sábado, 20 de dezembro de 2014

NINGUÉM MERECE UM BOLSONARO

Voltei! Mas nem dá vontade de voltar. Quarta-feira de manhã ainda estava nadando no mar. Aí chego e tenho que passar horas deletando comentários ofensivos de trolls aqui no blog. E, em questão de horas, recebo algumas ameaças de morte por telefone dos mascus sanctos (escute uma aqui).
Uma das manifestações contra Bolso
Também precisei gastar um tempão para tentar acompanhar tudo que perdi em onze dias longe. Perdi a revolta diante do discurso de Jair Bolsonaro no dia 9. Após o discurso da deputada e ex-ministra dos Direitos Humanos Maria do Rosário (PT-RS) para comemorar o Dia Internacional dos Direitos Humanos, Bolso gritou, durante sessão plenária: "Fica aí, Maria do Rosário, fica! Há poucos dias você me chamou de estuprador, no Salão Verde, e eu falei que não ia estuprar você porque você não merece. Fica aqui pra ouvir!".
Bolso deve estar doido, pra confundir "poucos dias" com "muitos anos". Em 2003, ele e Maria do Rosário, então relatora da CPI da Exploração Sexual Infantil, estavam sendo entrevistados separadamente, um ao lado do outro. Bolso comentava a redução da maioridade penal, em pauta após os crimes bárbaros cometidos por Champinha, um psicopata de (na época) 16 anos com distúrbios mentais graves, preso numa unidade de saúde de SP desde que saiu da internação na Fundação Casa. Bolso disse a Maria do
Rosário: "Já que você é contra a redução da maioridade penal, e defende políticas sociais para esses vagabundos, então coloque o Champinha para dirigir o carro da sua filha". A deputada respondeu, calmamente: "O senhor é que promove essas violências".
Bolso disse para as câmeras: "Grava aí, eu sou estuprador agora".
Maria do Rosário: "É, o senhor é".
Bolsonaro: "Jamais iria estuprar você, porque você não merece".
Maria do Rosário: "Eu espero que não, se não te dou uma bofetada".
Bolsonaro, apontando um dedo para ela, e pressionando outro contra o peito dela: "Dá, que eu te dou outra. Dá que eu te dou outra. [Empurra a deputada]. Dá que eu te dou outra".
Maria do Rosário: "Olha aqui, segurança! Mas o que é isso?"
Ato de repúdio a Bolsonaro esta
semana (Maria do Rosário no centro)
Bolsonaro: "Você me chamou de estuprador, você não tem moral. Vagabunda!"
Maria do Rosário, em choque: "O que é isso aqui?! Desequilibrado! Mas o que é isso?"
Bolsonaro: "Ainda bem que ele gravou tudo aqui. Chora agora, chora agora!" (veja a cena aqui).
Na ocasião, houve representação contra o deputado, mas nada aconteceu. Daí ele aproveitou para, onze anos depois, desenterrar essa briga em que ele foi um grande covarde e repetir parte das ofensas. Só que muita coisa mudou de 2003 pra cá. Está ficando cada vez mais difícil pra reaças ameaçarem mulheres.
Por telefone aos jornais na semana passada, o deputado confirmou o que disse, sem arrependimento, mesmo depois de saber que haverá representações contra ele: "Ela [Maria do Rosário] não merece [ser estuprada] porque ela é muito ruim, porque ela é muito feia. Não faz meu gênero. Jamais a estupraria". Quer dizer, ele não é estuprador mas fica decidindo que mulher vai ou não estuprar baseado na estética? 
De lambuja, Bolso defendeu na entrevista discriminar mulheres no mercado de trabalho:
Mais tarde, o deputado enviou uma carta à imprensa (ao lado), afirmando que jamais pedirá desculpas a Maria do Rosário, que a questão é ideológica, não de gênero (como se gênero -- e tudo mais -- não fosse ideológico), e colocando os "movimentos" que defendem as mulheres assim mesmo, entre aspas.
O Conselho de Ética abriu processo contra ele por quebra de decoro parlamentar, o que inclui "tratar com desrespeito os colegas", o que ele evidentemente fez. Porém, como seu mandato acaba agora, pode não haver prosseguimento. O favorito à presidência da Câmara, Eduardo Cunha (esta flor de pessoa), já avisou que Bolso não será cassado. 
Pro Conselho, Bolso exibiu o vídeo de 2003 como prova (!) de que, em 2014, reagiu no calor do momento. "Reação no calor do momento" a uma acusação feita indiretamente (pois Maria do Rosário dizia que ele era responsável por violência de forma geral, e nunca usou a palavra estuprador) onze anos atrás! 
Olha, é tanta insanidade dita por esse cara que nem dá pra cobrir tudo. Já houve manifestações de movimentos sociais pedindo a cassação do mandato do parlamentar. E outras virão (mais sérias do que esta de ontem do Bastardxs, ex-Femen Br). Uma hoje mesmo.
Na segunda, dia 15, cinco deputados estaduais do PSOL do RJ levantaram cartazes com a frase "A violência contra a mulher não pode ter voz no Parlamento". 
Na saída, duas jornalistas foram entrevistar Bolsonaro, e ele disse a uma delas: "Você merece ser estuprada? Estou perguntando! Responda!". O deputado fascistóide tem experiência em xingar repórteres. Em abril, ao ser perguntado sobre os 50 anos do golpe militar, chamou uma repórter da RedeTV de "idiota" e "analfabeta".
Algumas outras repercussões que acompanhei: no Programa do Jô, um jovem gritou "Viva o Bolsonaro!", e a reação do apresentador foi ótima (não costumo gostar do Jô): "Quem é que gritou esse absurdo?"
Já para o guru da direita brasileira Olavo de Carvalho, a declaração de Bolsonaro sobre Maria do Rosário foi injusta. Afinal, ela "não é tão feia assim". Ainda não foi criado um tópico que não possa ser piorado por um comentário do astrólogo. 
A jornalista Rachel Sheherazade usou seu espaço para mais uma vez ser uma reaça irresponsável. Chamou feministas de feminazis, narrou o episódio como se a fala de Bolso fosse uma reação a ter sido chamado de estuprador agora, e ainda deu uma nota de um site de notícias falsas (em que Maria do Rosário defenderia pena de morte para homofóbicos) como verdadeira. Nossa direita é muito sensata mesmo.
Surpreendentemente, um dos muitos blogueiros reaças da Veja, Reinaldo Azevedo, se posicionou contra a fala de Bolso. Em represália, foi chamado de traidor por reaças que costumam adorá-lo. Alguns até começaram uma petição pedindo para a Veja cancelar sua coluna. Li até um comentário do tipo "Constantino é melhor", denotando um claro desespero, pois não tem como Rodrigo Constrangido ser melhor que ninguém no mundo em qualquer coisa.
Os reaças compararam a revolta da esquerda com a fala do deputado com a de Paulo Ghiraldelli. Sim, entendo o que você está pensando: WTF? O que tem a ver? Ghiraldelli é deputado também e a gente nem sabia?
Talvez você nem saiba quem é a figura. Um ano atrás, o professor de filosofia da UFRRJ escreveu na sua página do FB: "Meus votos para 2014: que a Rachel Sherazedo seja estuprada". 
Não se sabe exatamente por que reaças pensam que Ghiraldelli é de esquerda. Ele é tão detestado por esquerdistas que, um mês antes do filósofo ter escrito essa declaração hedionda, uma palestra sua foi interrompida por protestos de estudantes que se manifestaram contra seus comentários machistas, racistas e homofóbicos em sala de aula. Eu, feminista, de esquerda, sem admiração nenhuma por ele ou por Sheherazade, escrevi um tweet assim que fui avisada por um leitor. Reaças mentem até hoje que eu e outras feministas não falamos nada.
Também vi comparações com Che Guevara (que, obviamente, de acordo com os reaças, era um estuprador assassino e sanguinário), com Lula (em 2009 um militante narrou uma piada de Lula durante a campanha presidencial de 1994 sobre ter tentado estuprar um outro prisioneiro, quando esteve preso em 1980 -- eu sei, é confuso, melhor resumir para "Lula é um estuprador e a esquerda silencia", vai que cola), com Gaievski (ex-assessor da Casa Civil e ex-prefeito de Realeza, PR, condenado em setembro a 18 anos de prisão por estupro de vulnerável, mas há outros processos contra ele, e as sentenças podem chegar a 250 anos; tem reaça que até hoje reclama de eu não ter escrito sobre um cara que eu nunca ouvira falar antes das acusações, como se meu blog fosse um programa sensacionalista de TV que repercute todos os casos de estupro).
Reaças parecem não entender como o comportamento de Bolsonaro é inadequado no Congresso. Deve ser porque estão acostumados a sua agressividade. Em 1999, Bolso, em discurso na Câmara, disse que o Congresso deveria ser fechado e lamentou a ação dos militares durante a ditadura: "Deveriam ter sido fuzilados uns 30 mil corruptos, a começar pelo presidente Fernando Henrique Cardoso". Apesar de representações contra ele, não perdeu o mandato.
Ato contra Bolsonaro esta semana
Em 2011, numa entrevista com Bolso levada em tom brincalhão pelo CQC, Preta Gil perguntou ao deputado o que ele faria se seu filho se apaixonasse por uma mulher negra. Ele respondeu com a arrogância típica dos "Você sabe com quem está falando?": "Não vou discutir promiscuidade com quem quer que seja. Não corro esse risco porque os meus filhos foram muito bem educados e não viveram em ambientes como lamentavelmente é o teu". Diante da repercussão, Bolso se justificou: achou que Preta Gil se referia a gays, não negras. Mais de vinte deputados protocolaram representações contra o deputado racista. Novamente, nada. 
Vídeo de Bolsonaro difamando
professora universitária
Além disso, já tem mais de dois anos que Bolsonaro vem divulgando um vídeo editado por sua equipe para difamar uma professora universitária, a psicóloga Tatiana Lionço. Ele pegou uma fala dela num congresso sobre sexualidade infantil e combate à homofobia, deturpou o que ela e outros militantes disseram, e publicou um vídeo chamado "Deus Salve as Crianças". Como um deputado pode espalhar mentiras com tamanha impunidade?
Como os mascus veem Bolsonaro
Deputado federal mais votado do Rio, Bolsonaro é representante da extrema direita, do tipo que defende a ditadura militar e equipara direitos humanos à "vagabundagem". Ou seja, um podre total. Já anunciou que será candidato a presidente em 2018, uma iniciativa que apoio. Acho lindo quando a direita se divide, e um falastrão folclórico e caricato como Bolso jamais seria eleito para um cargo executivo. 
É terrível sim que ele tenha tantos votos de gente que pensa como ele (para tentar entender o fenômeno bolsonarete, recomendo este artigo da Ana). Entre os mascus, por exemplo, ele é tão idolatrado que é chamado de Bolsomito. Compreensível um misógino que chama uma deputada de vagabunda ser aplaudido por misóginos. Incompreensível é que a misoginia tenha lugar na Câmara. 
Exemplo do pensamento de um
bolsonarete qualquer
Não dá pra aceitar que um brucutu com imunidade parlamentar sinta-se no direito de decidir quem merece ou não ser estuprada -- critério baseado em questões estéticas, daquelas que Rafinha usa como material de piada ("estuprador de mulher feia não merece cadeia, merece um abraço"). Na melhor das hipóteses, que bom "saber que o Parlamento brasileiro não abriga um estuprador, apenas um apologista do estupro". 
Insultos como "Você não merece ser estuprada" e "Nenhum homem é louco de te estuprar" eu ouço toda semana, sem exagero. Tem que ser um misógino muito sem noção para não ver um "Você não merece ser estuprada" como ameaça de estupro. Alguns mascus sanctos num chan deles em outubro discutiram estratégias para me estuprar. Claro que, para eles, isso não foi uma ameaça de estupro.
Mas espera-se que o Congresso tenha inteligência e sensibilidade maior que os trolls da internet. Espera-se que nossos representantes sirvam de exemplo no combate à violência contra as mulheres. Quem usa o espaço privilegiado que tem para perpetuar esta violência simplesmente não merece estar lá. 

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

O MASTERCHEF E O PATRIARCADO

Terça foi a final do único programa de TV que eu e o maridão estávamos acompanhando, o MasterChef, na Band. 
Não deu pra tuitar nada porque a gente estava na linda Caponga, CE, sem acesso à internet. Minha torcida era por Helena, mas nada contra a jovem Elisa ter vencido. Foi emocionante ver duas mulheres disputando o título de melhor chef amadora num meio tão machista, em que 90% dos chefs são homens. 

O programa foi excelente e aguardo ansiosa pela segunda temporada (que obviamente terá muito mais que os 300 2,500 inscritos desta temporada), mas o que me chamou a atenção foi ler um monte de babaca afirmando que Elisa só ganhou porque foi ajudada pelo pai. 
Foi assim: na final, Elisa e Helena tiveram duas horas para preparar um menu com três pratos cada uma, entrada, prato principal e sobremesa. Qualquer pessoa que já entrou numa cozinha sabe que duas horas pra cozinhar três pratos é super pouco tempo. Ambas tiveram que correr pra terminar os pratos no último minuto. Muita adrenalina.

Já na contagem regressiva, Elisa -- que havia imaginado uma reinterpretação da velha Romeu e Julieta -- não conseguiu abrir o pote com a goiabada. E pediu ao pai, que estava na plateia, que a ajudasse. O pai abriu e ainda guardou a tampa como lembrança. Foi um gesto bonito e emocionante, ainda mais porque a mãe de Elisa já havia dito que Elisa era igualzinha ao pai, e que sua paixão por culinária vinha dele. 
De um fórum mascu
Mas lógico que os machistas viram o gesto como uma vantagem desleal, digna de quem ganha as coisas graças a um pussycard, ironizando a opressão do patriarcado (que pra eles não existe), e sugerindo que o verdadeiro vitorioso do programa foi um homem. Afinal, chef de verdade é quem sabe abrir pote de conserva.

Cada vez que os misóginos adotam esse tipo de discurso ridículo, reforçam a ideia de que é só pra abrir pote que eles servem... 

Update: A roteirista do programa deixou um comentário super esclarecedor. A Daniela não pode escrever um post em nome do programa porque teria que pedir permissão pra muita gente, até gente de Londres. Mas espero que os esclarecimentos calem de vez os machistas.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

GUEST POST: DESCULPA, VIOLÊNCIA DOMÉSTICA NÃO É NORMAL

A M. me enviou este email:

Sou leitora do blog, e me considero uma feminista apesar do que tenho pra te contar. E você é a única a saber disso.
Eu sou casada há pouco mais de 5 anos, e estamos juntos há quase 9. Tenho um relacionamento que eu sempre sonhei, de pura cumplicidade, de respeito e de amor. Não moramos no Brasil há um ano e meio, e apesar de ter que recomeçar, sei que tomamos a decisão certa de mudar pra ter qualidade de vida.
Eu sofri sim violência doméstica. Mas meu marido nunca se encaixou no típico perfil. Ele nunca controlou nada, sempre gostou de como me vesti, da maneira como levo a vida, do meu corpo fora do "padrão de beleza" e de como sou. Nunca me ameaçou, nunca duvidou de mim.
Mas, em um dia que tivemos um problema que saiu do nosso controle, ele se descontrolou, e me encostou na parede. Apertou meu braço, e de repente eu tinha um outro homem na minha frente. Eu terminei, disse que não queria isso pra minha vida. Eu tinha 21 anos. Ele me pediu perdão, disse que não ia acontecer de novo. Eu o amo, Lola, sempre o amei. E voltei. E comecei a entender o problema. Essa era a forma que ele reagia quando as coisas saíam do controle dele. E foi o que a mãe dele disse pra mim: ah é normal, ele reage assim. O que eu pude responder diante disso foi: não é normal, desculpa.
Depois disso, comecei a fazer ele entender que não era normal. Que ele não tinha direito de fazer isso com ninguém (sim, não era só comigo, eu já vi ele reagir dessa forma com o pai, com as irmãs e com a mãe). E aos poucos fomos conversando, mas eu confesso Lola, ele não entendia 100%. A forma como ele foi criado influenciou demais em tudo isso. E tivemos por muitos anos longas conversas sobre o assunto.
Alguns anos depois outro problema grave nos afetou, e aí sim apanhei. Ele bateu em mim, ameaçou bater o carro, e estava lá aquela pessoa que eu não conhecia. Naquela mesma noite, não conseguia mais entender tudo aquilo, só sabia que não dava mais. Depois que ele se acalmou, conversamos, e falei como tudo aquilo tinha afetado nossa vida, minha vida e a dele também. E disse que eu até pensava que poderia ajudá-lo, mas não podia. Aquilo era muito além do que eu conhecia de problema. E ele me pediu ajuda, pra procurar alguém que pudesse tirá-lo daquilo. Aqui, Lola, você pode me julgar, falar que eu fui muito errada de continuar, de acreditar, mas eu o fiz. E te escrevo pra te dizer que não me arrependo.
Ele mudou, é uma outra pessoa. Faz terapia, fez parte de um grupo de ajuda enquanto estávamos no Brasil, e eu te digo que nunca mais tivemos nada nem parecido. Já aconteceram diversas coisas que saíram do controle, e sentamos, conversamos e resolvemos, como sempre deve ser. Hoje ele é leitor do seu blog, entende que tem um problema, e entende que nada se resolve com violência, que isso não é o normal. Conversou  muitas vezes com a mãe, com os pais, e infelizmente teve que se afastar deles um pouco, por acharem que "isso de o homem e a mulher serem iguais tá errado". Pra ele somos iguais sim.
Dividimos problemas, tarefas de casa, sonhos e planos. Não sinto medo, nem receio. Confio nele e ele confia em mim.
Talvez você diga que estou louca e errada, mas pra mim fiz o certo. Nunca me arrependi e sou feliz demais com a vida que temos, a escolha que fizemos, e ver o quanto amadurecemos.
Lutamos pela igualdade, lutamos pelos animais (somos vegetarianos há pouco mais de dois anos) e vemos tudo isso como uma superação.
Ler o blog nos ajuda, nos faz entender melhor o que acreditamos.
Essa é a minha história, confiei em você depois que li vários guest posts, inclusive aquele que um estuprador escreveu. Talvez você entenda tudo isso que escrevi, a forma como me sinto e minhas escolhas.
Obrigada por ter esse meio de desabafar e por tudo que você escreve.

Poster da Anistia Internacional contra
a violência doméstica 
Minha resposta: M. querida, não estou aqui para julgar ninguém. Eu critico o sistema. Evito, sempre que possível, criticar indivíduos. E algo que definitivamente não faço é decidir quem é ou não é feminista. Não tenho poder nem vontade para ficar cassando carteirinhas. 
Recebo vários emails com questões como: posso ficar em casa cuidando dos filhos e ser feminista? Posso ter montes de pares de sapato e ser feminista? Posso ser obcecada por maquiagem e ser feminista? Posso mostrar os seios numa manifestação e ser feminista? Posso não mostrar os seios numa manifestação e ser feminista? Posso votar num playboy misógino e ser feminista? (Ahn...). Posso ser homem e ser feminista? Eu sempre respondo que sim, pode. Porque não tem uma comissão que avalie o feminismo de cada feminista. Eu acho bem ridículo decretar que uma feminista de quem você discorda sobre algum assunto não é feminista. Ainda precisamos aprender a discordar.
Não sei se você sabe, mas um dos grandes ícones feministas, Betty Friedan, autora do revolucionário Mística Feminina, sofreu violência doméstica por parte do marido durante vários anos, antes de se separar. E aí, ela foi menos feminista por causa disso? Seria ideal se, nas nossas vidas pessoais, todxs nós aplicássemos o que defendemos politicamente. Mas nem sempre é o caso. 
Você e seu marido tinham um problema sério, e vocês resolveram esse problema. Como alguém pode condenar vocês por isso? A praga da violência doméstica não se resolve com cadeia. A Lei Maria da Penha é fundamental para dar visibilidade a este problema social, e para dar voz às vítimas. Antes da lei, marido que batia na esposa tinha no máximo que pagar uma cesta básica. A impunidade reinava. Mas só a lei não reduziu a violência. É preciso mudar a cultura de que tudo bem bater (inclusive pra "educar" os filhos), de que em briga de marido e mulher ninguém mete a colher, de que é melhor estar mal acompanhada do que só. 
Será que preciso explicar que não estou encorajando que mulheres que sofrem violência dos seus parceiros continuem com eles? É, acho que preciso. Como feminista, meu conselho é: ao primeiro sinal que a pessoa é obcecada, controladora, ciumenta, pule fora. Como mulher, eu nunca aceitaria permanecer num relacionamento abusivo -- eu acho (porque às vezes leva tempo pra se perceber que está num relacionamento abusivo). 
Mas só punir alguém que é agressivo não vai necessariamente torná-lo menos agressivo. Tanto que grupos de discussão e de apoio psicológico para homens agressores muitas vezes são mais eficientes que um tempo na prisão. 
Seu marido cresceu com a ideia de que é normal reagir agressivamente quando algo foge do controle. Que é assim que conflitos são resolvidos. Que a violência é o único meio possível. E você desconstruiu tudo isso. Juntos, vocês construíram uma nova narrativa. Acho mais é que você deve se orgulhar de ter conseguido.