sábado, 19 de abril de 2014

GUEST POST: VÍTIMAS SE COMPORTAM DE FORMA DIFERENTE

A A. me enviou este relato muito interessante sobre o abuso que sofreu. Mais ainda do que isso, é uma reflexão sobre como não existe uma única forma de superar um abuso. Exigir que vítimas sigam um roteiro (mesmo que seja o que nos parece o roteiro certo, como o da denúncia) não deixa de ser uma imposição.

Gosto especialmente da sua coragem em problematizar certos pontos. Nem sempre concordo com você, óbvio, mas sinto uma grande honestidade da sua parte em questionar, às vezes, tendências do próprio feminismo. Você é uma pensadora que se arrisca, e eu me identifico com isso.
É complicado falar disso porque eu não sei se resolvi totalmente essa questão na minha cabeça. Também tem o fato de eu sofrer com isso. Mas vou tentar desenvolver um pensamento o mais racional possível, porque eu sinto que, tendo vivido e sobrevivido a isso, e sendo uma pessoa inclinada à crítica, eu tenho condições de refletir a respeito num nível mais profundo.
Gostaria de ressaltar que não se deve exigir NADA de uma vítima. Se ela deseja a morte de quem lhe causou um mal tão grande, que seja. Se ela deseja cadeia, que seja. Eu sei o que é desejar isso e me sentiria novamente violada se alguém me julgasse por isso. Quem nunca passou por uma situação dessas não faz ideia de quão devastador pode ser um estupro. Já cheguei a imaginar planos para matar meu estuprador, que era ninguém menos que meu irmão mais velho. 
Já me imaginei comprando passagem de avião secretamente e matando-o a facadas em frente ao portão, sem me importar com o que isso causaria a sua esposa e a seu filho. Felizmente ele morreu num acidente antes que uma depressão mais severa me levasse a cometer essa burrada (no meu caso, vejo que seria uma burrada, porque eu não gostaria de definir meu futuro dessa forma; sou muito mais que uma vítima de estupro e não quero habitar esse lugar de eterna vítima).
Uma coisa que eu logo percebi quando comecei a enfrentar o assunto é que vítimas podem se comportar muito diferentemente: umas se tornarão para sempre perturbadas; outras terão de lutar bravamente para manter um equilíbrio possível (eu me vejo assim); outras ainda não acharão que aquilo tenha sido o pior por que passaram (fiquei chocada há um tempo lendo uns relatos de mulheres que diziam não ter ficado tão marcadas assim pelo abuso -- sem dúvida uma perspectiva complicada, mas o que se vai fazer? Duvidar do caráter dessas mulheres?). 
Então não dá para reduzir a vítima a um conjunto fechado de características. Nesse ponto, achei muito interessante o que disse a Natascha Kampusch sobre seu drama. As pessoas queriam que ela se comportasse de determinada forma, que execrasse seu algoz e se fizesse de coitada. E ela sentiu que essa pressão era uma violência perpetrada pela sociedade. Ela se recusou a desconsiderar a complexidade de seu sequestrador, se recusou a vê-lo como um monstro. E disse que considerar um homem como Wolfang Priklopil como um ser desprovido de humanidade é uma forma de a sociedade alimentar sua própria hipocrisia, de ignorar que o mal a permeia em diferentes níveis.
Outro ponto. Eu acho que entendo que um abuso sofrido na infância possa te trazer tanta perturbação que você se sinta impelidx a repetir o abuso, especialmente se você não tiver nenhum suporte psicológico. Sabemos que entre garotos abusados isso é bastante recorrente. Por outro lado, as meninas tendem a ser eternamente abusadas. Não é uma regra, mas é uma tendência. Não sei se isso pode ser explicado por algo que diga respeito ao machismo; fato é que em geral meninos e meninas incorporam a estrutura do abuso de maneiras distintas.
Alguns meninos tendem a alimentar a cadeia se tornando abusadores; meninas tendem a reviver psicologicamente o abuso e a se tornarem repetidamente vítimas (algo como atrair ou permitir abusadores, certamente por sua autoestima destroçada e sua ideia de "merecimento" do abuso).
Atualmente eu não sinto ódio (claro que esse sentimento pode voltar; provavelmente não sinto ódio hoje porque estou num bom momento). Mas eu sinto uma angústia pela lacuna. Não sei o que o levou a fazer isso comigo. Sei que ele se arrependeu (ele me pediu perdão quando eu tinha uns 12 anos; os abusos pararam quando eu tinha 7, mas não sei exatamente quando começaram), e hoje eu acredito nisso, mas não sei como ele veio a se tornar um abusador naquela idade (13 anos, eu acho, mas pode ter começado ainda antes). 
Ele estudou um tempo num colégio interno, e antes disso morou por algum tempo com minha avó, longe da gente. Não sei o que pode ter acontecido com ele ali. E de repente algum adulto, esse sim consciente, pode ter iniciado uma cadeia monstruosa de trauma que eu espero que tenha acabado em mim. Um adulto que causou uma cisão tão grande no meu irmão que o tornou não apenas um agressor sexual, mas uma mente atormentada que não conseguiu se livrar do alcoolismo, do vício em cocaína e do impulso suicida (ele morreu de acidente mas tentou suicídio duas vezes). 
Claro que sofro muito até hoje, eu sinto essa dor diariamente e percebo espectros do trauma em muitos segmentos da minha vida (não apenas sexual). Hoje o que me incomoda é que eu nunca vou saber se isso aconteceu a ele, e, mais ainda, como a hipocrisia é um ponto central para a manutenção do abuso e do sofrimento. Pela hipocrisia talvez o suposto abusador dele seja para sempre considerado um homem bom. Por hipocrisia minha família jamais saberá do ocorrido (exceto se eu decidir falar; não pretendo fazer isso enquanto meu pai estiver vivo, porque não quero que ele sofra), e ele morreu sendo considerado um homem bom. 
ISSO é muito errado. Ele não era um homem bom. Ele pode não ter sido um monstro completo, mas não era um homem bom. Ele causou um mal irreversível na minha vida (espero que apenas na minha). No seu enterro, eu me lembro de ter ficado extremamente confusa. Era minha mãe perdendo um filho. Era alguém da minha família morrendo muito jovem. Era o primeiro cadáver que eu via e tocava. Era alguém por quem eu não sabia se nutria algum lastro de bom sentimento. Era alguém que eu me senti impelida a perdoar ali (sou ateia, mas talvez tenha ficado emocionalmente fragilizada com a situação). 
Era uma vítima revoltada por ver que aquela história jamais seria concluída e que as pessoas jamais saberiam que ali jazia alguém que por pouco não destruiu outra pessoa. Alguém que foi tão longe no mal que foi capaz de machucar uma criança, de ameaçá-la de morte; de dizer a essa criança que ela não tinha ainda como engravidar, portanto aquilo não era um problema; alguém que queria que aquela criança dissesse que estava gostando de ser estuprada.
Mas eu acho que nem sempre o abusador faz aquilo porque se sente no direito. Porque quer destruir a outra pessoa. Meu irmão pode ter sido sexualmente abusado, ou pode ter querido descontar em mim alguma outra frustração (minha família era bem bagunçada na época). Isso é muito horrível, isso ferrou com a minha vida, mas à medida que eu amadureço eu tendo a imaginar as coisas de uma perspectiva mais trágica e menos dual, isto é, sem muita compatibilidade com a estrutura vilão-vítima. Obviamente eu fui vítima e não me sinto em nada responsável ou merecedora do que aconteceu, mas não consigo pensar nele como a encarnação do mal. Na verdade eu tenho extrema pena dele.
Quanto à punição legal: eu acho que, de modo geral, as pessoas devem ser julgadas pela justiça. Mas penso também que nosso sistema penal é ridículo, e que cadeia é lugar pra quem oferece perigo à sociedade. Não sei se ele era um perigo à sociedade. Não sei se a cadeia ajudaria em alguma coisa -– a mim e a ele. Por muito tempo minha maior revolta era ele nunca ter ido preso; depois, como eu disse, minha maior revolta passou a ser o fato de que ninguém nunca tocou no assunto, de que eu tive de continuar convivendo com ele; ele continuou sendo considerado por minha mãe e minha irmã uma pessoa normal (certamente precisasse de tratamento), e eu igualmente não tive nenhum apoio psicológico e tive de construir minhas próprias ferramentas de sobrevivência. 
Não sei até que ponto meu relativo equilíbrio é um castelinho de cartas de baralho prestes a desmoronar. 

sexta-feira, 18 de abril de 2014

PISANDO EM OVOS

Meninos só podem comer o coelho à esquerda

Hoje mesmo a Anna fez uma pergunta muito interessante, e difícil de responder. 

Anna: "Oi Lola, tudo bem? Acompanho o seu blog há mais ou menos um ano e sou feminista graças a você, muito obrigada! Tenho uma pergunta.
Durante a páscoa minha irmã vende ovos e eu ajudo na produção quando tenho tempo. Quando chega a dúvida de que cor por nas embalagens, eu comentava (mais brincando do que querendo gerar uma discussão) 'estereótipo de gênero não tá com nada' e coisas do tipo, até que ela provavelmente se cansou e argumentou que trabalha com pessoas e que não se sabe se a pessoa vai gostar do filho ganhar ovos de embalagem rosa, ou que um papel azul claro não é unissex o suficiente. 
Sei que existem pessoas que não gostam de verde por serem corinthianas (que coincidência, meu pai!), por exemplo, mas fico pensando se a ignorância das pessoas vai a esse ponto, sendo que o cliente não especificou de que cor queria as embalagens. Será que o que importa não é o chocolate? Mesmo com detalhes pequenos as pessoas que ajudam aqui ficam com essa neura, sendo que os produtos são bem feminilizados (segundo o estereótipo), com fitinhas, lacinhos e todas essas coisas.
Excluindo os mascus, será que as pessoas seriam capazes de devolver um ovo rosa que iam dar para um menino ou não comprar mais com a gente por esse motivo? Será que nós não deveríamos dar o exemplo por trabalharmos 'com pessoas' (esse argumento foi bem enfatizado no debate)? Até que ponto vai o estereótipo num assunto como embalagem de ovos?"

Minha resposta: Bom, pra começo de conversa, nem entendo por que as pessoas compram ovos de páscoa, já que são muito, muito mais caros que uma barra de chocolate. Ok, entendo que é uma comemoração, que é uma vez por ano, até que a consistência (e talvez até o gosto) de um ovo de chocolate seja diferente, mas nada que justifique o preço absurdo se se pagar por um chocolate em formato oval com uma embalagem colorida. Como não convivo com crianças, felizmente não preciso me preocupar com ovos de páscoa.
Por outro lado, sei que é uma época do ano em que muita gente aproveita pra fazer algum dinheiro, fabricando ovos caseiros, artesanais. E acho isso ótimo, inclusive porque muitas vezes esses ovos caseiros saem bem mais em conta que os de marca. Acabam sendo uma opção pra muita gente.
Você pergunta sobre a que ponto chega a ignorância das pessoas. Será que elas realmente se incomodam de dar um ovo embalado com papel rosa pra um menino? Desculpe estragar o seu dia, mas creio que a resposta é sim, muitas vão se incomodar. A gente sabe que isso é uma total estupidez, que chocolate não tem gênero, que rosa não faz ninguém "virar gay", mas às vezes não adianta muito saber essas coisas. O mundo que a gente quer é um, o mundo em que a gente vive é bem outro.
Já li e ouvi na academia algumas feministas dizendo que estamos numa época pós-gênero, em que o binarismo (masculino/feminino) não existe mais. Olha, só se for nas esferas que estudam gênero nas universidades, porque na vida real, nunca estivemos tão genderizadas, tão divididxs por gênero. "É menino ou menina?" continua sendo a pergunta mais feita, e a resposta a essa pergunta-clichê (hoje feita cada vez mais cedo, com poucos meses de gestação) continua determinando as expectativas, o tratamento, as oportunidades, que a pessoa terá. A ansiedade em saber o sexo alheio ainda é gigantesca.
Em outras palavras: eu, você, e muitas pessoas com quem temos a sorte de conviver podemos achar o máximo que o Facebook (em inglês) hoje ofereça 50 opções de gênero pra gente se definir, e não mais apenas as duas opções limitadoras e binárias de sempre. E claro que este é um diálogo corrente que eventualmente afetará, e talvez transformará, toda a sociedade (os setores religiosos já estão se mexendo para brecar a "ideologia de gênero"). Mas o que fazer até lá?
Creio que sua irmã pode adotar cores de embalagens "neutras", digamos, que não sejam nem azul nem rosa. Embalagens mais coloridas, com uma grande variedade de cores. Mas também não sei que opções ela tem. Ela ainda é refém dos papéis e embrulho que encontrar no mercado. 
E que bom que ela não comercializa ovos de páscoa com presentes-surpresa dentro deles, ou senão sua dor de cabeça seria maior! Ano passado houve alguns protestos tímidos de feministas se opondo ao Kinder Ovo para meninos e para meninas. De fato, é uma babaquice sem tamanho separar até comida (como salgadinhos) por gênero. 
Brinquedos são pedagógicos sempre, não só quando vêm acompanhados do rótulo "brinquedo pedagógico". Brinquedos ensinam às crianças o seu papel. E como esperar que os homens passem a colaborar com o trabalho doméstico se ensinamos meninos a detestar brincar de casinha, trocar fralda de boneca, fazer comida? Nós feministas temos sim que dar o exemplo e criar filhos e educar crianças para uma vida menos castradora, em que um garoto não tenha que explicar ao seu pai que, ao brincar de boneca, não está virando gay -- está virando pai
Então eu, se tivesse filhos, se comprasse ovos de páscoa, certamente não seria consumidora de Kinder Ovos e afins que perpetuam a segregação de gênero. Mas o que eu faria se fosse a proprietária da Kinder Ovo? Porque o que a marca recebe são reclamações como essa, que li hoje:
"Venho através desta deixar minha indignação a respeito de ovos de páscoa, pois ao comprar um ovo para meninos, meu filho ao abrir teve sua maior decepção, dentro tinha brinquedo para meninas, o mesmo ficou moado o dia todo por causa desse ovo, esperou a semana toda para ganhar o presente e ansioso para ver o brinquedo de dentro e lá estava um estojinho para meninas".
Bom, eu provavelmente colocaria brinquedos que fossem mais neutros, nem estojinho de maquiagem, nem bonecas, nem armas (imagino que isso já não existe?). E também colocaria algum indicativo na embalagem, algo do tipo "brinquedos para todas as crianças". Mas outras marcas que segregam por gênero ganhariam essa parte da clientela que nunca parou pra pensar na vida (ou, pior ainda, que parou, pensou, e decidiu que quer mesmo criar um machistinha ou uma donzelinha).
Uma marca com visão poderia se aproveitar do capitalismo e vender um ovo de páscoa diferenciado, com brinquedos originais e sem gênero, que atraíssem consumidoras feministas, que tal? Afinal, mais de 30% das brasileiras se assumem feministas. Não é pouca coisa. Não é brinquedo não. 
Sua irmã conhece a clientela que tem? Podia ser interessante fazer uma pesquisa para medir sua satisfação e abordar algumas questões de gênero (como isso da embalagem). Claro, pisando em ovos, porque o mundo ideal ainda está muito distante do mundo real. 

quinta-feira, 17 de abril de 2014

GUEST POST: HOMENS "HUMANISTAS" QUE REJEITAM O FEMINISMO NÃO SÃO HUMANISTAS

Meu querido Robson, de Recife, autor do ótimo blog Consciência (agora de layout novo) e do inspirador Veganagente, sempre me envia textos seus que fazem pensar, e que são publicados aqui como guest posts
Desta vez Robson contesta o humanismo de gente que fala aquele velho clichê "Não sou feminista, sou humanista". Você sabe qual é

Muitos homens, ou por desconhecimento sobre o que é realmente o feminismo ou por machismo mal disfarçado, dizem com todo gosto: “Não sou machista nem feminista, sou humanista”, ou “Não apoio o feminismo, mas sim a igualdade”. Alguns fatos mostram, porém, que esse tipo de homem pode ser qualquer coisa, menos humanista e pró-igualitarista (considere-se “igualitarismo” e “igualdade” aqui como referente aos direitos de pessoas de todos os gêneros e identidades de gênero, às garantias de que esses direitos serão verdadeiramente respeitados, e ao tratamento social).
Quando se rejeita apoiar o feminismo -– considerando-se que existe uma enorme polêmica sobre se homens podem ser propriamente feministas ou simplesmente aliados do feminismo -–, está-se rejeitando uma luta contra a opressão, pelos direitos humanos, pela derrubada de um sistema de hierarquização moral de seres humanos. Por isso, recusar apoio à causa feminista é rejeitar a dignidade de aproximadamente metade da população humana do mundo. E isso não pode ser visto como humanismo e pró-igualdade.
Não é nada humanista tentar minimizar ou silenciar a luta das mulheres contra o patriarcado, o qual é um sistema de valores e costumes que justamente impede que os seres humanos de todos os gêneros sejam tratados com a mesma dignidade. Rejeitar uma luta cujo objetivo é abolir uma tradição multimilenar que considera mulheres inferiores aos homens é tudo menos igualitário.
Da mesma forma, nenhuma pessoa realmente humanista vai tentar negar e desconsiderar a luta dos negros contra o racismo estrutural e cultural, seja ele velado ou explícito; nem irá rebaixar mentalmente à irrelevância a luta do movimento LGBT contra as tantas discriminações e rompantes de ódio heterossexistas (homo, lesbo e bifobia e intolerância contra assexuais) e transfóbicas a que seus integrantes são cotidianamente submetidos.
Nem está de acordo com os princípios da ética do humanismo secular equiparar o feminismo, um movimento antiopressão e pró-libertação, com o machismo, uma ideologia de opressão e dominação. Achar que o feminismo é “anti-homem” tal como o machismo é antimulher é tão ilógico e distorcido quanto acreditar que o movimento negro luta para que os negros passem a ser os opressores dos brancos, e ambas as crenças não só revelam que seus acreditadores não são nada humanistas, como também escancaram que eles sequer sabem o que é o humanismo e em que consiste sua ética.
Dizer “Não sou feminista, sou humanista”, mesmo sem a crença de que o feminismo é “anti-homem”, é algo que muitos reacionários costumam fazer na tentativa de negarem portar privilégios em função da combinação de categorias de raça, (identidade de) gênero, classe social, religião, orientação sexual etc a que pertencem. Essas pessoas, em especial homens cis [que sempre se identificaram e foram identificados como homens], tentam ignorar a existência de todo um sistema integrado de hierarquização moral, opressão e discriminação, e acreditam ingenuamente que todos os seres humanos já são hoje tratados com igualdade e sem a interferência de preconceitos e intolerâncias. 
Nessa imaginação, as violências sofridas, por exemplo, por mulheres negras, pobres e lésbicas seriam as mesmas que aquelas a que homens brancos heterossexuais de classe média estão sujeitos.
Em outras palavras, essa frase se assemelha muito ao ditado reacionário “Não precisamos de consciência negra, e sim de consciência humana”. Silencia da mesma maneira o sofrimento e as demandas das tantas minorias existentes por libertação. Portanto, quem é adepto dessa crença de que é possível ser “humanista” sem apoiar o feminismo está, nada mais, do que dando carta branca para a ocultação e perpetuação do patriarcado e de suas tantas opressões, e isso não é nada humanista e pró-igualdade.
Do Think Olga
Quem nega apoio às causas libertárias das minorias políticas, como o feminismo, está sendo não humanista, e sim anti-humanista. Está em oposição diametral aos propósitos do humanismo, que é apoiar as lutas de todos os seres humanos oprimidos pela sua libertação coletiva do multissistema de opressões que os inferioriza perante as categorias dominantes e, como consequência, por uma sociedade em que não haja mais desigualdades em função das características que hoje “justificam” a hierarquização moral das pessoas.
Feminismo ensina meninas a
serem alguém ao invés de serem
de alguém
Portanto, todo homem humanista precisa apoiar o feminismo e as demais causas libertárias das minorias políticas. Caso contrário, ao continuar com frases paradoxais como “Não apoio o feminismo, mas sim o humanismo”, está jogando fora qualquer apoio às verdadeiras causas e objetivos humanistas e, assim, se comportando não como um entusiasta ou militante do humanismo secular, mas sim como um reacionário que acha ruim que estejam tentando transformar seus privilégios em direitos universais.

quarta-feira, 16 de abril de 2014

COMO O FEMINISMO SE TORNOU SERVENTE DO CAPITALISMO, E COMO RETOMÁ-LO

Já faz um tempinho, me deparei com este artigo de Nancy Fraser no The Guardian, que começa dizendo: "um movimento que começou como uma crítica à exploração capitalista acabou contribuindo com ideias-chaves para sua fase neoliberal mais recente". 
Apesar do texto ser meio complicado, acho que ele traz críticas pertinentes, e pedi pro meu querido Flavio Moreira traduzi-lo. Muito obrigada mais uma vez, Flavio!

Como feminista, sempre considerei que ao lutar pela emancipação das mulheres eu estaria construindo um mundo melhor -– mais igualitário, justo e livre. Recentemente, porém, comecei a me preocupar com o fato de que os ideais pioneiros das feministas estivessem servindo a propósitos bem diferentes. Preocupa-me, especificamente, que nossa crítica ao sexismo esteja agora fornecendo a justificativa para novas formas de desigualdade e exploração.
Em uma cruel guinada do destino, temo que o movimento pela libertação das mulheres tenha se imiscuído em uma perigosa ligação com os esforços neoliberais para a construção de uma sociedade de livre mercado. Isso explicaria como aconteceu de as ideias feministas, que outrora faziam parte de uma visão de mundo radical, estejam cada vez mais sendo expressas em termos individualistas. 
Onde antes o feminismo criticava uma sociedade que promovia o carreirismo, hoje ele aconselha mulheres a "fazer acontecer" [referência ao livro da bilionária Sheryl Sandberg]. Um movimento que antes priorizava a solidariedade social agora celebra as mulheres empreendedoras. Uma perspectiva que antes valorizava o “cuidado” e a interdependência agora encoraja o avanço individual e a meritocracia.
O que está por trás dessa virada é uma gigantesca mudança na natureza do capitalismo. O capitalismo administrado pelo estado do pós-guerra deu passagem a uma nova forma de capitalismo -– “desorganizado”, globalizante, neoliberal. A segunda onda do feminismo surgiu como uma crítica do primeiro, mas tornou-se subserviente ao segundo.
Com o benefício de uma visão retrospectiva, podemos agora ver que o movimento para a libertação das mulheres apontou simultaneamente para duas possibilidades de futuro. Num primeiro cenário, prefigurava um mundo em que a emancipação de gênero caminhava lado a lado com a democracia participativa e a solidariedade social; num segundo cenário, prometia uma nova forma de liberalismo, capaz de dar às mulheres, tanto quanto aos homens, os benefícios da autonomia individual, aumento das escolhas, e avanço pela meritocracia. 
A segunda onda do feminismo, nesse sentido, foi ambivalente. Compatível com qualquer das duas diferentes visões de sociedade, estava suscetível a duas elaborações históricas distintas.
Da forma como vejo, a ambiguidade do feminismo se resolveu nos últimos anos em favor do segundo cenário, liberal-individualista –- mas não porque fôssemos vítimas passivas das seduções neoliberais. Ao contrário, nós mesmas contribuímos com três ideias importantes para esse desenvolvimento.
Uma das contribuições foi nossa crítica à “renda familiar”: o ideal da família composta por um homem-provedor de uma mulher dona-de-casa estava no centro do capitalismo de estado. A crítica feminista a esse ideal agora serve para legitimar um “capitalismo flexível”. Afinal, essa forma de capitalismo sustenta-se fortemente no trabalho remunerado da mulher, especialmente o trabalho de baixa remuneração nas áreas de prestação de serviços e de manufatura, desempenhado não só por jovens mulheres solteiras, mas também por mulheres casadas e mulheres com filhos; não somente por mulheres de uma só raça, mas por mulheres de, virtualmente, todas as nacionalidades e etnias. 
À medida que as mulheres entram em massa nos mercados de trabalho em todo o mundo, o ideal de renda familiar do capitalismo de estado está sendo substituído por uma norma mais nova, mais moderna -– aparentemente sancionada pelo feminismo -– da família de renda dupla.
Não importa que a realidade que subjaz a esse novo ideal seja níveis de renda comprimidos, diminuição da estabilidade de emprego, redução dos padrões de vida, um aumento drástico no número de horas extras, intensificação da dupla jornada –- agora, frequentemente turnos triplos ou quádruplos -– e aumento da pobreza, cada vez mais concentrada em famílias em que a mulher é a chefe-de-família. 
O neoliberalismo tenta dourar a pílula ao elaborar uma narrativa de empoderamento feminino. Ao invocar a crítica feminista da renda familiar para justificar a exploração, ele atrela o sonho de emancipação feminina ao motor da acumulação de capital.
O feminismo também deu uma segunda contribuição ao ethos neoliberal. Na era do capitalismo de estado, criticávamos, com todo o direito, uma visão política constrita que focava tão intensamente a desigualdade de classe que não conseguia enxergar injustiças “não-econômicas” tais como violência doméstica, agressão sexual, e opressão reprodutiva. Ao rejeitar o “economismo” e politizar o “pessoal”, as feministas ampliaram a agenda política para contestar as hierarquias de status cujas premissas se baseavam em construções culturais de diferença de gênero. 
O resultado deveria ter sido uma expansão da luta por uma justiça que incluísse tanto a cultura quanto a economia. Mas o resultado real foi o foco unilateral na “identidade de gênero” à custa das questões cotidianas. Pior ainda, a virada do feminismo em direção às políticas identitárias harmonizou-se impecavelmente com um crescente neoliberalismo que queria nada mais do que reprimir qualquer memória de igualdade social. De fato, nós tornamos absoluta a crítica do sexismo cultural no momento exato em que as circunstâncias requeriam atenção redobrada para a crítica da economia política.
Por fim, o feminismo contribuiu com uma terceira ideia para o neoliberalismo: a crítica ao paternalismo do estado de bem estar social. Inegavelmente progressista na era do capitalismo de estado, essa crítica tem, desde então, convergido para a guerra do neoliberalismo contra o “estado-babá” e, mais recentemente, em sua cínica adoção das ONGs. Um exemplo notável é o “microcrédito”, o programa de pequenos empréstimos para mulheres pobres no sul do planeta. 
Lançado como alternativa empoderadora, de baixo para cima, em oposição aos burocráticos projetos estatais, impostos de cima para baixo, o microcrédito é apregoado como sendo o antídoto feminista para a submissão e pobreza das mulheres. 
O que não se percebe, entretanto, é uma coincidência perturbadora: o microcrédito floresceu no exato momento em que os estados abandonaram os esforços macroestruturais de combate à pobreza, esforços que os empréstimos de pequena escala não têm condições de substituir. Nesse caso também, então, uma ideia feminista foi recuperada pelo neoliberalismo. Uma perspectiva destinada, originalmente, à democratização do poder estatal de forma a empoderar cidadãos agora é usada para legitimar a mercantilização e a retração do estado.
Em todos esses casos, a ambiguidade do feminismo se resolveu em favor do individualismo (neo)liberal. Entretanto o outro cenário, mais solidário, ainda pode estar vivo. A crise atual oferece a oportunidade de recuperar essa linha mais uma vez, reconectando o sonho da libertação da mulher à visão de sociedade solidária. Para isso, xs feministas precisam interromper essa perigosa ligação com o neoliberalismo e resgatar nossas três “contribuições” para nossas próprias finalidades.
Primeiro, podemos romper a ligação espúria entre nossa crítica da renda familiar e o capitalismo flexível, e militar por uma forma de vida que descentralize o trabalho assalariado e que valorize as atividades sub-remuneradas, incluindo -– mas sem se limitar ao –- "trabalho cuidador". Segundo, podemos interromper a passagem de nossa crítica ao “economismo” para as políticas identitárias, e integrar a luta para transformar a ordem presa às premissas dos valores culturais machistas com a luta por justiça econômica. 
Por fim, precisamos cortar a falsa ligação entre nossa crítica da burocracia e o fundamentalismo de livre mercado, e reclamar para nós o manto da democracia participativa como forma de fortalecer os poderes públicos para conter o capital, pelo bem da justiça.