassado, mas carismático, um carinha normal, boa gente, que apenas tem o hobby inofensivo de passar suas horas vagas xingando e ameaçando feministas na internet. Quer dizer, WTF?
No começo de fevereiro o Buzzfeed publicou um artigo enorme sobre Paul Elam, fundador do maior site mascu do mundo, A Voice For Men (sorry, sem links pra sites de ódio aqui). AVFM é um poço de misoginia, se bem que, nos últimos anos, Elam tem tentado se passar como um humanitário e defensor dos direitos humanos. Obviamente, não cola. Elam é autor de projetos como registrar todos os dados pessoais (telefone e endereço residencial, por exemplo) de todas as mulheres que ele odeia (quase todas feministas) e encorajar seus seguidores a persegui-las. 
Elam já escreveu que, se fosse chamado para fazer parte de um júri para julgar um estuprador, votaria na sua inocência, mesmo se soubesse que ele é culpado. Escreveu também que outubro deveria ser o mês de "Arrebentar a cabeça de uma vadia". Entre mil e uma besteiras e mentiras.
E não é que ele escreveu, no passado. Ele continua falando todas essas barbaridades. Ele é como um Olavão, versão mascu. Fica bravinho, xinga de todos os palavrões possíveis, mas quer posar de filósofo, intelectual, respeitado, racional. Só reças acéfalos caem nessa.
Mas eu não sabia nada sobre a vida pessoal de Elam, e o artigo da Buzzfeed, pqp, que paulada. Elam tem 57 anos, não é um menino. Já foi casado três vezes. Só a primeira mulher aceitou falar sobre ele, só que com outro nome. As outras duas se recusaram, temendo retaliações. A terceira afirmou nunca mais querer qualquer tipo de contato com ele. 
Elam recorda-se de quando tomou a pílula vermelha (o que mascus dizem ser seu despertar, quando percebem que o mundo é uma matrix feminista, e eles são meramente escravos) pela primeira vez. Ele tinha 13 anos. Sua mãe o forçou a tomar um remédio para parar diarreia. Os irmãos tiveram que segurá-lo no chão da cozinha, porque ele não queria engolir a cápsula. "Fui um rebelde a partir desse momento. Ainda sou o menino de 13 anos no chão recusando-se a tomar o remédio", escreveu ele. 
Elam se casou pela primeira vez, quando esteve brevemente no exército, com 21 anos. Susan tinha 18. Nenhum dos dois tinha dinheiro, e a família dela foi contra o casamento. Elam bebia, usava drogas, sumia e ia dormir nas ruas, e foi inclusive preso. Susan foi estuprada por um amigo de Elam, mas só contou pra ele depois que Bonnie nasceu (e Bonnie é a cara de Elam). 
Previsivelmente, Elam culpou Susan pelo estupro. Por não aguentar mais, Susan, grávida do segundo filho, separou-se de Elam, que estava viciado em drogas e álcool. Ela ficou com a custódia dos filhos (ele podia visitá-los um domingo a cada duas semanas, desde que não estivesse drogado ou embriagado), e a corte determinou que ele teria que pagar pensão para os filhos. Ele não pagou. 
Finalmente, Elam foi obrigado a pagar uma multa de cem dólares e pegar 30 dias de prisão pelo não pagamento de pensão. Após cobrir US$ 1,200 em dívidas, as duas partes aceitaram que os direitos paternais de Elam estavam encerrados. Só pra deixar claro: o mascu mais famoso do mundo (tirando aqueles que saem por aí matando gente), que reclama tanto de como o sistema prejudica os pais, nunca pagou pensão para seus filhos (um deles um menino, daqueles que Elam jura defender).
Anos mais tarde, Elam mandou uma carta para os pais de Susan pedindo perdão, culpando as drogas pelo seu comportamento. Susan não respondeu. Em 2005, quando Bonnie, a filha mais velha, tinha 26 anos, ela decidiu descobrir onde estava seu pai. A essa altura, Elam já tinha sido consultor de habilitação de drogas, construtor e motorista de caminhão. 
Quando eles se reencontraram, Bonnie lhe disse que odiá-lo não resolveria nada. Elam chorou muito. Diz Bonnie: "Ele pensou que eu seria uma maníaca lunática cheia de raiva. Era o que ele queria que eu fosse". Apesar de Elam ser narcisista e megalomaníaco, pai e filha tiveram um bom relacionamento a distância durante alguns anos, até que Elam bateu no filho de Bonnie por abrir sua geladeira. 
Um pouco antes disso, em 2010, Elam escreveu para sua filha: "Tenho me enterrado na escrita do site porque isso anestesia a minha dor e me faz pensar em outras coisas, em vez de me sentir um fracasso". Ele já tinha o site há dois anos.
Ele vivia do dinheiro da namorada. "Lá estava ele na internet xingando as mulheres, mas vivendo do dinheiro de uma mulher," diz Bonnie. "A namorada dava dinheiro e com isso permitia que ele escrevesse, e online ele dizia 'Não dê um centavo para a vadia'".
Não se sabe exatamente quanto dinheiro a AVFM consegue em doações hoje, mas calcula-se milhares de centenas de dólares (só em poucos dias no ano passado, quando Elam pediu doações para aumentar a segurança da primeira conferência para temas dos homens, realizada em Detroit, foram mais de 32 mil dólares). 
Uma vez Elam admitiu que "cada dólar ia direto pro meu bolso". Ainda assim, a AVFM tem mais de 30 colaboradores, todos voluntários. O dinheiro arrecadado não vai para qualquer causa, apenas para a causa de sustentar Paul Elam. O site também tem uma loja online, chamada A Loja da Pílula Vermelha, que vende camisetas e capas para celulares. O faturamento estimado é de 120 mil dólares por ano, direto para os bolsos desse "humanitário". Ou seja, é rentável ser misógino (muito, muito mais que ser feminista, acredite).
O outro artigo que li apareceu semana passada na GQ, uma revista masculina. O título é "Você é homem o suficiente para o movimento dos direitos dos homens?" Eu adorei o texto, que é bem divertido em algumas partes e destrói completamente o masculinismo. O autor, Jeff Sharlet, esteve na conferência mascu em Detroit no ano passado, e viu a ação mascu (tão parecida com os PUAs, os pick-up artists) pra cima de uma amiga sua. É patético, pra dizer o mínimo (e, se é possível piorar, o mascu envolvido na paquera da amiga respondeu num artigo na AVFM que ela foi levada pra conferência pra ser estuprada). 
Um dos melhores momentos é este, em que o jornalista vai ao quarto de hotel de Elam a uma da manhã, para entrevistá-lo. Elam então dirige-se a Blair, amiga do jornalista:
O texto capta bem a decisão de Elam, que é a mesma que ele deve fazer todos os dias no seu site de ódio: fingir-se de bonzinho ou mostrar o doente que é? Ele sempre escolhe o segundo caminho.
Eu, como a feminista que criou e popularizou o termo "mascu" no Brasil (um termo amplamente pejorativo, tanto que nenhum masculinista brasileiro se diz masculinista hoje, mas que é apenas um diminutivo para masculinista), que escreveu tanto sobre mascus, na maior parte das vezes usando humor, acho positivo que a grande mídia disseque esse movimento de ódio. Mas li o que Melissa escreveu sobre esses artigos recentes, e concordo bastante com ela. 
Não sou leitora habitual do Shakesville, mas conheci o trabalho de Melissa logo que comecei meu blog. Foi meu primeiro contato com a misoginia na internet. Na época, Melissa narrou o estupro que sofreu quando era adolescente e recebeu todo o tipo de ódio. Em 2008, eu nem sabia que mascus existiam. Mas ela já era alvo deles havia anos. E continua sendo.
Melissa critica esses três artigos, e também brevemente o de Lindy West, em que ela encontra seu troll mais cruel (aqui a tradução). Mas creio que todo texto, filme, peça, enfim, toda obra que dá voz a um monstro acaba humanizando-o (ok, menos o artigo sobre Paul Elam, mas pensa bem, praticamente todos os filmes sobre Hitler são acusados de humanizá-lo). 
Para Melissa, humanizar os abusadores e nunca humanizar suas vítimas apenas perpetua o abuso. "O problema não é que os abusadores não são vistos como humanos. O problema é que abusadores não veem suas vítimas como humanas", diz ela.
Isso é muito verdadeiro. Só um exemplo que printei outro dia.
Melissa desafia todos os veículos midiáticos que publicam artigos humanizando trolls a publicar artigos correspondentes humanizando mulheres. 
Seu temor é que os leitores dos artigos vejam mascus como lunáticos mas inofensivos, desde que você não se aproxime deles (eles devem ser vistos como terroristas que querem silenciar mulheres). 
Melissa afirma: "Eu não preciso 'entender' por que homens me atacam violentamente, porque sou uma mulher feminista com visibilidade. Só quero que eles parem. Humanizar mascus como fracassados malucos e bizarros não ajuda aquelas de nós que somos alvejadas por eles. E não preciso que você fique chateado que isso aconteça com mulheres. Preciso que você fique zangado". 
Para mascus, lógico, não existe publicidade negativa. Qualquer pessoa minimamente sensata que os lê percebe o bando de escrotossauros preconceituosos que são. Mas só isso não freia os ataques. Eles seguem ameaçando, apesar de todo mundo saber que eles são imprestáveis.