Oi, gente ótima! Vou comentar rapidinho alguns comentários que vocês deixaram no post sobre o nosso santo ateísmo de todo dia. Primeiro, vamos fazer um esforço pra não descambar numa Olimpíada da Opressão. Não vale a pena tentar ranquear qual minoria é a mais discriminada. Escrevi um post inteirinho sobre isso, daqui a pouco publico.
Há muitos tipos de ateus, assim como há muitos tipos de católicos, muçulmanos, evangélicos, judeus, budistas, espíritas etc etc. Existem ateus que, embora não acreditem num deus, creem em várias coisas sobrenaturais. Eu não sou uma dessas. Não acredito em nada mesmo. Ou melhor, acredito na bondade intrínseca do ser humano. Creio que a maior parte das pessoas é boa. Tem crença maior, ou mais ingênua, que essa? Há ateus que são anti-religiosos e acreditam que o mundo estaria melhor sem religiões. Também não sou dessas. Não quero convencer ninguém a deixar de acreditar em deus. Não tenho problema nenhum com a fé individual de cada um (e tenho certeza que a maior parte dos ateus também não quer conventer ninguém). Meu problema é com as religiões organizadas, que disseminam tanto preconceito (não estou dizendo, pelamordedeus, que os não-religiosos não tenham preconceitos. Só não têm uma instituição organizada para promovê-los). Mas, minto: não tenho problema com religiões. Sou a favor da liberdade de expressão e penso que toda e qualquer religião tem todo o direito de disseminar os preconceitos que quiser. E quem entra numa dessas religiões deve saber o que lhe aguarda, e talvez ter senso crítico pra ouvir apenas aquilo que considera relevante. O meu problema é com as religiões que fazem de tudo pra mandarem nas leis de um país. Não basta mandarem em suas igrejas e templos, querem ditar regras para as pessoas de outras religiões ou praquelas como eu, que não têm religião. Insisto que é preciso haver divisão entre igreja e estado, sempre. E não há. Se houvesse, o aborto seria legalizado, o casamento gay também, e não existiria polêmica em torno das pesquisas com células-tronco. Quando eu (e tantos ateus e agnósticos) digo que muitas guerras se fazem em nome de deus, estou me referindo a países que não têm essa distinção entre estado e igreja. Porque hoje em dia as religiões continuam cultivando ódios e preconceitos, mas não costumam pegar em armas. Pra isso, tem um estado a sua disposição, com todo um arsenal bélico pronto pra ser usado. E isso é muito, muito perigoso. Não estou falando apenas dos terroristas islâmicos que, em nome de Alá, jogaram dois aviões contra as Torres Gêmeas. Estou falando também do fundamentalismo cristão que orquestrou a retaliação. Fazia muito tempo que igreja e estado não se fundiam tanto no país mais poderoso do mundo quanto nos dois mandatos Bush. E essa intervenção não apenas criou guerras, como cortou investimentos de algumas áreas e os realocou para outras (por exemplo, aulas de educação sexual nas escolas serem substituídas por programas totalmente ineficazes como programas de abstinência sexual). Opa, mas cadê os comentários? Bom, a Mariana, que foi quem me pediu pra escrever o post em primeiro lugar, já tinha falado em orgulho em ser ateia. E isso é mais complicado pra mim. Tem muitas coisas que eu sou e assumo, sem necessariamente sentir orgulho. Sou branca, tá, meio amarela, com pintinhas vermelhas. Certamente não tenho orgulho da minha cor. E orgulho em ser hétero? Bom, eu gosto de ser hétero porque acho os homens muito graciosos, mas orgulho? Ok, quando se faz parte do padrão dominante (branca, hétero), só os babacas que não entendem seus privilégios têm orgulho. E aí vem com as baboseiras de sempre: eu também quero um Dia da Consciência Branca! Eu quero uma Parada do Orgulho Hétero! Ah, vão pastar. Mas e nas minhas características em que sou alvo de preconceito? Sou gorda. Não tenho orgulho em ser gorda. Sou mulher. Não sei se tenho orgulho em ser mulher. É só o que sou. Tenho orgulho, sim, em ser feminista. O meu ateísmo é parte importante de mim, mas não me orgulha e muito menos me envergonha. Tem coisa que eu me orgulho por nadar contra a corrente (nunca ter pintado as unhas ou usado brinco), mas não sei se meu ateísmo é uma delas. Talvez porque eu conheça muito mais ateus do que mulheres que não tenham orelha furada. A Márcia escreveu: “Pessoal, receber educação religiosa enviesada não quer dizer que Deus não existe”. Realmente, crer em deus e ter religião são duas coisas diferentes. E alguém crer ou não em deus é indiferente, não acha? Tipo, se deus existe, o fato de eu não acreditar nele não o fará desaparecer. Assim como tanta gente crer em deus não faz com que ele exista pra mim. Mas, no meu caso, não foi uma ou outra experiência religiosa ruim que me fez ser ateia. Como eu disse, eu fui criada sem religião. Aquele meu ano religioso é que foi um percalço no meu caminho. E é por isso, suponho, que tantos religiosos são contra o princípio de “crie seu filho sem religião e deixe que ele decida o que quer seguir quando crescer”. Se vocês souberem de alguma pesquisa nesse sentido, me avisem, mas o que vejo é que crianças criadas sem religião continuam sem religião quando se tornam adultas (sem religião e ateias, imagino). Talvez tenham algumas experiências religiosas no caminho, como eu tive. Tenho a impressão que 85% dos suecos são ateus ou agnósticos simplesmente porque foram criados em lares sem religião. E mesmo assim a Suécia não é exatamente um país depravado, é? Bom, finalizo com um vídeo pra deixar vocês com raiva. Adoro deixar vocês com raiva! E pra contrabalançar, deixo a dica de um post excepcional da Amanda sobre como as principais religiões discriminam a mulher.
Campanha ateia em ônibus na Inglaterra: "Provavelmente deus não existe. Agora pare de se preocupar e curta sua vida".
Faz pouco tempo, participei de um conselho de leitores do jornal, todos muito simpáticos. Na hora de dizer alguma coisa, lá fui eu falar demais: disse que considerava muito democrático que o jornal tivesse entre seus colaboradores alguém tão pouco convencional como eu, feminista, de esquerda, ateia... Um leitor admirou a minha “coragem” (ele podia ter chamado de boca grande) em me admitir ateia para um grupo de desconhecidos. Afirmou que pouquíssima gente faria isso no Brasil, já que o ateísmo não é algo exatamente popular. E ele tem razão. FHC perdeu a eleição para prefeito de SP em 1985 porque não quis responder à pergunta de Boris Casoy (“o senhor acredita em Deus?”). Numa pesquisa recente, os ateus empataram com os usuários de drogas como a minoria que os entrevistados mais odiavam: 25% disseram sentir antipatia por ateus, e 17%, repulsa ou ódio. Outros estudos apontam que um ateu assumido jamais seria eleito presidente. Bom, felizmente não estou me candidatando a nada, e como a Constituição garante liberdade religiosa, tenho o direito de não acreditar em Deus. Mas não fui sempre ateia. E tampouco houve algum trauma que me fez perder a fé. Meu pai era ateu, mas não fazia muita propaganda disso. Já minha mãe é católica, do tipo que vai a missas no natal, e que gosta de visitar igrejas em outros países (outro dia, pela primeira vez na minha vida, ela se disse ateia. Eu me surpreendi). Ela pôs meus irmãos e eu para estudarmos em escola católica. A escola era ótima, americana, com alunos de todos os cantos do mundo, mas a parte religiosa não era legal. Havia missas no colégio, e todos os alunos eram obrigados a ir. É ruim, pra uma criança ou adolescente, sentir-se tão diferente. Como não fomos batizados, não comungávamos. Nossos amigos iam lá na frente e colocavam a hóstia na boca. Tudo isso deve ter me influenciado para que, com treze anos, eu me tornasse ultra católica. Eu rezava na capela da escola todo dia, durante o almoço. Naquela época eu queria ser freira. Na realidade, acho que minha ambição era um pouco maior: eu queria ser santa mesmo. Eu fantasiava terremotos (no Brasil!) que derrubariam a estátua da Virgem Maria em cima de mim, e, como eu morreria rezando, e naquela idade era puríssima, facilmente seria canonizada. Olha só que pensamentos torpes pra uma menina de 13 anos! Naqueles meus meses católicos, transformei a vida do meu pai num inferno. Eu o arrastava pra missa todo domingo. Como meu amado papi fazia qualquer coisa por mim, ele ia sem reclamar muito (minha mãe, a católica oficial da casa, não ia). Eu também fazia com que ele e meus irmãos rezassem antes de dormir. Mas as freiras da escola me aterrorizavam com histórias de que mesmo um bebê (símbolo máximo da pureza) não-batizado não vai pro céu. Isso poderia comprometer meus planos de virar santa. Só que pra ser batizada aos 13 anos não é fácil. Não só você tem que fazer um curso, mas seus pais também! Eu insistia muito pro meu pai fazer o tal curso, e ele, sabendo que minha fase iria passar logo, dizia sempre “Mañana, querida, mañana” (ele era argentino, mas era excelente pessoa). Entretanto, a religião criava conflitos com meu feminismo. Eu era bem chata com as freiras, pedindo explicações pros seus dogmas o tempo todo: essa história de Adão e Eva é pra ser literal? Tipo, Deus fez primeiro o homem, e aí, como um complemento, fez a mulher? E por que Deus é sempre representado como um senhor de barba branca? Por que Ele é Pai, Senhor, tudo no masculino? Aí tem... E como assim, freira não pode rezar missa? Hã, o que você disse? Freira não pode ser papa?! Cês tão de sacanagem comigo! (eu era ambiciosa, e pensava que, se a ideia do terremoto no Brasil não vingasse, sempre me sobraria um plano de carreira). Ninguém conseguia responder minhas dúvidas de forma convincente, e aos poucos fui me decepcionando com uma religião que me queria para massa de manobra, não para liderança. Uma religião que me discriminava diariamente, a cada leitura. Daí foi um passinho pra eu perceber que deus não me criou. Fui eu que criei deus. Mas às vezes sinto falta de acreditar em alguma coisa, como na vida após a morte. É chato saber que minha vida será breve, que não vou me reencontrar com meu pai ou com meus bichinhos de estimação. Mas eu sempre fui feliz, e percebi rápido que podia viver numa boa sem ter resposta pra tudo. Porque é isso que as religiões proporcionam, certezas. Não preciso delas. Já fui discriminada por ser ateia, talvez tenha deixado de conseguir um emprego pelo que escrevo no jornal, quase já fui agredida fisicamente e tal. Acho um sinal de ignorância grande quem pensa que ateus não têm valores ou morais. Pra quem pensa isso, apresento umas estatísticas provocativas: - Entre católicos americanos, o divórcio acontece em 40% dos casais. Entre os evangélicos, 27%. Entre os ateus, 21%. Ateus se divorciam menos que religiosos, quem diria? - Na população carcerária americana, apenas 0,2% dos prisioneiros se declara ateia ou agnóstica (na população em geral, ateus e agnóstiscos são cerca de 10%. No Brasil, mais ou menos 6%). - Os países com menor índice de criminalidade são os que têm o maior número de ateus. Na Suécia, por exemplo, 85% da população é ateia ou agnóstica. E parece que o país continua se aguentando em pé. Não estou querendo dizendo que ateus são melhores que pessoas com fé. Não acredito que sejamos melhores ou piores. E não sou anti-religiosa. Acho que a religião, qualquer uma, pode trazer conforto a muitos indivíduos. Mas, infelizmente, muito mais guerras são promovidas em nome de Deus do que pela falta de crença. Uma leitora falou sobre orgulho em ser ateia. E não sei se tenho orgulho disso especificamente. Tenho orgulho da pessoa que sou, pelo conjunto da obra, digamos. Meu ateísmo é uma das minhas características, e claro que é importante. Eu me sinto muito, muito livre por não estar presa a dogmas religiosos. Mas meu ateísmo não me define. Só que lógico que quando eu estava acabando de escrever este texto a minha internet desconectou, e um sapo invadiu a minha cozinha, o que obviamente põe meu ateísmo em xeque. Se aparecer uma barata, eu volto a acreditar. Porque seria o equivalente de “Deus, se você existe, jogue um raio na minha cabeça!” (e tá vendo? Não apareceu! Diga-me, se você fosse deus e alguém te desafiasse desse jeito, você não colocaria uma baratinha na minha frente, só pra abalar minhas estruturas?). Mais aqui.
Agora voltei! Estou sem internet desde quinta de madrugada. Estava falando com o maridão pelo telefone (ele ligou de Chapecó), e houve uma tormenta forte. Quando desliguei o telefone, vi que a internet não queria voltar a conectar de jeito nenhum. Isso não é tão incomum (amanhã publico o que estava escrevendo quando isso aconteceu, para vocês tremerem nas bases). Desliguei o modem, liguei de volta, e a internet retornou―mas não tive acesso a ela, por causa de um problema com o provedor. Gente, isso de provedor é tão ridículo! O Brasil deve ser o único país do mundo a exigir provedor, né? Só pra garantir uma graninha extra pras operadoras de telefonia e pros portais! Só aí lembrei que, recentemente, trocamos de provedor. Mas deveríamos ter quitado uma fatura no banco e nos esquecemos completamente! E, como foi o maridão que fez toda a transação, e ele não é organizado, nem tentei procurar aonde poderiam estar as anotações pra eu ligar pro provedor.
Enfim, só sei que fiquei sem internet durante quatro dias. Na sexta de manhã, bem cedinho, fui correndo pro jornal onde sou colaboradora. Minha coluna, Cartas da Lola, sai todo sábado. Eu geralmente a envio por email pra editora até quinta, mas desta vez atrasei. Levei o laptop, entreguei a coluna, e fiquei lá no jornal um tempinho, agendando os posts que iria publicar até segunda, sabendo que não teria internet por uns dias. Ai, ai. (Lógico que tem a vantagem de dar pra fazer um monte de coisa sem internet). Agora vou ler todos os comentários, ver se vocês não brigaram muito entre si, se ninguém pediu urgentemente minha intervenção, se apareceram trolls pra me xingar etc etc. Espero que tenha sido tudo paz e amor. Opa, o que o Oliveira tá fazendo aqui? Chispa! Chispa!
Marido dá sermão na mulher grávida em Bebê de Rosemary.
Em rápida sucessão, num espaço de menos de 48 horas, minha mãe veio falar comigo sobre 1) como eu nunca deveria pular o café da manhã, 2) como eu deveria comer as bolinhas de melão que ela preparou pro meu café do dia seguinte, e 3) como meu cabelo era bonito e seria mais bonito ainda se eu o cortasse de sei lá que jeito. Não sei ao certo o corte sugerido porque tive que interrompê-la: “Pó pará, mãe. Péssimo timing pra me dizer todas essas coisas. Estou relendo O Bebê de Rosemary”. Ela: “Hum. E?...” Eu: “E que O Bebê de Rosemary é sobre um monte de gente controlando todos os passos de uma mulher. O que ela come, seu corte de cabelo, com quem ela fala, o que ela lê. A única diferença é que é uma mulher grávida. E mulher grávida é propriedade mais pública ainda. Mas todas as mulheres são, mesmo as não grávidas”. Ela: “Semana passada eu vi uma pessoa colocar a mão na barriga de uma mulher grávida. Elas nem se conheciam, e a pessoa já foi colocando a mão”. Eu: “Isso é comum. A maior parte das mulheres grávidas passam por isso”. Ela: “Eu não toco na barriga das grávidas que não conheço. Mas fico com vontade de abraçar todas as mulheres grávidas”. Eu: “É, mas é meio invasivo, né? Talvez seja melhor só sorrir pra elas. Mas e aí, quer ler O Bebê de Rosemary? Vou escrever sobre o livro e o filme. Na realidade, a história não é sobre uma seita demoníaca. É sobre a seita do patriarcado”. Mas ela não quis. E passamos a falar dos filmes do Polanski. Ontem eu revi Tess. É looooongo, né? Convocando meu leitor Mario Sergio pra comprar briga: a Natassja Kinski era uma atriz fraquinha, não?
Eu quero morar em Paraipaba, a 90 km de Fortaleza (você vai ter que ler até o final pra descobrir porquê).
Mais sobre as casas em Fortaleza que pretendo visitar. Mas antes um resuminho dos meus planos. O ideal, ideal mesmo, se eu tivesse alguma escolha na situação, seria assim: a gente venderia a nossa casa em Joinville agora, mas o comprador nos deixaria ficar (a gente pode pagar aluguel) até o final de janeiro. Eu iria pra Fortaleza pra tomar posse do cargo (se é assim que se chama) mês que vem, olharia umas casas, evoltaria pra Joinville, pra passar natal e reveillon com a família. Iria pra lá de volta em janeiro, compraria uma casa, já faria as reformas, e maridón, mãe, gatos e tralha desembarcariam em Fortaleza no final de janeiro, pra encontrar uma casinha pronta esperando por eles. As aulas começariam no dia 18 de fevereiro, e eu ainda teria umas duas semaninhas pra prepará-las, descansando na nossa nova casa. E daí iria andanado pra UFC. Não quero mais nada, eu sei. Vamos a mais uma casa. Esta eu até gostei. A localização é ótima, a uns quatro quarteirões da UFC. Tem três quartos, 180 m2 de área construída, num terreno de 210 m2. É cara demais pra gente (195 mil), e eles teriam que baixar se quisessem vendê-la pros pobrinhos aqui (pobrinho que paga à vista, mas ainda assim...). Já falei que meu maior sonho de consumo burguês é ter um closet?Não dá pra ter muita ideia de como é a fachada, se há quintal, jardim, ou corredores laterais (que permitam ir à porta dos fundos sem passar por dentro da casa). Olhando assim, minha primeira ideia seria separar a sala em duas. Veem essa divisão entre as salas? Eu fecharia essa separação com uma parede, transformaria o lavabo num banheiro de verdade, com entrada pro outro lado, e essa parte toda (cozinha, despensa, parte da sala, banheiro e área de serviço - foto ao lado) ficaria pra minha mãe, com entrada independente pelos fundos. A gente ficaria com parte da sala (que tem escada pra cima) e todo o segundo andar. Aproveitaríamos este espaço em cima pra fazer uma cozinha pra gente. O maridão não gostou muito da ideia de cozinha em cima, mas se a gente morasse numa casa duplex seria dessa forma, não? Ele diz: "Claro que você não liga! Não é você que tem que carregar o botijão de gás!".Este é o hall lá de cima, que dá pra três suítes. Não entendi o que é esse troço bege do lado. É uma janela aberta?Agora, se a gente pudesse escolher mesmo mesmo, pô, não tenho nem dúvida:Infelizmente, ela não fica em Fortaleza. Fica a 90 km de distância, numa cidade chamada Paraipaba. Trata-se de um sítio de 4 mil m2, com 170 pés de coqueiro. Por R$ 150 mil. É ridículo de grande. Não vou nem colocar todas as fotos pra vocês, mas dá pra ver mais neste site. (Não é propaganda. É que eu acho um desperdício eu não viver nessa casa).Nem gosto muito de piscina, porque dá muito trabalho pra cuidar e é anti-ecológico. E porque afoga gatinhos desatentos que sempre caem dentro quando tentam caçar passarinhos (é uma atração irresistível: se você tem piscina, e tem gato, cedo ou tarde os dois irão se encontrar). Mas dá uma olhada no espaço (churrasqueira ao fundo).Isso aqui eles chamam de área de serviço.Eu chamaria de, sei lá, décima quinta sala.Tudo isso foi no térreo até agora. Vamos pra cima. Esta é a sala do piso superior.Um dos cinco quartos, pelo que contei.Varandinha básica, com vista pras árvores. Eu quero uma pra viver!E aí, quando você acha que já viu tudo, surge a casa do caseiro. Pára, né? Mas talvez 150 mil ainda esteja um pouco acima das suas posses. Que tal então este, por 60 mil? 60 mil, gente, por um sítio de 3,600 m2. É em Iguape. Esta é a fachada.O "defeito" é que tem piscina também. (Se você prestar bem atenção, dá pra ver o portão de entrada lááá no fundo. Eu nunca mais iria encontrar os meus gatos).Não é por nada não, mas entre um sítio e uma kitinete pelo mesmo preço, eu ficaria com o sítio. Quer dizer, com 60 mil reais dá pra virar uma latifundiária! Por que não tem um sítio desses a quatro quarteirões da universidade, ó deus? Por quê? Por quê?
Eu odeio ver gente de esquerda escrevendo ou falando coisas preconceituosas. Não sei, mas eu realmente acredito no título do post que pus aí em cima. Vamos deixar que a direita tenha o monopólio da estupidez.
Esses dias, li um post do Gilvan, do Terror do Nordeste, em que ele comentava sobre vários nomes do PIG (Partido da Imprensa Golpista). Quando foi falar do abjeto blogueiro da Veja, Gilvan escreveu “Reinaldo Cabeça Furada Azevedo”. Hmmm... Olha, não é que eu esteja numa cruzada politicamente correta. Eu raramente comento em blogs alheios, ainda mais se for pra criticar. Mas deixei uma mensagem pro Gilvan dizendo que a gente, que é de esquerda, não deveria se portar assim. Que é revoltante ler blogs de direita chamando a Dilma de “dama de peruca”, expondo sua insensibilidade com milhões de vítimas de câncer que fazem quimio e perdem o cabelo. Ou fazendo troça com o fato do Lula não ter um dos dedos. É preconceituoso enfatizar um defeito físico de alguém. Aliás, qual a importância da aparência física de alguém no embate de ideias? Exatamente nenhuma. Logo, não deveríamos mencionar a doença do tio Rei. Simplesmente não é relevante, e pega mal pra quem se preza por ser humanista. Gilvan foi humilde e respondeu: “Lola, você está certa. Prometo não mais repetir. Abraços”. Ninguém gosta de ser pego com a boca na botija. Ninguém quer que lhe seja apontado um preconceito. Mas é a nossa chance de crescer, ué. De melhorar. De evoluir. Só porque alguém faz uma piadinha racista, por exemplo, não quer dizer que a pessoa seja racista. Quer dizer que foi racista naquele momento. É só pedir desculpas, não fazer de novo, e bola pra frente. Mas é preciso a humildade que Gilvan mostrou pra reconhecer que esteve errado. Na mesma semana, me incomodei com o que o Marona falou sobre o caso Uniban. Revoltado com a reação da turba, como todo mundo, ele apelidou de “viadinhos trogloditas” o pessoal que quase linchou a Geisy, e chamou “o crescente horror dos homens às mulheres” de “ideologia gay”. Eu não me contive e reclamei: “"Ideologia gay", Marona? O que os gays têm a ver com essa história toda? Eram homossexuais gritando "puta! Puta!" ou eram héteros? São gays que estupram mulheres? São gays que espancam suas esposas? Assim fica fácil 'resolver' o problema: é só livrar a cara dos culpados. É o que a Uniban fez, e o que vc, indiretamente, está fazendo. Atacando uma minoria que não tem nada a ver com o caso para não falar dos verdadeiros culpados”. Pô, nessas palavras usadas, qual a diferença entre o Marona e esse pessoal preconceituoso que se refere à Uniban como Unibambi? Ele não gostou, e respondeu: “Eu não sou homofóbico, Lola. Mas sei o quanto babacas como os compradores de diploma da Uniban se ofenderiam sendo chamados de viadinhos. O machismo deles não suporta este tipo de 'acusação'. Se ofende, então eu uso. Não seja tão séria assim, Lola. Procure homofobia onde ela existe. Ou procure me conhecer melhor antes de me chamar de homofóbico. Fale com quem me conhece e eles vão dizer que eu sou um sacana do caralho que não está nem aí para essas 'viadagens' politicamente corretas”. Certo. O mesmo discurso da direita: vivemos num mundo politicamente correto demais, quem não aceita uma piada é porque não tem senso de humor, blá blá blá. Pode-se tudo em nome da diversão. E eu fico aqui, posando de rabugenta carola, sendo que o meu bloguinho nem é lá muito sério. Mas pelo menos se esforça pra não ofender minorias. Acho que todos poderíamos aprender com o Eduardo Guimarães, do Cidadania, um dos blogueiros mais éticos que há. Nem sei direito o que ele fez de errado. Eu só vi o seu post de desculpas, não o anterior, que gerou as desculpas. Acho que ele publicou em seu blog uma fotomontagem da ex-secretária da Receita Lina Vieira, com o rosto dela e o corpo de alguma coelhinha da Playboy. Eu nem sei as críticas que ele recebeu por isso (que não me parece tãããão grave). No entanto, em agosto ele escreveu, sob o título “Benditos Críticos”: “Eu, que sempre recrimino quem ataca mulheres valendo-se da secular patrulha masculina – e feminina – à sexualidade delas, fui hipócrita, ainda que inconscientemente, ao reproduzir aquele lixo em meu blog. Há muito pelo que atacar a ex-secretária da Receita. [...] Mas não é cabível descer ao ponto que desci. Fiquei chocado com o que fiz”. É um post imenso e até meio exagerado se comparando com Dorian Gray, aquele que não se reconhece ao se ver no retrato: “Só posso pedir desculpas aos que não foram poupados de ver minha imagem distorcida por mim mesmo e prometer que terei mais cuidado com os demônios que, como a todos nós, espreitam-me a alma em busca de meu menor descuido. E aos que me criticaram, mesmo com virulência, agradeço de coração o que fizeram”. Achei sua atitude louvável, porque é raríssimo alguém pedir desculpas por algo que escreveu. O ego não deixa. E estão vendo a diferença? Os leitores do Cidadania, na sua maioria de esquerda, criticaram a postura machista do autor naquele episódio isolado. A esquerda tem esse cuidado em não espalhar preconceitos. Não sei se os leitores do tio Rei chamam sua atenção quando ele fala uma de suas inúmeras besteiras (outro dia ele escreveu que foi ele que fez a Uniban revogar a expulsão de Geisy). Não dá pra saber, já que ele não publica críticas. Pelo menos ele explicou que não é que censura vozes discordantes. Ele apenas exclui “quem diverge da civilização”. Cuma? Definitivamente, nós somos melhores que eles.
Conservadores americanos disseram nos anos 70: "Deus fez Adam & Eve [Adão e Eva], não Adam & Steve". Gays gostaram da frase e adotaram o Adam & Steve.
Ha ha, o casamento gay visto por um blogueiro português: "Aos gays é reconhecido o direito de se considerarem seres humanos: podem passear pelas ruas, ir ao cinema, ao teatro, fazer teatro, trabalhar, escrever, comprar uma casa, ter cães, gatos, amigos ou amantes à vontade, dedicar-se à decoração e ouvir Abba de forma obsessiva mas, caramba, pelo amor do Deus que criou Adão e Eva e os mandou foder, perdão, multiplicar-se, o gay tem de aprender a comportar-se com um mínimo de decência! Não pode andar por aí aos linguados e aos apalpões, pois isso incomoda muita gente e excita alguns cristãos." Aqui tem o texto inteiro, muito divertido.
As mulheres de 2012 entraram num túnel do tempo ou nunca saíram dele?
Enquanto eu via 2012, não conseguia parar de pensar em Doutor Fantástico, grande comédia do Kubrick de 1964. Não sei se vocês conhecem essa paródia da guerra fria e da ameaça nuclear. É sobre um general americano que sai fora da casinha e consegue transmitir uma ordem para que um grupo de pilotos jogue uma bomba atômica na União Soviética. Quando o alto comando dos EUA percebe que não vai poder detê-los, o presidente americano liga para Dimitri, o presidente russo, num dos mais famosos monólogos da história do cinema. É Peter Sellers que faz o presidente falando pelo telefone com o presidente russo, provavelmente bêbado. Veja o clip aqui e acompanhe a minha pobre tradução: “Olá... Uhn, olá, Dimitri. Olha, não posso te ouvir muito bem, será que você poderia diminuir o volume da música um pouquinho? Ah, muito melhor. Sim, uh, sim. Posso te ouvir claramente agora, Dimitri. Eu também estou sendo claro? Ótimo, bem, como você diz, nós dois estamos claros. Bom. É bom que você esteja claro e eu esteja claro. Então, Dimitri, você sabe que nós sempre falamos da possibilidade de algo dar errado com a bomba. A bomba, Dimitri. A bomba de hidrogênio. Bem, o que aconteceu é que, ahn, um de nossos comandantes, ele teve um probleminha na cabeça. Sabe, só um probleminha. E aí ele fez uma coisa tola. Bom, vou te dizer o que ele fez. Ele mandou que aviões atacassem o seu país. Bem, deixe-me terminar, Dimitri. Como você acha que eu me sinto a respeito? Você pode imaginar como eu me sinto, Dimitri? Por que você acha que eu te liguei? Só pra dizer oi? Claro que eu gosto de falar com você... claro que eu gosto de dizer oi. Não só agora, mas qualquer hora, Dimitri. Só estou ligando pra te dizer que algo muito ruim aconteceu. É um chamado amigável, lógico que é. Ouça, se não fosse amigável você provavelmente nem o receberia. Eles não vão alcançar seus alvos por pelo menos uma hora. Tenho certeza, Dimitri. Já falei sobre isso com seu embaixador... Não é um trote. Bom, vou te dizer. Gostaríamos de dar a sua equipe um relatório completo dos alvos, os planos de voo e do sistema de defesa dos aviões. Sim, quero dizer... Se não pudermos chamar os aviões de volta, vamos ter que ajudar vocês a destrui-los, Dimitri. Sei que são nossos meninos. Tudo bem. Então, pra quem deveríamos ligar? Quem deveríamos chamar, Dimitri, sua voz sumiu um pouco. O Quartel General de Defesa Aérea do Povo. Onde é isso, Dimitri? Em Omsk. Ok. Ah, você vai ligar pra eles antes? Uh. Ouça, você tem o número deles? O quê? Ah, entendo, é só pedir pra Informações de Omsk. Ahn. Eu também sinto muito, Dimitri, muito mesmo. Tudo bem, você sente mais do que eu, mas eu também sinto. Eu sinto tanto quanto você, Dimitri, não diga que você sente mais porque eu sou capaz de sentir tanto quanto você. Então nós dois sentimos muito”. Ele passa o telefone para que o embaixador russo fale com o presidente. E nota que não haverá salvação: o sistema russo reagirá automaticamente a qualquer ataque, detonando a Máquina do Julgamento Final, que acabará com toda a vida animal e humana no planeta. Mas um dos cientistas do governo americano tem uma solução pra minimizar o problema: colocar todo o alto escalão do governo e do exército, e algumas outras pessoas, em minas, para garantir a sobrevivência da espécie. Ele recomenda dez mulheres para cada homem, para que eles possam repovoar o planeta rapidamente, assim que a poeira radiotiva baixar. O general interpretado por George C. Scott gosta da ideia e pergunta: “Mas com essa esquação de dez mulheres pra cada homem, não teríamos que abrir mão dos nossos princípios monogâmicos?”. E o cientista, com um sorriso maroto no rosto: “É, nós homens teríamos que fazer esse sacrifício. E naturalmente as mulheres escolhidas teriam que ser jovens e bonitas, para que nos sentissemos estimulados para tal árdua tarefa”. Ha ha. Doutor Fantástico, essa comédia de humor negro, tem exatamente uma atriz. Só uma, e ela aparece de biquini durante poucos minutos. Mas o general maluco que lança o ataque nuclear explica: seus “fluídos corporais” estão sendo afetados pelo flúor que colocam na água. Ele se deu conta disso ao ficar cansado na hora do sexo. O filme é inteirinho sobre sexo. Fora esses diálogos absurdos, há uma infinidade de imagens fálicas (aviões penetrando buracos de aviões, um piloto montado num foguete, o general e seu charuto, filmado de baixo pra cima, como se estivesse ereto). Tá, e por que pensei tanto neste clássico enquanto via 2012? Não parece ter muito a ver. Afinal, as pessoas que se salvam em 2012 são (além dos políticos e membros do exército) quase todas bilionárias que pagaram para estar na nave (é bacana que o filme dê destaque aos negros, se bem que não haja homossexuais ou gordos entre os sobreviventes). E nem se fala muito em procriação. Mas, pelo jeito, vai haver uma imensa falta de mulher, já que não existem muitas bilionárias na vida real, e nem todos os chefões levam as esposas. Quando a nave começa a ser ocupada por gente, vemos apenas uma mulher (Thandie Newton), a filha do presidente americano. Ela é chamada de doutora durante o filme todo, mas doutora em quê, só deus sabe, porque seu papel é completamente inútil. As outras duas únicas mulheres com falas na nave nem doutoras são. Uma é a ex do protagonista John Cusack, Amanda Peet. Sua profissão, aparentemente, é ser mãe. A outra é a jovem namorada de um russo bilionário. Ela não tem filhos, mas tem instinto maternal: carrega consigo um cachorrinho. Profissão, nem pensar. Acho que comentei na minha crítica ao remake de Destino do Poseidon como os homens têm profissões, enquanto as mulheres são apenas isso, mulheres. Tipos. Mães e filhas. Será que essa é uma dinâmica em todos os filmes-catástrofes ou em todos os filmes, ponto? As três mulheres com falas de 2012 são jovens, bonitas, e não acrescentam nada à história. Elas estariam em casa tanto na nave de 2012 como nas minas de Doutor Fantástico. A diferença de idade entre um filme e outro é de quase meio século. E nós mulheres continuamos tendo duas funções: procriar e decorar o ambiente.
Se a oposição tá tão mordida com o filme sobre o presidente, Lula, o Filho do Brasil, por que não faz um filme sobre um dos inúmeros personagens carismáticos e populares do PSDB/DEM? Tipo, sei lá, aproveitando a segunda revelação em uma semana de pai de filho não-reconhecido, que tal FHC, O Pai do Brasil?Seria um estouro de bilheteria! Podiam até organizar uma pré-estreia só pros filhos do homi!
Conheci a Renata na UFSC, onde ela fez mestrado em Literatura em Língua Inglesa um tempinho depois de mim. E antes, sem saber, eu tinha dado aula pra namorada dela. As duas são uns amores. Renata é jornalista e tem um ótimo blog que eu adoraria que fosse atualizado com mais frequência, pois sempre aprendo muito com ele. Pedi pra Rê nos dar uma canjinha e ela atendeu. Sorte nossa.
(Muito) tempo atrás a Lola me pediu pra escrever um guest post para o Escreva Lola Escreva sobre aspectos da vida de uma lésbica assumida. Jornalista que sou, resolvi pegar o gancho da tal da enquete do Senado sobre a aprovação do PL 122 que está causando um furor na blogosfera nos últimos dias. Não sei se quem está de fora está acompanhando, eu explico: o PL 122 é o Projeto de lei que criminaliza a homofobia e está em trâmite há anos nas casas do Congresso. Atualmente está assim: o projeto chegou a ser aprovado pela Câmara, mas na Comissão de Assuntos Sociais do Senado foi aprovado na forma de um substitutivo, com um texto mais light que inclui idosos e deficientes. Agora tem que ser aprovado pela Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa para daí voltar à Câmara novamente... e aí a dança continua... A enquete do Senado é simples: você é a favor do projeto que criminaliza a homofobia? Ela gerou um movimento tanto dos evangélicos quanto da populaçãp LGBT, nenhum lado quer perder a votação, que atualmente está 51% a 49% pra gente. A corrida para votar foi tanta que a enquete foi tirada do ar na semana passada por problemas técnicos. Acho que para a maioria das pessoas é apenas mais uma das questões polêmicas do legislativo, ente tantas, mas pra gente que vive o preconceito todos os dias cada batalha dessas é importante. É difícil ver as pessoas tão empenhadas em lutar contra o que eu represento. Poxa, o que eles querem mesmo é o direito de continuar nos ofendendo abertamente, de pregar a "cura" dos homossexuais. Realmente fico pensando no que motiva essas pessoas. Bom, a Lola pediu para eu falar sobre como é a vida de uma lésbica assumida: ela é assim, é saber que tem gente que perde o sono por saber que eu sou feliz por ser quem eu sou. E eu sou mesmo. Tenho orgulho de ser lésbica e lutei muito pra chegar até aqui. Demorei para me assumir, só fui me dar conta da minha homossexualidade com 21 anos. Foi bem difícil, ninguém está preparado psicologicamente a não pertencer à sociedade. No fundo a gente sempre sabe da verdade, mas é tão complicado desafiar tudo que o mundo te prepara para ser desde criança. Meu conflito foi mais interno mesmo, mas depois de muita reflexão, de muita angústia, eu me aceitei. Esse foi o primeiro passo. O segundo foi compartilhar isso com as pessoas que eu amo. Meus amigos foram tranquilos, alguns até já imaginavam. Já com a minha família foi um pouco mais complicado. A reação não foi das melhores, mas eu entendo que assim como eu levei um tempo para compreender e aceitar tudo isso, eles também precisaram desse tempo. Rolou muita terapia e conversa e lágrimas, mas no fim deu tudo certo. Hoje eles me aceitam, gostam muito da minha namorada e acho que se deram conta de que eu continuo sendo a mesma Renata, mesmo sentindo atração por pessoas do mesmo sexo (como se isso mudasse quem eu sou...). Depois de um tempo eu me assumi também para os outros parentes: tios, avós, primos, etc. Alguns foram tranquilos, outros precisaram de um tempinho também... Agora, cinco anos depois, parece que nem aconteceu todo aquele drama. O último passo, para mim, foi me assumir no trabalho. Como eu não sabia onde estava me metendo, com quem eu estaria lidando, voltei pro armário nos primeiros meses. Mas se tem uma coisa que quem já se assumiu odeia é ter que ficar no armário. Depois de todas as conquistas e sofrimentos ter que ouvir piadinhas de gays nos escritório é realmente o fim. Porque as pessoas têm essa necessidade? É realmente vital ter que tirar sarro do Richarlyson todo dia? É um comportamento adequado ficar falando de ex-colegas gays o tempo todo? A ironia é que as pessoas fazem piada porque acham que não tem nenhum gay por perto... tsc tsc. Se ao menos soubessem de quantas vezes deram fora... Uma vez que eu me estabeleci no meu emprego, comecei a me assumir aos poucos pras pessoas com quem eu trabalhava, e após um tempo as piadinhas pararam (ainda bem). E depois de tudo isso a gente ainda tem que ouvir de senadores da república que ser gay não é que nem ser negro ou ser índio, que o negro e o índio nasceram dessa forma mas que ser gay é uma "opção" e eles querem o direito de ter preconceito contra essa "opção" (as aspas são do meu repúdio pela expressão). Depois de tudo isso tenho que ouvir que preservar os direitos dos gays seria criar uma sociedade de castas, que teríamos então que ter leis que protegessem os "circenses, engraxates, empresários, lojistas, desempregados, [teríamos que criar leis para o] pipoqueiro, porteiro do prédio, religioso, padre, pastor, chefe do centro espírita, a qualquer um" (as aspas aqui para evidenciar que eles realmente disseram essas barbaridades, conforme consta nos autos―ver aqui um exemplo). É duro ouvir isso de representantes do povo. Às vezes no meio da correria do dia-a-dia eu me esqueço que sou uma sub-cidadã brasileira, com inúmeros direitos a menos que o resto da população, mas daí vem um senador e diz isso e me lembra. É como se fosse dito: "sim, vocês são marginalizados e nós preferimos que a situação continue assim". Eles realmente não fazem ideia do que é sofrer preconceito dentro e fora de casa e ainda sair de cabeça erguida. Tenho a impressão de que eles acham que ser gay é um grande capricho e que nós queremos impor isso ao resto da população, a chamada "ditadura gay". Bom, eu tenho novidades para essas pessoas: ninguém passa por tudo isso por capricho. A gente tem que lutar contra o mundo e tirar coragem não sei de onde simplesmente para poder aceitar que ser diferente é ok. A gente passa por um dilema toda vez que tem que dizer os pronomes certos em relação à namorada para um vizinho ou colega novo de trabalho. Para alguém gay ou lésbica, ser assumido não termina quando você diz "Eu sou gay" em voz alta: é um ato constante. Eu sempre digo que não é fácil ser gay, é por isso que os índices de suicídio são mais altos entre adolescentes LGBT e talvez seja por isso que ainda haja muita gente vivendo vidas duplas, com medo o tempo todo. Mas, ao mesmo tempo, eu sinto que agora estou livre para ser a pessoa que eu sou realmente. Mesmo sem direitos, mesmo com o mundo contra mim, mesmo convivendo com um discurso de ódio, mesmo tendo muito mais chance de ser agredida na rua ao andar de mãos dadas com quem eu amo. Mesmo com tudo isso eu sou feliz só por poder dizer de cabeça erguida que sim, sou lésbica, e daí?
Ouvi dizer que tem gente indo prestigiar 2012 só pra ver o Cristo Redentor desabar! Ô, gente, que besteira! Uma coisa é ir ver 2012 por causa do piloto russo bonitão que aparece durante uns cinco minutos, outra é pra ver um detalhezinho desses! Se for só pra ver o Cristo, não precisa. Isso tá no trailer. Embora o Brasil seja o único país da América Latina citado no filme, as cenas são muito curtinhas, vistas apenas numa TV. E acho que rolou merchandising da Globo, porque o filme diz “imagens da Globo News”. Acontece que a narração jornalística que acompanha as imagens tá em português de Portugal! Sério, que nem em Sinais, quando mostram um vídeo de Passo Fundo, Brazil, e a voz no vídeo é de um certo João Manuel (ok, estou sendo injusta: no filme ele se chama Pablo Romero). Em2012, eu posso jurar que a narração diz: “O Cristo Redentor está a cair, pá!”. Tá, o pá foi por minha conta, mas me digam se não tenho razão no está a cair.
Como vocês sabem, 2012 é sobre o fim do mundo. E a culpa é toda do Lula, como lembrou o meu leitor Eduardo! Ele acrescenta: “Se no filme as imagens de TV que mostraram o Cristo Redentor caindo foram da Globo News e o repórter português só disse 'O Cristo está a cair!' e não complementou 'provavelmente resultado do PAC do governo anterior e da atual administração da Presidenta Dilma! Faltou investimento... A oposição afirma que irá convocar uma CPI para investigar o caso e promete convocar o ex-presidente Lula para prestar esclarecimento da sua gestão!', o filme foi falho, não representou bem o lado brasileiro!”. É verdade! Esses americanos... Colocam brasileiro falando português de Portugal e narração da Globo News que não culpa o Lula! Dá pra ver que não conhecem nada de Brasil. Veja no trailer a destruição em massa causada pelo governo do PT.
Fui ver 2012 sozinha, chuif, porque o maridão está disputando os Jogos Abertos de SC e não tive tempo de convocar algum amigo. O cinema estava lotado, e, ao sair, vi que os ingressos pra sessão seguinte haviam se esgotado. Talvez eu esteja exagerando, mas tinha uma fila que eu não via desde Titanic (bom, pra ser justa, poucas vezes vi o shopping tão cheio. Os comerciantes não vão poder reclamar deste natal). Mas o maridão queria ver o arrasa-quarteirão da vez, e me fez prometer que eu reveria o filme com ele quando ele voltasse. Portanto, durante a exibição, eu fiquei pensando: “Ah, zuzo bem, posso ver o troço de novo. Tô até gostando, olha só aqueles cinco prédios se chocando, deve ser ótimo rever isso. Uau, que efeitos especiais massa! Terremoto, tsunami e vulcão juntos! Sem problema, vou quebrar esse galho pro maridão”. Isso até chegar ao terço final. Aí minha atitude mudou, meu bumbum começou a ficar quadrado no assento, e eu pensei cá com os meus botões: “O quê?! Não, isso tá chato demais! Não vou aguentar um repeteco!”. Na saída, minha conclusão era que o maridão teria que me tratar muuuuito bem durante no mínimo três meses ininterruptos pra que eu aturasse um “vale a pena ver de novo”. Gente, o que é aquilo?! O que aconteceu? As críticas que li até agora não mencionam isso que ficou claríssimo pra mim: a verba do filme acaba no terço final! É sério. Ok, pode soar estranho um orçamento de 260 milhões de dólares não ir até o fim da produção, mas eu juro. As imagens mudam de definição. Não sei se é digital ou o quê, mas sabe imagem de TV? De filme chinfrim feito pra TV? É assim que ficam as imagens no terço final, intercaladas com um ou outro efeito especial do tempo em que eles tinham dinheiro. Não tô brincando não. Quer uma prova definitiva? Durante um dos clímax do filme, no final, a câmera não mostra o que acontece. Focaliza o rosto de um carinha que apareceu três vezes até então. As expressões faciais dele substituem as imagens da catástrofe. Eu não sou boba e já vi um monte de superprodução e sei que não mostrariam as reações de um coadjuvante (praticamente um figurante) se tivessem alguma imagem melhorzinha pra mostrar. Não sei se a verba acabou de fato ou se as plateias-teste reprovaram e eles tiveram que refilmar um monte de coisa, mas que na fase-destino-do-poseidon do filme entra água, isso entra. Não que uma tecnologia de ponta do começo ao fim salvaria o roteiro no terço final, porque não tem salvação. É só clichê, e qualquer um que já tenha ido ao cinema umas quatro vezes na vida pode prever tudinho que vai acontecer, quem vai viver, quem vai morrer. A única surpresa é a última cena, que não posso descrever aqui, mas que tem um viés político forte. Isso porque o diretor Roland Emmerich (dos péssimos Independence Day e Godzilla) deve gostar de política. Seu filme anterior, O Dia Depois de Amanhã, é quase panfletário (e sou grande fã de Dia). É pena que 2012 vai piorando, piorando, até deixar um gosto muito ruim. Porque a premissa é boa, e poderia render umas discussões acaloradas. O mundo vai acabar em dezembro de 2012, como já previam os maias. A crosta terrestre esquentará demais devido ao alinhamento dos planetas, e caput, adeus Terra (não confie no meu rigor científico). O governo americano sabe disso uns três anos antes, e o que faz? Nada muito útil: constrói, em parceria com a iniciativa privada e outros governos ricos (nenhum país da América Latina), uma misteriosa nave para tentar salvar uma parcela da humanidade. E vende passagens. Entendeu? Não é que seleciona os melhores da espécie nem nada. Infelizmente, o filme peca pela falta de humor, porque uma das cenas de venda tinha tudo pra ser engraçada. Um negociante de vagas na nave discute o preço com um sheik do petróleo: um bilhão. E o sheik tenta negociar, diz que tem uma família grande, e que um bilhão de dólares por pessoa é um tanto quanto salgado. E o negociante corrige: que mané dólares? Um bilhão de euros! E não sei quanto a você, mas pra mim fica estranho que alguns poucos personagens do filme façam discursos comoventes sobre como devemos salvar o máximo de gente possível... e os escolhidos são todos bilionários! Lembrei daquela fala do John quando os Beatles fizeram um concerto prum público rico (“Queria pedir um favor para a nossa última música: as pessoas nos assentos mais baratos, batam palmas. E o restante de vocês, se vocês pudessem apenas chacoalhar suas jóias..."). Parafraseando, eu pensei em: “Quem quiser entrar na nave, por favor, chacoalhe suas jóias”. E não estou revoltada só porque eu seria extinta! (se o critério de seleção fosse os melhores da espécie, eu ainda teria alguma chance... not!). Um tema legal seria discutir se o governo deveria avisar a população mundial com antecedência. Avisar pra quê, se o mundo vai acabar? Pra Lolinha poder se empaturrar de chocolate sem culpa? Não, o filme sugere que é pra que as pessoas possam se despedir de suas famílias. Daria um outro filme, né? O que aconteceria se todo mundo soubesse que o planeta tem prazo de validade pra terminar? Seria o caos, suponho. Ou seja: não daria pra anunciar. Ignorance is bliss, é isso? Como este texto tá longo demais, pra variar, continuo depois. Mas, pra terminar, você quer ouvir as más ou as boas notícias primeiro? Ok, as más: não sobra um só brasileiro pra contar a história. Nem o Antonio Ermírio. As boas? Os argentinos sumirão da face da Terra. Essa eu já devo ter contado umas 2012 vezes. O fim está próximo, irmãos.Divulgação de 2012 em estação de metrô no Rio. Melhor que o filme.
Eu, hein? Pensei que quase todos vocês ficariam indignados(as) com a ideia de comer carne de cão e gato. Mas não, vocês estão aí dizendo que dá na mesma. Alguns, porque são vegetarianos e defendem que nenhuma carne deve ser consumida. Outros, porque são carnívoros e, já que se come um animal, que comam-se todos. Acho esses dois argumentos muito estranhos.
Vamos ao menos concordar que o que comemos é um ato socialmente construído (como todos os nossos hábitos e gostos na vida)? Então vamos. Aprendemos desde pequenos que comer isso é aceitável, e aquilo é nojento. O que não quer dizer que não possamos reaprender, lógico. Pouquíssimas crianças são criadas como vegetarianas, e, no entanto, várias viram vegetarianas quando adultas. Mas ser vegetariano, assim como ser carnívoro, é outra construção social (e o exemplo do sushi é péssimo! Quer construção social maior que aprender a comer peixe cru? Na minha infância, sushi nem existia no ocidente. Foram os yuppies que o transformou peixe crue em moda a partir dos anos 80. Sushi é um prato caro, está ligado a status. Pra fazer parte de um clubinho algumas pessoas reaprendem qualquer coisa. Com todo respeito aos comedores de sushi). Gostar de animais para companhia também é um ato socialmente construído. Nojo de insetos, idem. Talvez, se os adultos deixassem, as crianças adotariam insetos inomináveis como bichos de estimação. Graças aos bons céus, elas aprendem que cães e gatos são muito mais fofinhos, companheiros, simpáticos e limpos que insetos. E aprendem que bichos de estimação não se comem. Eu já disse que a maior parte de nós só pode comer carne se não tiver que pensar de onde vem essa carne. Uma coisa é ver o bife embalado, ou, melhor ainda, pronto no seu prato (tem gente que detesta cheiro de carne crua); outra é ver uma pobre vaquinha ou boi, seres lindos e totalmente inofensivos, ser esquartejada. Não sei quanto a vocês, mas eu, pessoalmente, fiquei uns meses sem comer carne suína depois de ver Babe, o Porquinho Atrapalhado. E um ano sem comer frango após ver uma vizinha matando uma galinha (e notem os eufemismos que criamos pra nos distanciar da comida: a gente não come porco, come carne suína!). O Brasil mudou radicalmente nas últimas décadas e hoje é um país urbano. A maioria de nós vive em centros urbanos, não rurais. O que isso significa? Que podemos passar anos, senão a vida inteira, sem ver um porco, galinha, ou vaca ao vivo. Vocês já chegaram bem perto de algum desses bichos a ponto de poder tocá-los? Eu não. Tenho a impressão que, se nós estivéssemos num sítio, e fossemos apresentados ao leitãozinho que em breve seria sacrificado para satisfazer o nosso paladar, não aceitaríamos comê-lo. Seria violento demais saber que aquele bichinho querido teve que ser morto pra nos render uma refeição. Lembro de quando eu e o maridão visitamos Chinatown, em Nova York, no começo do ano passado. Ao passar por um entre inúmeros (e bons e baratos) restaurantes orientais, o maridão parou diante de uma vitrine e me fez observar uns belos peixes, coloridos e vivos, do outro lado do vidro. Ele não tinha se dado conta que o esquema do restaurante era que você escolhia o peixe, vivo, que iria comer. Eles o tiravam do aquário e o matavam e o preparavam pra você. Eu não como peixe, mas não aguentei olhar praqueles peixinhos nos seus últimos minutos ou horas ou dias de vida. Aquilo estragou o meu dia. Se estamos acostumados a conviver com cães e gatos e amá-los, porque fomos ensinados a fazer isso, e se não precisamos ver os bichos que comemos (galinhas, porcos, vacas), não dá pra dizer de forma alguma que “tanto faz comer um cão ou gato quanto qualquer outro bicho”. Não é igual. Fomos programados pra aceitar um modo de vida e não o outro. Uma desprogramação não é nada fácil. E quem falou que é desejável? É isso que queremos: comer todos os bichos? Fazer campanhas para que viremos vegetarianos me parece mais realista, e mais humanitário, que essas bravatas de “vamos comer cães e gatos, ueba!”. Esse tipo de conversa nem me faz bem. Meus gatos estão me olhando estranho desde o primeiro post.
Uma vez, durante uma das minhas aulas de inglês pra um grupo de adultos, um aluno disse que cachorros não deveriam viver, porque ocupavam espaço demais, faziam cocô, comiam, e eram seres inúteis―e o sujeito tinha cachorro em casa! Os alunos do grupo caíram em cima. Nunca vi nada igual, e olha que nas minhas aulas sempre calhava de discutirmos algum tema polêmico (em inglês). Eles foram unânimes: aquele cara era um monstro. Foram mais educados porque era colega deles, mas a mensagem foi bem essa.
Fico feliz em saber que cães (e gatos também) têm um lobby forte. Devem ser as duas únicas espécies que nós humanos, os donos do universo, tratamos bem. Quer dizer, bem numas. Pergunte pros heróis que trabalham em abrigos animais, recolhendo e cuidando de cães e gatos, como esses bichos são tratados. São torturados, mutilados, atropelados no trânsito, abandonados na rua. Bichinhos queridos que só querem o nosso bem, que alegram tanto um lar. E ainda assim, comparado ao modo que tratamos outros animais, cães e gatos são privilegiados. Lembrei desse meu aluno anti-cachorro ao ler a coluna do André Forastieri. Ele escreveu que come qualquer coisa e que provaria carne de cachorro sem problemas. Estava se referindo àquele caso terrível do abatedouro clandestino que recolhia cães de rua em SP e depois vendia a carne para coreanos. Na realidade, me lembrei do meu aluno após ver a reação à coluna do André. Trezentos e poucos comentários, boa parte chamando-o de monstro. Eu concordo: sua coluna foi de uma insensibilidade atroz. O que comemos é culturalmente construído. Quando somos bebês, colocamos tudo à boca. E cabe aos nossos pais indicar que esse caracol nojento aí que você tá segurando não se come, mas que, se você for rico, vai ter que encarar um escargot. Felizmente, vivemos num continente em que comer bichos de estimação é impensável. Eu já falei um pouco disso quando defendi o PETA (People for the Ethical Treatment of Animals): que o certo seria não consumir nenhum produto animal. Mas, ao mesmo tempo, se a gente não comesse porcos e vacas, eles estariam quase tão extintos quanto tigres e elefantes. Não damos espaço pra quem não seja humano. E até nisso há divergências. Olha, só sei de uma coisa: eu queria ter sido criada pra ser vegetariana. Mas vamos pelo menos garantir uma existência digna para cães e gatos? É o mínimo que podemos fazer pra fingir que levamos a sério essa palavrinha, nossa humanidade. Mais aqui.
“Se a mídia me blindou? Só um pouquinho, quase nada”.
Pena que a grande imprensa brasileira não tenha um pingo de autocrítica, porque seria interessante saber o que ela tem a dizer sobre o fiel silêncio com que encobriu o filho bastardo de FHC. Eu li sobre o caso pela primeira vez numa reportagem de capa da Caros Amigos de abril de 2000. Não conseguia acreditar: como assim, FCH tem um filho fora do casamento? Como assim, todo jornalista sabe do caso, e ninguém noticia? Ué, um fato desses não é notícia? Depende. Vamos imaginar se fosse Lula quem tivesse um filho ilegítimo: seria notícia? Sobre a vida de Lula a gente sabe absolutamente tudo. Lula perdeu as eleições de 1989 pra Collor por uma margem mínima de votos, e eu insisto que isso de deu por três motivos: 1) a manipulação da Globo na edição do último debate entre os candidatos, claramente favorecendo Collor; 2) imagens dos sequestradores do Abilio Diniz vestindo camisetas do PT que a polícia do Fleury os forçou a vestir (eles não tinham nada a ver com o PT; sequer eram brasileiros); e 3) o depoimento (pago) de Miriam, ex-namorada de Lula no horário eleitoral do Collor, dizendo que Lula tinha pedido que ela abortasse e que ele era racista. Esse depoimento foi amplamente divulgado pela mídia, num dos maiores golpes baixos de qualquer eleição no mundo (deve ter sido lindo pra Lurian, filha—sempre reconhecida—de Lula com Miriam, ouvir que seu pai queria um aborto). Toda a grande mídia apoiou Collor no segundo turno. Alguns, como Roberto Marinho, fizeram isso mais publicamente que os Frias da Folha, os Civita da Abril, ou os Mesquita do Estadão. Mas foram todos. Eles morriam de medo que o PT ganhasse. E esse apoio não se dava apenas na escolha de fotos mais favoráveis a um candidato, na edição de debates, ou em capas que mais pareciam material de campanha, mas também num silêncio cúmplice. Collor não tinha um passado nada exemplar. Havia sido um playboy viciado em cocaína e que, direta ou indiretamente, estava ligado ao estupro e à morte de uma menina em Brasília. Como que eu sei disso? Não graças à imprensa brasileira, que não abriu o bico. É que a Vanity Fair publicou uma vasta reportagem investigativa sobre o candidato (o que ela não descobriu é que Collor tinha um filho não-reconhecido fora do casamento). Os americanos sabiam mais sobre a vida pessoal do nosso presidente do que a gente! A gente só sabia sobre a vida pessoal do Lula. Mas claro que os jornalistas brasileiros sabiam sobre o Collor. Eles leram a Vanity Fair. Só não podiam, ou não queriam, falar. A mídia não morria de amores pelo Collor, não. Sabia que ele era perigoso e pouco confiável. Só o apoiou porque apoiaria qualquer um contra o Lula. Já com FHC foi diferente. Esse a mídia gostava, não precisava fazer esforço. Então óbvio que não iria sair uma linha sobre o filho ilegítimo do cara. Todos os jornalistas sabem desse fato desde 1991, quando nasceu o menino. Inclusive porque o romance de FHC foi com uma jornalista da Rede Globo, Miriam Dutra (essas Mirians!). Uns dizem que FHC circulava à vontade com Miriam antes d'ela ficar grávida, apesar de casado com Ruth Cardoso; outros que eles se encontravam no apê do Serra. Quando ela engravidou e lhe comunicou, ele não gostou, lógico. Como ela não quis abortar, o jeito foi fazê-la desaparecer. Como? Mandando-a para o exterior, para sempre. A Globo a enviou para ser “correspondente”da emissora em Portugal, depois na Espanha (eu ponho correspondente entre aspas porque, sinceramente, você já viu alguma matéria feita por ela? Eu não!). Tomás hoje tem dezoito anos e, dizem, FHC vai finalmente assumir a paternidade (ele desmentiu essa notícia, dada na coluna de Monica Bergamo. A primeira vez que sai na grande imprensa qualquer palavra sobre o filho de FHC!). O caso é um pouco mais grave porque extrapola os limites pessoais. Sabe, não foi FHC que fez Miriam sumir do mapa. Foi a Globo. Por que fez isso? Pra poupar FHC, claro, porque gostava (e continua gostando) dele. Mas também não podia ser pra exercer algum tipo de influência, uma tentativa de chantagem? Algo como: se você fizer alguma coisa contra nossos interesses, a gente pode fazer uma matéria bem interessante sobre você. De um jeito ou de outro, FCH retribuiu o favor. Foi um cordeirinho com a Globo e com toda a mídia. Quando ainda era ministro da Fazenda, isentou de CPMF todos os meios de comunicação. Em 2000 houve o Proer da Mídia, que custou entre US$ 3 e 6 bilhões aos cofres públicos. Ele também mudou a Constituição para permitir que a mídia brasileira, então falida, pudesse contar com 30% de capital estrangeiro. E autorizou que o BNDES fizesse um empréstimo milionário à Globo. O Brasil não é tão fascinado como os EUA pela vida pessoal dos seus homens públicos (e note que a palavra aqui é homens mesmo, porque quando é mulher é diferente, é só ver tudo que foi falado da Marta Suplicy e da Erundina), e isso é bom. Mas se não fala do filho de um, que não se fale de nenhum, né? Porque vamos recapitular: Lula era viúvo quando teve o caso com sua Miriam. Nasceu Lurian, ele reconheceu. Toda a grande mídia falou disso, em tom de denúncia. FHC era casado quando teve o caso com sua Miriam. Ele não reconheceu o filho. Durante 18 anos, não saiu uma palavra na mídia, que ainda deu uma ajudinha pra fazer Miriam sumir de cena. É, um tratamento quase idêntico. Paranóia minha achar que a mídia é partidária.
P.S.: Azenha faz algumas perguntas pertinentes. Paulo Henrique Amorim resume o episódio com humor. P.S.2: E eu juro que li em blogs de direita comentários como “Que orgulho ele deve ter por ser fiho do FHC!” e “Isso só aumenta meu respeito pelo homem”.
Outro dia uma leitora indignada quis saber de onde tirei essa história absurda de que a mídia favorece (eufemismo do dia) a oposição e faz campanha sistemática contra o governo. Segundo a leitora, que provavelmente não lê jornais, essa "minha" tese carecia de provas: a mídia é neutra e imparcial, pô! Vamos fazer um breve exercício de imaginação: imaginem por um minuto que o desabamento de três vigas recém-colocadas tivesse ocorrido numa rodovia federal. Ou em alguma rodovia governada pelo PT. A culpa seria imediatamente do Lula e a mídia não falaria em outra coisa, né? Exigiriam até uma CPI da Estrada. Mas, como aconteceu em São Paulo, estado governado há quinze anos pelo PSDB, a culpa é dos estudantes de Engenharia, que aparentemente não estão muito preparados pra lidar com grandes obras. Isso me lembra aquela vez em que a cratera do metrô abriu em SP. A capa da Veja não foi sobre esse episodiozinho à toa. Não, foi sobre como nós amamos nossos cachorros. E é verdade, a gente ama os nossos cães, mas a grande mídia ama os dela mais ainda.
Sala de uma casa legal, no bairro de Benfica, Fortaleza.
Vou mostrar mais duas casas, ambas no Benfica. Esta tem a melhor localização de todas, realmente imbatível, atrás da Reitoria. Infelizmente, as vantagens terminam aí. O preço é alto, 220 mil (teriam que baixar muito, inclusive porque, em comparação com as outras casas, soa fora da realidade), e as fotos são as piores das piores. Tudo fora de foco, com luz estourada. Precisa ter muita imaginação pra sacar qual cômodo está sendo retratado. Isto deve ser um quarto.Mal dá pra ver a casa, que tampouco parece grande coisa. Acho que é uma cozinha.O terreno é de 150 m2, com 144 de área construída. Difícil, né? Mas semana passada uma leitora de Fortaleza que ainda não conheci pessoalmente, a Grasi, me recomendou um outro imóvel, que parece muito bom. Esse tem cinco quartos (quatro suítes), num terreno de 5,80 x 36. Eis uma parte da sala (a outra parte, com a escada, tá na foto lá em cima, que abre este post).A casa também fica no Benfica, bem o bairro que quero, mas ainda não descobri aonde. Custa 180 mil. Há uma salinha no andar de cima (daria pra fazer uma cozinha aí, se necessário).A cozinha existente já é grande pra chuchu, e notem que a geladeira nem entrou na foto.Dá pra ver que o quarto é enorme porque tem duas janelas. Mas me ajudem a desvendar um enigma. Olhem bem pra fachada da casa. Tem uma garagem grande, e o que parece ser um portãozinho pra entrar (ao lado do número da casa). Não entendi bem o que é o troço verde, mas zuzo bem.O enigma é esse: um ponto comercial. Que tá na descrição do imóvel, mas não na fachada. Então onde fica isso? Numa lateral? Porque, óbvio, a gente não quer um ponto comercial. Teria que remover essa porta de enrolar abaixo (o maridão diz que a foto foi tirada do lado de dentro do imóvel), fechar a parede, colocar uma janela, talvez. Não sei nem de que lado da casa fica isso. E também, se tem um ponto comercial, não pode querer dizer que a rua é movimentada demais?Bom, entre esses dois imóveis, acho que não preciso nem perguntar qual é o melhor. Mas comparem com os outros que já postei aqui também, se puderem. E se souberem de mais algum, mandem! Domingo que vem tem mais.
O meu atual troll de estimação talvez não seja muito conhecido de vocês porque costumo deletar seus comentários, que geralmente são deixados aqui só pra me insultar. Mas ultimamente Oliveira tem sido um tiquinho mais comedido nos seus ataques pessoais e dito apenas as sandices que ele diz sempre. Como que no nordeste não existem pessoas inteligentes, ou que apenas donos de empresa deveriam poder votar (no início, pensei que ele estava defendendo que só pessoas com alta escolaridade pudesssem votar, mas depois ele avisou que doutores como eu também ficariam de fora do processo eleitoral). Mais que um verdadeiro democrata, Oliveira, com esses princípios, é o tipo de pessoa que a gente quer apertar forte, bem forte, até ele ficar azul com falta de ar. Anteontem, no meu post sobre algumas questões morais referentes ao caso da médica que fez um escândalo no aeroporto de Aracaju, Oliveira deixou o seguinte comentário (não corrigi, tudo sic, que pra poder votar basta ser dono de empresa, não precisa escrever direito):
"Lola: Deixa de ser tonta. As companhias de aviação fazem a gente de gato e sapato. A mulher se descontrolou pela falta de respeito. Quem tem que ouvir é o funcionário que está ali. Ele que vai levar a reclamação até os superiores. Ou você já viu um presidente de empresa aérea na área de embarque?Chamar um sujeito de nego ou gentalha não é ofensa. É uma constatação de mal atendimento que acaba em insulto por descontrole. Quem trabalha, e é profissional entende isso. Esse negócio de racismo por qualquer coisa é uma palhaçada politicamente correta de liberais de cabeça mole e coração mais mole ainda. Aprenda a pensar. Aquela senhora, apesar do exagero que nos choca, está exigindo seus direitos e defendendo você contra corporações sem olhos ou coração para o cliente, porque estão distantes, então é só com o choque com o funcionário e com o escândalo, que eles podem tomar ciência que não estamos cegos a sua cafajestagem. Aquele mulher que se expôs com seu escândalo foi mais esquerda naquela hora, do que todos que silenciamos por não queres passar constrangimento, poderíamos ser por toda uma vida, inclusive você a adoradora do Lula e do PT. Você, ‘FEMINISTA’ está atacando uma mulher que está te defendendo contra uma empresa vagabunda que te trata como cachorro. Eu sei como são estas empresas com seus erros propositais de conexão para te fazer perder o vôo e ter por em outro te causando os maiores prejuízos. Eu vôo toda semana várias vezes.Você com isso passou de esquerda a direita, defensora de corporações, como o todos da esquerda que sobem ao poder. Parabéns!"
Sou eu de volta! Por que publico uma besteira dessas? Porque, tirando os malabarismos finais que Oliveira faz pra dizer que agora eu sou de direita (obrigada por avisar!), seu pensamento é muito comum entre aquela turma do “você sabe com quem está falando?”. Vamos relembrar o caso, que recordar é viver: a médica ia pra sua lua de mel na Argentina e chegou quinze minutos antes do avião decolar, mas com o check in já encerrado. Os funcionários não a deixaram embarcar e e ela deu esse piti, focando sua maior indignação num negro, que ela chamou de morto de fome, analfabeto, e nêgo. É um vídeo difícil de assitir. Como disse a Paola, brasileira que mora na Suécia, são atitudes como a desta médica que a fazem ter vergonha de ser brasileira, mais que a corrupção ou a pobreza. E o vídeo é duro de assistir porque o comportamento que mostra está muito perto da gente. Quem nunca viu uma reação assim de alguém que, contrariado, se ofende, grita, e exige um tratamento diferenciado apenas por se julgar especial? Alguns de nós, infelizmente, deve ter caído nessa armadilha e se comportado de forma parecida, ainda que sem o componente racista. A médica não tinha motivo pra reclamar. Ela chegou atrasada. Há procedimentos de segurança que são iguais para todos. Se ela tivesse se atrasado devido a uma conexão, a empresa aérea lhe daria outro voo. Isso é padrão. Lógico que todos nós ficamos chateados em certas situações, algumas causadas por nós, outras não. Mas não adotamos comportamentos infantis como abrir um berreiro e chorar “eu queeeeeero”, e xingar quem nos diz que querer não é poder. Aprendemos isso quando crianças. Maturidade é saber que o mundo não gira ao nosso redor, é lidar com as frustrações. Mas algumas pessoas de classes sociais mais privilegiadas não entendem isso. Pra elas, o Brasil segue sendo seu playground particular. Alguma dúvida que a médica não agiria daquela forma se tivesse se atrasado num aeroporto da Europa ou dos EUA? Ou se os funcionários fossem loirinhos de olhos azuis? Ela chamaria de morto de fome alguém que ela enxergasse como seu igual? Não: ela, e tantos outros, Oliveira incluso, sabem que estão quase no topo de uma pirâmide social. E que, num país com enormes desigualdades, quem está abaixo deles não está apenas uns degraus abaixo, mas separado por um fosso. É o que possibilita que a classe média (não só daqui, mas de todos os países em desenvolvimento com abismos sociais) tenha empregada doméstica, por exemplo. Nos países ricos isso não existe, porque uma médica não ganha vinte vezes mais que uma empregada. E, sabe? Esse é um dos motivos por que são países ricos. Não porque falam inglês ou tem a pele clarinha. O engraçado é que Oliveira não só justifica o comportamento da médica como ainda acha que eu devo agradecê-la por estar lutando por mim! Sim, destratar um funcionário que está apenas cumprindo seu trabalho certamente vai resolver o mau atendimento das empresas aéreas. Ela fez isso por nós, a altruísta! E a gente que não notou que seu comportamento foi pensado na coletividade! O funcionário deve aceitar tudo quieto, porque está sendo pago pra isso, e sem essas frescuras politicamente corretas de reclamar de racismo. E vejam só, insultar um subalterno e exigir ser tratada com “jeitinho”, como se fosse uma casta à parte, é comportamento típico da esquerda! Eu aprendo muito com meu troll. Quanto a “atacar uma mulher”, não é porque a médica é mulher que não mereça ser criticada, ora! Eu já vi homens e mulheres se comportando desse jeito, à la “você sabe com quem está falando?”. Dá pra se criticar uma mulher sem ser machista. E eu subi ao poder? Iuuupi! Eu nem sabia! Agora vou poder tratar todo mundo como subalterno. Funcionários de aeroporto, me aguardem! Posso também destratar meu troll em nome de um bem comum?
Meu querido e antigo leitor Vitor (eu posso dizer antigo sem ser indelicada, porque ele é novinho), que já está morando em San Francisco, Califórnia, escreveu nos comentários de Salve Geral que ele tem certeza que o filme não será indicado pro Oscar Estrangeiro (é, eu também tenho, lamentavelmente). E que ele espera que, ano que vem, o escolhido pelo comitê brasileiro (que muda a cada ano) seja Do Começo ao Fim(o Thiago já viu o filme em primeira mão e gostou, não amou). Eu continuo com muita vontade de vê-lo. E Besouro também, seus fãs de Besouro (apesar do título. Sei que é sobre capoeira, não sobre o nojento bicho cascudo que é parente próximo daquele inseto inominável. Mas ontem eu vi na TV que tem uma cidade no Paraná infestada por besouros! Eu já sabia, gente! Toda noite pelo menos um besouro entra aqui em casa e fica esbarrando nas coisas e fazendo barulhos assustadores. O maridão pega com um copinho e o põe pra fora enquanto eu me escondo. Ele, ingênuo, crê que é o mesmo besouro que vem aqui todo dia. Eu provei pra ele que não: a gente tem uma tela verde aqui no escri, pra não ter que fechar a janela, e todo dia surgem uns três besouros escalando a tela pra tentar invadir o recinto através da frestinha entre a janela e a tela. E só em um dos dias apareceu uma lagartixa e abocanhou um dos besouros... e engasgou! O besouro era grande demais pra sua estreita garganta lagartixiana. Mas cadê os sapos dessa terra, meu deus? Onde estão os predadores naturais dos besouros? Os passarinhos bem que podiam ser bichos mais noturnos, viu?). Opa, parece que divaguei um pouquinho. Mas então, o único besouro que tá passando aqui na minha cidade é esse da Tela Verde. O outro não vai estrear nunca, infelizmente. Oh deus, divaguei mesmo. Aham, voltando, o Vitor torce por Do Começo ao Fim pra festa do Oscar de 2011, mas eu disse pra ele que esse filme não tem perfil de Oscar. Incesto, homossexualidade... É muito tema polêmico pra uma só Academia conservadora (se bem que o grupo que escolhe os filmes estrangeiros é menos conservador). E tudo indica que ano que vem o escolhido pra representar o Brasil no Oscar será Lula, o Filho do Brasil. Lógico, se o filme for bom. E esse eu já acho que tem perfil de Oscar, porque fala, em parte, de uma infância difícil (Oscar estrangeiro adora criança), além de ser uma história verídica e contar com um personagem internacionalmente conhecido e popular, o nosso presidente. Que já não será mais presidente quando o filme concorrer ao Oscar, em fevereiro de 2011, se concorrer. Eu já vi o trailer uma pá de vezes no cinema, e sempre me emociono. Não é a primeira vez que eu choro em trailer. Chorei em Central do Brasil, mas isso foi vendo o trailer depois de ver o filme. O trailer de Filho do Brasil é bem montado, bonito, feito pra comover. Funciona dependendo do que cada espectador acha do presidente. Os 6% ou 16% de brasileiros que o odeiam e querem vê-lo pelas costas já apelidaram o filme de, óbvio, O Filho da Mãe do Brasil, pra não escrever coisa pior neste espaço familiar. Esse pessoal acha péssimo que não façam um filme sobre FHC, aquele sim um iluminado. Por coincidência, muita dessa gente é a mesma que detesta cinema brasileiro porque cinema não deveria receber financiamento público (aliás, nada deveria receber financiamento público num Estado mínimo, nem educação, nem saúde), e porque cinema brasileiro mostra pobreza, o que prejudica a imagem do país no exterior (mas dizer aos quatro ventos que no Brasil nada presta, como essa gente faz, não prejudica). E sem falar que, eca, fazer um filme sobre um analfabeto, né? Cruzes! (O diretor de teatro Zé Celso escreveu um belo artigo respondendo ao Caetano). E o trailer ainda mostra várias imagens sindicais! Se tem uma coisa que esse pessoal odeia mais que analfabeto, é sindicalista, porque como alguém pode ousar constestar decisões patronais, sempre tão justas? Pra direita, sindicalista é tudo grevista, tudo baderneiro (estou mentindo?). Logo, dois minutos de trailer já têm o poder de levar ao vômito aqueles que chamam petista de petralha, e pede-se, encarecidamente, que essas pessoas se abstenham de ver o longa, porque os ruídos que produziriam poderiam incomodar os demais espectadores. Já eu planejo inundar o cinema enquanto me derreto de orgulho pelo melhor presidente que o Brasil já teve. Nota 4 (em 5) pro trailer. O longa estreia 1o de janeiro, com a direita fazendo algazarra porque haverá exibições a preços populares. Inclusive, bem que podiam fazer um filme chamado Neurose, A Direita do Brasil.
O meu maridão não consegue matar dois caras ao mesmo tempo!
(Putz, escrevi este post faz uma semana, e o momento passou. Mas façam um esforço e participem, por favor!). Num comentário sobre o caso da passageira racista no aeroporto de Aracaju, a Lauren cantou a bola pra um ponto interessante: é enorme a quantidade de gente falando do marido da médica. Ele foi pateta por deixar a situação ir longe demais? (Uma coisa é certa, pra mim: ele decidiu encerrar a confusão depois que sua mulher usou a palavra nêgo. Ele percebeu que ela estava incorrrendo no crime de racismo). Será que ele anulou o casamento, como dizem alguns boatos? E, se não anulou, é porque é tão racista quanto ela? Ou a gente tem pena dele porque ele não sabia que tinha se casado com uma mulher que dá piti racista e elitista? A Lau acha que, hoje em dia, ninguém se casa mais sem saber como é o parceiro(a). Eu tenho minhas dúvidas. Vai que o sujeito nunca tinha visto sua amada numa situação de stress. Vai que eles não passaram muito tempo juntos antes de casar (mais um argumento em favor de morar junto antes de fechar definitivamente o negócio). Vai que ele, e sua família, e seus amigos, quando estão entre eles também falam do presidente como aquele analfabeto nordestino morto de fome que nem tem onde cair morto. Tipo, não é que a gente nunca ouviu esses “argumentos” antes, é? (Vocês não me veem, mas tô aqui piscando um olho pra vocês). Porque pra quem pensa que o Brasil não presta, que é tudo um bando de analfabeto que se vende por uma bolsa-família, destratar um subalterno que supostamente se enquadra nessa categoria é um passinho. Imagino que funcionários de aeroportos lidem com gente com essa atitude de “você sabe com quem está falando?” praticamente todo dia. Deve ser um inferno. Juro que preferiria trabalhar em rodoviária. Mas não era sobre isso que eu queria falar. Bom, uma das questões era essa mesma: é possível se casar com alguém sem a gente saber quem ela é? Ou a gente descobre novidades frequentemente (desculpe, Lau, mas acho que, pra quem é casado, a resposta é óbvia). Tá, mas eu queria falar de perdão. Não de eu ou você ou o funcionário ou a justiça perdoar a médica (ela deve pagar pelo seu comportamento, isso é ponto pacífico), mas do marido. Supondo que ele não pense como ela, ele deve perdoá-la? Se ela se mostrar arrependida e jurar que quer deixar de ser preconceituosa, o marido deve dar uma segunda chance? As pessoas podem mudar? (vocês já sabem a minha opinião pra quase todas essas perguntas, mas eu queria muito saber a de vocês). Vamos imaginar um outro cenário. Vamos supor que o marido anula o casamento. A médica cumpre serviços comunitários pelo seu crime, paga multas pesadas, vai a grupos de discussão pra enfrentar o seu racismo, e quem sabe muda de cidade, onde ninguém mais sabe quem ela é ou o que fez. E aí ela conhece um outro rapaz. Ela está reabilitada, ok? Ela compreendeu que o que fez foi completamente errado e não pensa mais assim. Ela não tem mais nojo ou raiva de pobre. Talvez ela até vote no PT pela primeira vez na vida nas próximas eleições (outra piscadinha). Enfim, passa-se um tempinho, e o novo marido dela não sabe dessa história toda. E aí ele entra num blog de anos atrás por algum motivo e vê que a sua amada já armou um barraco desses. Ele releva isso? Fala com ela sobre o assunto? Finge que não viu? Pede o divórcio no ato? Tenho mais perguntinhas não-retóricas pra vocês: o que serve como um bom motivo pra romper uma relação? A Lau mencionou que termina o namoro se descobre que o carinha é preconceituoso, e eu concordo (pessoalmente, eu também não poderia viver com alguém que não adora gatos e cachorros ou não sinta que a missão deles na Terra seja dominar os humanos). Quais defeitos vocês não podem aturar de jeito nenhum? E o mais importante: esses defeitos sãoretroativos? Por exemplo, a pessoa fez algo muito, muito errado/criminoso/terrível uma vez, e não dá pra esquecer jamais? Na realidade, eu penso nisso desde que vi o excelente filme Marcas da Violência. Lembram? Tá lá um carinha pacato, bom marido, pai de dois filhos, sujeito bacana, lindão, já que é interpretado pelo Viggo Mortensen, e, numa ocasião estressante, em legítima defesa, ele mata―com extrema habilidade―os psicopatas que entraram na sua lanchonete. E aí o pessoal começa a ver que um homem “normal” não seria tão competente na eliminação de adversários. Descobre-se que, vinte anos atrás, antes d'ele conhecer a mulher, ele era um tipo completamente diferente. Fazia parte da máfia. Matava e torturava gente. Isso cria um grande conflito pra esposa dele, evidentemente, que desvenda algo sobre o passado do marido que nem podia imaginar. E mais não conto, vocês terão que ver ou rever o filmaço do Cronenberg. Mas isso me fez pensar: e se o maridão tivesse cometido um crime terrível vinte anos atrás, antes de me conhecer? Ele nunca mais fez nada parecido, mas o seu passado recém-descoberto é assustador. O que vocês fariam? Não em relação ao maridão, deixem de ser bobas, mas aos respectivos. E mais uma questão de ordem moral: faria diferença se ele foi ou não punido? E só pra confundir de vez a cabecinha: e se vocês estão lá, apaixonadonas por um cara, e descobrem que, muitos anos atrás, ele foi dono da Uniban e vice na chapa do Maluf? Aí não tem perdão, tem?