O Femen não o aceitaria no grupo
Será que ainda falo do Femen? Meu instinto me diz que não, porque já entrei em tretas demais (uma, que eu saiba) por esta semana, e são tretas que nem têm a ver comigo. Além do mais, já falei do Femen no sábado. Por outro lado, estão me pedindo pra falar. Ó, dúvida cruel!
Tá, então vou falar, mas será a última vez por muito tempo. Começando por detalhes saborosos que deixei fora do outro post: o Femen Ucrânia queria que sua franquia brasileira pichasse o Cristo Redentor, no maior vandalismo da história. Segundo a matéria (e vou dar um voto de confiança a Sara e pensar que os jornalistas distorceram suas palavras, o que qualquer pessoa que já deu entrevista sabe que é comum), Sara só não acatou a ordem porque não tinha dinheiro pra alugar um helicóptero. De fato, a hora de um helicóptero certamente é muito mais cara que a mixaria de 300 dólares mensais que ela recebia por mês como ajuda de custo. E que só recebeu duas vezes.
Acredito piamente que o Femen Ucrânia pediu pra pichar o Redentor. Suas ações são muito sem noção mesmo. Agora, vamos supor que, por um milagre, o Femen Brazil, à la Missão Impossível (pense no Tom Cruise pendurado num helicóptero com uma mão e escrevendo no Cristo com a outra, e isso com o helicóptero se mexendo; acrescente na mistura alguns helicópteros da polícia numa perseguição para conter os vândalos), tivesse de fato escrito, sei lá, "Jesus não te ama, turismo sexual" no Redentor.
Qual seria a contribuição de um ato desses pra libertação das mulheres? Ahn, e pro feminismo? Putz, alguma feminista teria que voltar ao Cristo só pra pichar "o Femen não representa o feminismo". Em pouco tempo, o pobre salvador estaria mais manchado que o muro de A Vida de Brian.
Falando sério agora, a Juliana me procurou anteontem com um email que começava assim: "Sou ex-integrante do Femen e tenho coisas bem importantes pra desmascarar essas mentirosas. Posso te enviar?"
Eu respondi que sim, e ela me mandou vários prints e também seu relato. Ela tem 24 anos, mora em SP, e até dois anos atrás foi modelo de pornografia alternativa (gótica, punk, underground). Acrescentou ela: "Algumas pessoas vão me xingar por isso, então já te aviso para não se assustar quando ver os comentários". Eu disse que não me assustava mais com os comentários já tem alguns anos.
Juliana: "Vou começar contando um pouco sobre o que passei e tbm sobre o que está acontecendo. Bem, eu sou tatuada, trabalho como hostess e performer há alguns anos. Eu sempre me virei, sempre fui feminista. Um dia vendo uma ação do Femen, fiquei bastante curiosa e interessada. Escrevi para a Sara que disse que eu poderia conversar com elas, e se eu gostasse poderia participar. Bom, na semana do julgamento do Pussy Riot [em agosto], elas marcaram um protesto e me convidaram. Eu achei a causa nobre e aceitei.
Passei uma noite com a Sara e mais duas ativistas (que já saíram do grupo) em um hotel.
Eu pensava o tempo todo que elas não sabiam o que era feminismo, sempre ostentando, preocupadas com a imagem delas, com a imprensa e uns assuntos que, na boa, pareciam retardadas. Fiz o protesto, fui detida e no outro dia, levei 'um puxão de orelha' de uma das integrantes, porque eu reclamava muito, de fome, de sede (lógico, ser detida é horrível, e me fez notar que até nessa situação elas mantem a pose). Bem, passou uns dias e eu senti vergonha e saí do movimento.
PS: O Femen Ucrânia nunca postava fotos minhas nem de outras meninas gordinhas. E ainda descobri que eu era tatuada demais, isso não era bom pros negócios. Aff. Me afastei mas mantive a amizade com a Sara. Eu notei que ela andava brigando com as meninas de fora. A Sara mudou, cresceu, começou a 'lutar' pelos problemas do nosso país. Acho que isso fez com que as tiranas da Ucrânia surtassem com ela.
Teve duas causas que eu apoiei as meninas do Brasil, depois disso logo me afastei de novo, porque vi que a patifaria havia aumentado, e na boa, tirar a roupa e destruir coisas não resolve nada! Eu perguntava por que elas não faziam trabalhos sociais, com senhoras, mulheres vítimas de agressão, meninas da periferia ou qualquer outro projeto, afinal, elas têm dinheiro pra fazer isso; a Sara me disse que o Femen tinha um padrão/regras e blablabla.
No caso,o Femen Br eu nunca soube se tinha dinheiro, mas as da Ucrânia, têm muito! Posso dizer que a equipe atual do Femen Br é de pessoas queridas. Honestas e esforçadas. A Sara também é uma boa pessoa. Não consigo ver ela roubando. O único erro dela foi esconder das meninas daqui o que de fato é o Femen. Espero que ela se encontre e se una a bons coletivos feministas."
Juliana me enviou uns prints de uma conversa, em inglês (clique para ampliar), entre uma integrante chamada Javel, do Femen França, e uma Katarina (acho que é do Brasil). Javel reclama que todas as decisões são tomadas por duas ou três pessoas, e que as outras integrantes nunca são informadas de nada. "Sempre brigo com Inna por causa de diferenças culturais", diz ela. "Tento entender seus pontos mas ela raramente entende os meus. Somos internacionais. Não podemos fazer tudo no estilo ucraniano".
Katarina concorda, diz que brigou muito com Sasha (uma das líderes do Femen Ucrânia), e conta que, quando voltou ao Brasil, "elas" lhe disseram que não poderia arranjar um emprego, porque era sua função trabalhar pro Femen em tempo integral. Sem receber nada.
Elas também falam que as ucranianas não entendem nada de feminismo, e que é difícil se comunicar com algumas delas, que não falam inglês (sei como é. Estive em Moscou, e pouquíssima gente fala alguma língua que não seja russo).
Javel narra que discutiu com uma ucraniana sobre a opressão das muçulmanas. Javel perguntou: "As muçulmanas são mais oprimidas que você porque elas usam véu? E vocês? Vocês usam maquiagem, vocês têm cabelo longo com implante, vocês se depilam, vocês usam lingerie sexy e salto alto. Esses não são sinais de opressão? De controle do corpo da mulher?"
Além disso, Javel e Katarina riem, chocadas, da ignorância das ucranianas em relação às lésbicas. Javel diz que, para Inna, "as lésbicas são exóticas. Temos lésbicas no Femen França e Inna se comportava como criança: 'Ahhhh, ela é lésbica?! Mas ela é tão feminina!'". Katarina responde que no Femen Br "somos todas bissexuais ou lésbicas".
A julgar por esses diálogos, veremos o Femen cortar relações com outras filiais no mundo.
Mas o melhor print é este de cima, de Alexandra (Inna) Shevchenko escrevendo para Sara, em setembro do ano passado:
"Sobre as calcinhas, você precisa pensar, devo ser honesta com você, mas da última vez perto da embaixada russa não ficou sexy já que as calcinhas estavam apertadas e as meninas pareciam mais gordas que elas são na vida real, tome cuidado com isso. Não quero dizer nada negativo mas vc precisa entender e espero que entenda. É uma coisa profissional".
A pobre Sara responde: "Inna, aqui no Brasil as pessoas são diferentes. Não somos como as meninas ucranianas, somos gordas, negras, brancas, indígenas, baixas, altas. A maior crítica ao Femen Ucrânia é que vcs são loiras, altas, magras, brancas de olhos claros. Isso no Brasil nunca vai funcionar. Porque feminismo é sobre romper padrões de beleza, é sobre igualdade. Precisamos explicar pras meninas de todo o mundo que elas não precisam ser magras. Sei sobre sua cultura e sua genética, mas vc não deve querer o mesmo das meninas no Brasil. Usamos nossos corpos nus independente da aparência. Por favor, cuidado com essa informação. Se alguém da mídia souber desse padrão de beleza, vão nos destruir. Esta é a nossa briga diária. Na realidade, a maioria dos brasileiros pensa que vcs têm anorexia, alguma doença, mas tento todo dia explicar que vcs são perfeitamente saudáveis".
Tadinha da Sara, sério mesmo. No diálogo acima dá pra ver como ela tenta equilibrar as exigências do Femen Ucrânia com um "corpo perfeito" (magro, branco, alto) com a realidade brasileira e com o discurso feminista, que visivelmente não é o mesmo do Femen.
Ontem à noite o Femen Brazil, ou melhor, o ex-Femen Br publicou no FB uma nota que se autodestruirá em 48 horas (não, não, a musiquinha do Missão Impossível me influenciou). Gostei de vários trechos, como este, por exemplo:
Fica um pouco patético quando o Femen Br, que foi defenestrado pela Ucrânia, diz que se recusa a representar o Femen no Brasil. Moças, se vcs tivessem tomado a iniciativa do rompimento, vcs poderiam se recusar. Do jeito que aconteceu, o Femen Ucrânia é que disse que vocês não a representavam (o que eu ainda vejo como um elogio).
Elas pedem desculpas às feministas brasileiras. Achei digno. E, aqui, falam de seus próximos planos:
A carta é assinada por nove integrantes.
Já o Femen Marca Registrada diz, em seu site, que as manifestantes brasileiras estão proibidas de usar o nome Femen, guirlanda de flores, o logotipo, a palavra sextremism (suponho que não fará falta), e "quaisquer outros atributos do movimento". Isso inclui os seios desnudos? Aliás, Sara e sua turma continuarão protestando sem camiseta ou sutiã? A mídia lhes dará atenção se elas não mostrarem os seios? (o Femen Ucrânia originalmente não tinha a menor intenção de fazer topless; só passou a fazer quando percebeu que, sem isso, não havia mídia).
Meu maior problema com o Femen obviamente não é que as manifestantes mostrem os seios. É que ele põe a vontade de atrair a mídia acima de tudo, sem se preocupar com o que quer passar. E também por formar um grupo vertical de poder, não horizontal, algo bem anti-democrático. E suas ligações perigosas com a extrema direita. Portanto, como espero ter deixado claro em todos os meus posts sobre o Femen, minha maior crítica é ao Femen Ucrânia, ou Femen Internacional, não ao Femen Br. E muito menos à figura da Sara.
Certo, eu não engulo o passado neonazista de Sara, nem sua tatuagem nazista, nem o fato d'ela ter mudado de ideia tão rápido (de criticar as mulheres que fizeram topless na primeira Marcha das Vadias a... fazer ela mesma o topless, poucos meses depois). E continuo considerando-a despreparada sobre feminismo e alienada politicamente. E sua juventude não é um atenuante.
Há centenas de jovens em coletivos feministas, nos movimentos estudantis, na internet, que demonstram muita sabedoria, e isso está ligado à vertente política (de esquerda) dessas jovens. Desculpe, mas não creio em feminismo de direita. E é difícil perdoar o escorregão gigantesco que foi a homenagem a Margaret Thatcher, responsabilidade exclusiva do Femen Br.
Por outro lado, essas jovens integrantes do ex-Femen Br acreditaram em uma causa. Elas não receberam dinheiro algum, isso está bem claro pra mim. Não ganharam nada além de fichas criminais, que têm o potencial de atrapalhar suas vidas futuras.
Se elas agora querem se dedicar a um feminismo mais honesto, menos mercadológico, mais inteligente e politizado, elas têm o meu apoio. Por mim, eu as recebo de braços abertos (podem me chamar de maternalista, acho até fofinho).
Agora, quanto ao Femen, vou parafrasear Brian, o rebelde incompetente que picha o muro romano, e gritar: "Femen, go home!"
Sextremismo do Femen não é fã de testículos
























































