quarta-feira, 22 de maio de 2013

ERA VERDADE: FEMEN CONTROLAVA O CORPO DAS ATIVISTAS

O Femen não o aceitaria no grupo

Será que ainda falo do Femen? Meu instinto me diz que não, porque já entrei em tretas demais (uma, que eu saiba) por esta semana, e são tretas que nem têm a ver comigo. Além do mais, já falei do Femen no sábado. Por outro lado, estão me pedindo pra falar. Ó, dúvida cruel!
Tá, então vou falar, mas será a última vez por muito tempo. Começando por detalhes saborosos que deixei fora do outro post: o Femen Ucrânia queria que sua franquia brasileira pichasse o Cristo Redentor, no maior vandalismo da história. Segundo a matéria (e vou dar um voto de confiança a Sara e pensar que os jornalistas distorceram suas palavras, o que qualquer pessoa que já deu entrevista sabe que é comum), Sara só não acatou a ordem porque não tinha dinheiro pra alugar um helicóptero. De fato, a hora de um helicóptero certamente é muito mais cara que a mixaria de 300 dólares mensais que ela recebia por mês como ajuda de custo. E que só recebeu duas vezes.
Acredito piamente que o Femen Ucrânia pediu pra pichar o Redentor. Suas ações são muito sem noção mesmo. Agora, vamos supor que, por um milagre, o Femen Brazil, à la Missão Impossível (pense no Tom Cruise pendurado num helicóptero com uma mão e escrevendo no Cristo com a outra, e isso com o helicóptero se mexendo; acrescente na mistura alguns helicópteros da polícia numa perseguição para conter os vândalos), tivesse de fato escrito, sei lá, "Jesus não te ama, turismo sexual" no Redentor. 
Qual seria a contribuição de um ato desses pra libertação das mulheres? Ahn, e pro feminismo? Putz, alguma feminista teria que voltar ao Cristo só pra pichar "o Femen não representa o feminismo". Em pouco tempo, o pobre salvador estaria mais manchado que o muro de A Vida de Brian
Falando sério agora, a Juliana me procurou anteontem com um email que começava assim: "Sou ex-integrante do Femen e tenho coisas bem importantes pra desmascarar essas mentirosas. Posso te enviar?" 
Eu respondi que sim, e ela me mandou vários prints e também seu relato. Ela tem 24 anos, mora em SP, e até dois anos atrás foi modelo de pornografia alternativa (gótica, punk, underground). Acrescentou ela: "Algumas pessoas vão me xingar por isso, então já te aviso para não se assustar quando ver os comentários". Eu disse que não me assustava mais com os comentários já tem alguns anos.

Juliana: "Vou começar contando um pouco sobre o que passei e tbm sobre o que está acontecendo.  Bem, eu sou tatuada, trabalho como hostess e performer há alguns anos. Eu sempre me virei, sempre fui feminista. Um dia vendo uma ação do Femen, fiquei bastante curiosa e interessada. Escrevi para a Sara que disse que eu poderia conversar com elas, e se eu gostasse poderia participar. Bom, na semana do julgamento do Pussy Riot [em agosto], elas marcaram um protesto e me convidaram. Eu achei a causa nobre e aceitei. 
Passei uma noite com a Sara e mais duas ativistas (que já saíram do grupo) em um hotel.
Eu pensava o tempo todo que elas não sabiam o que era feminismo, sempre ostentando, preocupadas com a imagem delas, com a imprensa e uns assuntos que, na boa, pareciam retardadas. Fiz o protesto, fui detida e no outro dia, levei 'um puxão de orelha' de uma das integrantes, porque eu reclamava muito, de fome, de sede (lógico, ser detida é horrível, e me fez notar que até nessa situação elas mantem a pose). Bem, passou uns dias e eu senti vergonha e saí do movimento. 
PS: O Femen Ucrânia nunca postava fotos minhas nem de outras meninas gordinhas. E ainda descobri que eu era tatuada demais, isso não era bom pros negócios. Aff. Me afastei mas mantive a amizade com a Sara. Eu notei que ela andava brigando com as meninas de fora. A Sara mudou, cresceu, começou a 'lutar' pelos problemas do nosso país. Acho que isso fez com que as tiranas da Ucrânia surtassem com ela. 
Teve duas causas que eu apoiei as meninas do Brasil, depois disso logo me afastei de novo, porque vi que a patifaria havia aumentado, e na boa, tirar a roupa e destruir coisas não resolve nada! Eu perguntava por que elas não faziam trabalhos sociais, com senhoras, mulheres vítimas de agressão, meninas da periferia ou qualquer outro projeto, afinal, elas têm dinheiro pra fazer isso; a Sara me disse que o Femen tinha um padrão/regras e blablabla. 
No caso,o Femen Br eu nunca soube se tinha dinheiro, mas as da Ucrânia, têm muito! Posso dizer que a equipe atual do Femen Br é de pessoas queridas. Honestas e esforçadas. A Sara também é uma boa pessoa. Não consigo ver ela roubando. O único erro dela foi esconder das meninas daqui o que de fato é o Femen. Espero que ela se encontre e se una a bons coletivos feministas." 

Juliana me enviou uns prints de uma conversa, em inglês (clique para ampliar), entre uma integrante chamada Javel, do Femen França, e uma Katarina (acho que é do Brasil). Javel reclama que todas as decisões são tomadas por duas ou três pessoas, e que as outras integrantes nunca são informadas de nada. "Sempre brigo com Inna por causa de diferenças culturais", diz ela. "Tento entender seus pontos mas ela raramente entende os meus. Somos internacionais. Não podemos fazer tudo no estilo ucraniano". 
Katarina concorda, diz que brigou muito com Sasha (uma das líderes do Femen Ucrânia), e conta que, quando voltou ao Brasil, "elas" lhe disseram que não poderia arranjar um emprego, porque era sua função trabalhar pro Femen em tempo integral. Sem receber nada. 
Elas também falam que as ucranianas não entendem nada de feminismo, e que é difícil se comunicar com algumas delas, que não falam inglês (sei como é. Estive em Moscou, e pouquíssima gente fala alguma língua que não seja russo). 
Javel narra que discutiu com uma ucraniana sobre a opressão das muçulmanas. Javel perguntou: "As muçulmanas são mais oprimidas que você porque elas usam véu? E vocês? Vocês usam maquiagem, vocês têm cabelo longo com implante, vocês se depilam, vocês usam lingerie sexy e salto alto. Esses não são sinais de opressão? De controle do corpo da mulher?"
Além disso, Javel e Katarina riem, chocadas, da ignorância das ucranianas em relação às lésbicas. Javel diz que, para Inna, "as lésbicas são exóticas. Temos lésbicas no Femen França e Inna se comportava como criança: 'Ahhhh, ela é lésbica?! Mas ela é tão feminina!'". Katarina responde que no Femen Br "somos todas bissexuais ou lésbicas". 
A julgar por esses diálogos, veremos o Femen cortar relações com outras filiais no mundo.
Mas o melhor print é este de cima, de Alexandra (Inna) Shevchenko escrevendo para Sara, em setembro do ano passado: 
"Sobre as calcinhas, você precisa pensar, devo ser honesta com você, mas da última vez perto da embaixada russa não ficou sexy já que as calcinhas estavam apertadas e as meninas pareciam mais gordas que elas são na vida real, tome cuidado com isso. Não quero dizer nada negativo mas vc precisa entender e espero que entenda. É uma coisa profissional". 
A pobre Sara responde: "Inna, aqui no Brasil as pessoas são diferentes. Não somos como as meninas ucranianas, somos gordas, negras, brancas, indígenas, baixas, altas. A maior crítica ao Femen Ucrânia é que vcs são loiras, altas, magras, brancas de olhos claros. Isso no Brasil nunca vai funcionar. Porque feminismo é sobre romper padrões de beleza, é sobre igualdade. Precisamos explicar pras meninas de todo o mundo que elas não precisam ser magras. Sei sobre sua cultura e sua genética, mas vc não deve querer o mesmo das meninas no Brasil. Usamos nossos corpos nus independente da aparência. Por favor, cuidado com essa informação. Se alguém da mídia souber desse padrão de beleza, vão nos destruir. Esta é a nossa briga diária. Na realidade, a maioria dos brasileiros pensa que vcs têm anorexia, alguma doença, mas tento todo dia explicar que vcs são perfeitamente saudáveis". 
Tadinha da Sara, sério mesmo. No diálogo acima dá pra ver como ela tenta equilibrar as exigências do Femen Ucrânia com um "corpo perfeito" (magro, branco, alto) com a realidade brasileira e com o discurso feminista, que visivelmente não é o mesmo do Femen.

Ontem à noite o Femen Brazil, ou melhor, o ex-Femen Br publicou no FB uma nota que se autodestruirá em 48 horas (não, não, a musiquinha do Missão Impossível me influenciou).  Gostei de vários trechos, como este, por exemplo:

Fica um pouco patético quando o Femen Br, que foi defenestrado pela Ucrânia, diz que se recusa a representar o Femen no Brasil. Moças, se vcs tivessem tomado a iniciativa do rompimento, vcs poderiam se recusar. Do jeito que aconteceu, o Femen Ucrânia é que disse que vocês não a representavam (o que eu ainda vejo como um elogio).
Elas pedem desculpas às feministas brasileiras. Achei digno. E, aqui, falam de seus próximos planos:

A carta é assinada por nove integrantes. 
Já o Femen Marca Registrada diz, em seu site, que as manifestantes brasileiras estão proibidas de usar o nome Femen, guirlanda de flores, o logotipo, a palavra sextremism (suponho que não fará falta), e "quaisquer outros atributos do movimento". Isso inclui os seios desnudos? Aliás, Sara e sua turma continuarão protestando sem camiseta ou sutiã? A mídia lhes dará atenção se elas não mostrarem os seios? (o Femen Ucrânia originalmente não tinha a menor intenção de fazer topless; só passou a fazer quando percebeu que, sem isso, não havia mídia). 
Meu maior problema com o Femen obviamente não é que as manifestantes mostrem os seios. É que ele põe a vontade de atrair a mídia acima de tudo, sem se preocupar com o que quer passar. E também por formar um grupo vertical de poder, não horizontal, algo bem anti-democrático. E suas ligações perigosas com a extrema direita. Portanto, como espero ter deixado claro em todos os meus posts sobre o Femen, minha maior crítica é ao Femen Ucrânia, ou Femen Internacional, não ao Femen Br. E muito menos à figura da Sara.
Certo, eu não engulo o passado neonazista de Sara, nem sua tatuagem nazista, nem o fato d'ela ter mudado de ideia tão rápido (de criticar as mulheres que fizeram topless na primeira Marcha das Vadias a... fazer ela mesma o topless, poucos meses depois). E continuo considerando-a despreparada sobre feminismo e alienada politicamente. E sua juventude não é um atenuante. 
Há centenas de jovens em coletivos feministas, nos movimentos estudantis, na internet, que demonstram muita sabedoria, e isso está ligado à vertente política (de esquerda) dessas jovens. Desculpe, mas não creio em feminismo de direita. E é difícil perdoar o escorregão gigantesco que foi a homenagem a Margaret Thatcher, responsabilidade exclusiva do Femen Br. 
Por outro lado, essas jovens integrantes do ex-Femen Br acreditaram em uma causa. Elas não receberam dinheiro algum, isso está bem claro pra mim. Não ganharam nada além de   fichas criminais, que têm o potencial de atrapalhar suas vidas futuras. 
Se elas agora querem se dedicar a um feminismo mais honesto, menos mercadológico, mais inteligente e politizado, elas têm o meu apoio. Por mim, eu as recebo de braços abertos (podem me chamar de maternalista, acho até fofinho).
Agora, quanto ao Femen, vou parafrasear Brian, o rebelde incompetente que picha o muro romano, e gritar: "Femen, go home!"
Sextremismo do Femen não é fã de testículos

terça-feira, 21 de maio de 2013

GUEST POST: EU, AGRESSORA

Vou publicar dois guest posts que se contradizem um pouco entre si. Ambos estão relacionados à violência doméstica.

A.
Eu cresci ouvindo que todo mundo (pai, mãe, irmãos mais velhos) pode bater em criança porque é para o bem dela. Porque criança que não apanha não foi educada e não terá limites. Que bater é uma prova de amor. 
Cresci ouvindo sobre as "vantagens", aliás, a "necessidade", de bater em criança para educá-la. Só que nunca ouvi que bater em criança está relacionado com violência doméstica.
E tampouco ouvi que mulher pode bater em homem, ou em outra mulher. Mulher tem que ser fina. Mulher só pode bater em criança, e isso se for a mãe. E, claro, isso nem é bater, é educar.
Ouvi muito que em mulher não se bate nem com uma flor. Mas também ouço "um tapinha não dói", e a surrada frase do Nelson Rodrigues, "Não é toda mulher que gosta de apanhar, só as normais". E, mesmo que a frase não diga, desde criança eu sabia que, nesse ditado, estava implícito que quem bate (pra dar prazer pra mulher, claro) é o homem.
Acabar com a violência doméstica é deixar de bater em criança, mulher, homem, idoso, animal de estimação, o que for. Não há desculpa, não há exceção válida.
B.
Sou feminista, mas muito antes de me dar este rótulo, nunca aceitei nenhuma violência de nenhum tipo vinda de qualquer homem que fosse. 
Cresci ouvindo, como um valor social considerado do bem, que homem não pode bater em mulher e nem em criança porque é muito mais forte. Homem pode bater em homem. Mulher pode bater em mulher. Mulher pode bater em criança. Mulher pode bater em homem.
É a primeira vez que paro pra rever estes conceitos que agora me parecem tão estúpidos, mas ecoam na minha maneira de me relacionar de uma forma assutadora e que eu não queria. Cada vez mais percebo o quanto qualquer tipo de violência é inaceitável e desnecessário, e o tanto que eu tenho que me vigiar para não ser violenta em nenhuma instância, com ninguém.
Exercício difícil. Eu fui uma mulher daquelas que se chamam de barraqueira, mas num sentido ruim isso é apenas uma pessoa agressiva. Quando alguma coisa me irrita muito sinto uma raiva indescritível que me faz ser violenta verbalmente e muitas vezes fisicamente.
Meu companheiro aceita isso porque sou barraqueira. Ele não sente que sofre violência doméstica porque isso é coisa de homem frouxo. E porque eu sempre tenho uma desculpa: estou cansada, preocupada, você me provoca, etc.
Isso não acontece com frequência, mas a última vez me vi batendo no ombro dele com muita raiva e o xingando com muito palavrão, e depois me justificando que ele recebeu estes tabefes porque insistiu num assunto que estava me irritando.
Mas quando minha amiga apareceu na minha casa machucada porque a companheira dela a agrediu, eu disse a ela: não importa o que você fez, não existe justificativa pra uma pessoa invadir o corpo da outra dessa forma.
E que medida foi essa que me impediu de ver que era exatamente isso que eu fazia, sem que me doesse nenhuma parte da minha consciência? O que me faz pensar que no meu relacionamento esta mesma atitude merecia outro nome? Agora sim me vejo como agressora, e digo que na minha casa temos uma história de violência doméstica. Mesmo que o machismo permita que esta violência seja cometida e que autorize a ser uma pessoa violenta por baixo de um título de mulher barraqueira. Que eu saiba contar até dez e me livrar desse comportamento repulsivo porque a luta agora é interna, companheira! 

segunda-feira, 20 de maio de 2013

RADFEMS, TRANSFEMS, E MINHA POSIÇÃO CÔMODA

Give peace a chance

O mundo trata muito mal as mulheres, fato, mas também trata mal -– não vou dizer pior, porque não estamos em Olimpíadas da Opressão -– quem não é facilmente identificável, quem está numa categoria indefinida, quem não é "normal", com todas as aspas aí. 
Eu sou gorda, nunca pintei as unhas, não tenho orelha furada, não uso maquiagem nem salto alto, mas, apesar disso tudo, nunca tive minha identidade de gênero questionada. Ninguém nunca me chamou de homem. Já tive, sim, minha sexualidade questionada -– já me chamaram de lésbica porque, na adolescência, eu jogava futebol no meio de belos homens. E, claro, como autora de um blog feminista bastante conhecido (mas se fosse desconhecido não faria diferença), hoje sou tachada de lésbica o tempo todo. Afinal, toda feminista é lésbica, odeia homens, e já realizou inúmeros abortos. Quantas vezes por dia você ouve essa propaganda anti-feminista, que não faz sentido algum?
Embora eu nunca tenha sido “feminina”, no sentido de ser vaidosa, decorativa, maternal, obediente e submissa, nunca ninguém negou que sou mulher (logicamente que fui muito cobrada para ser feminina, não para ser mulher). Nunca tive que provar que sou mulher. Nunca ninguém ouviu minha voz no telefone e teve dúvidas sobre meu sexo biológico. E, pra mim, é óbvio que, num mundo que a gente tem que provar tanta coisa todos os dias, não ter que provar ser mulher é um privilégio. Pode não ser nada vantajoso ser mulher no nosso mundo, mas é um fato aceito. 
Portanto, eu vejo como um privilégio não ter que provar todos os dias que sou mulher. Esta é a nossa primeira e mais insistente forma de segregação. A pergunta “é menino ou menina?” (nessa ordem) é a primeira a ser feita, antes mesmo que o bebê tenha nascido. E a resposta a essa pergunta, todos os estudos mostram, determina a forma como esse bebê será tratado, desde suas horas iniciais de vida. 
A ansiedade das pessoas em classificar um ser humano é enorme. É por isso que cobrimos bebês meninas de rosa e já colocamos um brinquinho em sua orelha, um lacinho em seu cabelo em muitos casos inexistente –- pra que ninguém tenha dúvidas de que é uma menina. Ninguém vai precisar perguntar “é menino ou menina?”, e já pode partir logo pra outra etapa de interação, como “que idade elx tem?”, ou “qual seu nome?”. Sem que a pessoa saiba antes se o bebê é menino ou menina, ela não fará as outras perguntas. Saber a resposta vai determinar como aquela pessoa tratará aquele bebê.
Ah, dirão algumas pessoas, então um bebê que nasce homem tem privilégios, mesmo que, anos mais tarde, esse mesmo menino/homem perceba que não se identifica com seu sexo biológico, e queira ser mulher. É, acho que ele tem privilégios, até que dê as primeiras exibições da sua não-identificação. A partir do momento em que é visto como indefinido, vai sofrer um bocado. 
Eu tive o privilégio de ter pais liberais, que nunca me falaram o que eu devia ou não fazer por ser menina, e estudei, pelo menos nos meus primeiros anos, em escolas liberais. Talvez, vez por outra, eu tive contato com alguém que queria que eu fosse mais feminina. Mas uma coisa é se recusar a pintar as unhas; outra é, prum menino, ser considerado “menos homem”, ou não ser homem o bastante. Qualquer garoto “afeminado” vai sentir a pressão pra ser mais masculino.
E não estou nem falando dos bebês hermafroditas, termo que hoje não é considerado muito bacana, e prefere-se o termo intersexual. Imagina a ansiedade de pais, médicos, familiares, enfim, todos que cercam o bebê, para determinar a qual sexo ele pertence. É a partir dessa ansiedade que vem cirurgias mutiladoras que forçam uma definição. Esse bebê continuará sendo tratado como uma anomalia. Tudo que não se encaixa numa divisão estanque de gêneros é visto como anormal, doença. Pelo menos pelo senso comum.
Eu me lembro de uma amiga que tive na juventude, a Regina. Eu era dois anos mais velha que ela; ela era filha do zelador do primeiro prédio em que vivi em SP. Eu não fazia, nem faço, distinção por classe social, e Regina era minha amigona, vivia no meu apartamento, eu vivia no dela, jogávamos futebol juntas, brincávamos de polícia e ladrão, esconde-esconde. Tive muito convívio com ela entre meus 10 e 16 anos, por aí. 
Do Being Amy
Só que, apesar do nome tão feminino, Regina não era vista como menina. Quero dizer, ela era menina, mas as pessoas ficavam ansiosas ao seu redor. Porque ela era gordinha, ainda não tinha seios, usava cabelos curtos, encaracolados, calça comprida, não tinha voz fina. Era comum que gente sem nenhuma educação, nenhuma insensibilidade, perguntasse pruma pré-adolescente de 12, 14 anos, “você é menina ou menino?”, ou dissesse, com surpresa, “ah, você é menina!” Fora o bullying que eu não via de perto, porque não estudávamos na mesma escola (ela estudava em escola pública). Mas só o que eu acompanhava já era quase todo dia. Eu não era feminina, usava bem pouco vestido ou saia, mas ninguém duvidava que eu era menina. Regina fazia o mesmo que eu fazia, e seu sexo era posto à prova diariamente. Vai me dizer que isso não afeta uma pessoa? Regina se ressentia com isso. Muitas vezes a vi chorar e a consolei. 
Detalhe: se uma menina, que não era transexual –- ela não tinha dúvida que era menina (acho, inclusive, que ela não tinha nem dúvida que era hétero) -–, sofria tudo isso, pense no que uma criança ou adolescente realmente transexual tem que enfrentar.
Portanto, eu acredito que pessoas cis (que sempre foram identificadas pelo seu sexo biológico) tenham privilégios que pessoas trans não têm. 
Outra coisa que acredito é que uma mulher trans (um homem que "virou" mulher, só pra elucidar, porque muitxs de nós somos leigxs) é tão mulher quanto eu. Não importa se ela não fez operação, se ela tem pênis: se ela se identifica como mulher, ela é mulher, ué. Deve ser tratada pelo nome que escolher e pelo pronome feminino. Simples assim (e o mesmo respeito deve ser dado a um homem trans, ou seja, a uma mulher que "virou" homem).
Uma mulher trans tem tanto espaço no meu feminismo quanto qualquer outra mulher. Mas eu sou suspeita pra falar, porque no meu feminismo, que eu considero inclusivo, homens também têm espaço. Nunca pensei em fazer um blog só pra mulheres. Eu acredito em homens feministas, e acho ofensivo quem diz que homens só estão no feminismo pra pegar mulher. Pô, eu quero mais é que todo mundo seja feminista. E é impossível mudar o mundo sem a colaboração e o empenho dos homens.
Muitas (não todas, que eu saiba) feministas radicais pensam que o feminismo deve ser um espaço só de mulheres cis. Elas excluem não só homens, mas também pessoas trans. Uma mulher trans, pra muitas radfems, segue sendo homem porque nasceu com o par de cromossomos XY. Não interessa se esse ser com cromossomos XY se identifica como mulher: para muitas radfems, ela não tem lugar no feminismo delas.
Com pensamentos assim, não é de espantar que radfems venham brigando com transfeministas faz tempo, principalmente nos EUA. Ontem me chegaram dois emails de meninas jovens preocupadas com o crescimento do feminismo radical no Brasil. Uma delas, a Brunna, de apenas 14 anos, escreveu um texto muito bom sobre as regras de um grupo radfem fechado, que levou para um outro post, este de um humanista. Reproduzo aqui essas regras (clique para ampliar; não sei quem fez os comentários em vermelho). 

Agressivo e absurdo. É preocupante que um blog radfem diga, com todas as letras, "O feminismo radical tem posicionamentos transfóbicos", e ache que tudo bem ter esses posicionamentos (a autora diz que descontextualizei sua fala). Não é assim que as radfems sairão dos grupinhos fechados. Mas nem sei se elas querem sair. Suponho que o feminismo radical esteja crescendo no Brasil, porque semana passada fiquei sabendo de dois blogs que eu nunca tinha ouvido falar.
Em 5,5 anos de blog, sabe quanto contato eu tive com radfems? Quase zero. Apenas num post chamado "Para quem não gosta, todo feminismo é radical", surgiram algumas poucas radfems nos comentários justificando o ódio aos homens. Depois, ou antes, não lembro, toda vez que algum incauto me acusava de ser feminista radical, alguma leitora vinha dizer, "A Lola, feminista radical? Ahaahuahauahau". Porque, né, de fato eu não sou. Aliás, não sei praticamente nada de feminismo radical.
Mas só pra citar um exemplo de como as radfems são um grupo minúsculo: em maio do ano passado, haveria um debate sobre pornografia feminista em SP. Uma das organizadoras do debate entrou em contato comigo porque precisava de alguma feminista anti-porn pra participar, já que todas que iriam participar eram pró-porn. Eu mandei emails pra algumas pessoas e grupos, deixei mensagens no Twitter e no blog, e ninguém se habilitou. Radfems são anti-porn, sabe? Nenhuma apareceu. Eu acho, sinceramente, que a influência de um grupo que mal aparece é bem insignificante.
Mas também acho que elas têm o direito de existir. Não é o meu tipo de feminismo, assim como as reações de algumas transfems me soam extremamente agressivas (die cis scum, por exemplo, morra escória cis, é um insulto que presta um enorme desserviço à qualquer causa, ainda mais uma que se alinha aos direitos humanos). 
Discordo de vários pontos de algumas transfems. Encher de termos cis (um termo, inclusive, que não é consenso nem entre os próprios grupos trans) um blog não especializado em transfeminismo não é algo que eu queira fazer. Banir autoras feministas importantes porque elas alguma vez falaram algo errado, acusar de transfóbica qualquer pessoa que discorda de alguma coisa trans, difamar indivíduos, discutir se a palavra trans deve ou não ter asterisco, insistir que blogs feministas falem de pessoas trans sempre que falam em gravidez, aborto, maternidade, ou menstruação -- são características de algumas transfeministas que não me agradam. No entanto, considero o transfeminismo importantíssimo para os feminismos, por trazer novas discussões sobre gênero.
Pois é, feminismos. No plural. Somos um movimento plural. Gostaria que feministas nos centrássemos no que nos une, não no que nos separa. Gostaria que não houvesse ódio entre os feminismos. Mas sei que estou falando de uma posição privilegiada e cômoda de feminismo mainstream, que já é bastante aceito na sociedade. E olha só, se a reação a este feminismo já é tão virulenta, imagina o que os feminismos minoritários não têm que enfrentar... Pior ainda é quando essa virulência vem de nós mesmxs, feministas.