sábado, 1 de agosto de 2015

GUEST POST: HOMENS, NÃO QUEIRAM SER VISTOS COMO RIDÍCULOS

Até a Mulher Maravilha faz facepalm

Andreia Tairon tem 32 anos, é artista plástica, professora de história e escritora nas horas vagas. É feminista desde que se lembra -- ainda criança percebeu a diferença de tratamento entre ela e o irmão. 
O que a levou a escrever foi esta imagem ridícula que ela recebeu pelo whatsapp.

Um dia uma escritora (não lembro exatamente, acho que Caitlin Moran) disse que ser mulher e não ser feminista era uma contradição. Concordo plenamente com esta afirmação, mas quero chamar a atenção de vocês, homens.
Feminismo não é uma luta contra vocês, de maneira alguma. Feminismo é a luta pela igualdade dos gêneros. E vocês, que também podem ser feministas mesmo sendo homens (sim, vocês podem e são super bem vindos), deveriam mesmo se engajar na causa, uma vez que o machismo não traz coisas boas nem pra vocês. 
Vocês não têm direito de chorar, têm que demonstrar virilidade e provar sua masculinidade o tempo todo, têm que ser o provedor dos recursos familiares (se ganhar menos que a companheira, putz, lá se foi a autoestima), o número de dias de licença paternidade pra vocês é uma piada. E vocês ainda são tratados como animais em situações como vagões separados para mulheres (como se todos os homens fossem animais que não tivessem controle sobre seus instintos! Se eu fosse homem me sentiria ofendido com tal coisa).
Hoje na sala de espera do médico estive lendo um artigo de um psicanalista que afirmava que as mães veem os filhos como tolos e incapazes, enquanto veem as filhas como espertas, por isso fazem mais pelos meninos. É um círculo vicioso, pois quando o homem sai de casa quer que a esposa seja também sua mãe.
O machismo é ruim em todas as suas formas, e atinge a todos, homens e mulheres, então não vamos perpetuar estereótipos e nem rir de piadas machistas. A imagem do "tanque de bunda" não é ofensiva apenas para as mulheres, mas também para vocês. Vocês é que estão sendo vistos como incapazes de lavar roupa, por exemplo. Vocês podem rir por hábito, mas depois que o sorriso se for, vejam friamente como vocês são vistos (por vocês mesmos!): como animais de puro instinto, que "só pensam com a cabeça de baixo".
Pensem nisso, pensem com carinho (homem pode pensar com carinho, te disseram que não, mas ninguém pode ver o que você está pensando e não vão te julgar).
Peço a gentileza da reflexão.

sexta-feira, 31 de julho de 2015

GUEST POST: ASSÉDIO NA RESIDÊNCIA MÉDICA

Relato da L.:

Oi Lola, acompanho seu blog há bastante tempo e devo dizer que ele mudou a minha forma de pensar sobre a vida. Me fez entender melhor o machismo, como ele influenciou a minha formação e como, apesar de tudo, eu sou uma pessoa muito privilegiada. 
Resolvi escrever esse guest post sobre uma situação que vivi há uns 4 anos, que infelizmente é muito comum. Confesso que hoje os acontecimentos não me afetam tanto, e ter feito terapia ajudou nesse processo, mas por muito tempo foi algo bem doloroso. Gostaria de compartilhar minha experiência para tentar ajudar outras mulheres que estejam passando por isso, mostrar que é algo comum e que é possível reagir.
Antes, uma pequena apresentação necessária para o entendimento dos fatos. Estou usando o meu email real, então, caso resolva publicar meu relato, peço que não me identifique. Quanto aos outros personagens da minha história, usarei nomes fictícios. 
Nefrologia: ramo da urologia que se
dedica ao estudo da fisiologia e das
doenças dos rins
Sou médica, formada em uma renomada faculdade federal. Fiz residência médica (especialização) em pediatria em outra faculdade de renome. No último ano da residência temos um mês de opcional, que nada mais é do que um mês em que podemos escolher em qual setor ficar. Como pretendia fazer uma subespecialização em nefrologia na faculdade que me formei, entrei em contato com um antigo professor, o Carlos, solicitando passar o mês lá. Esse professor sempre teve uma má fama na faculdade, de ser grosseiro, machista e dar em cima das alunas. Mas não me importava com tais comentários, pois ele sempre me tratou bem. 
Esse mês que passei lá foi ótimo. Fui bem acolhida por toda equipe, inclusive pelos atuais residentes. Porém, ouvia diversas reclamações dos residentes de lá sobre o Carlos, que os tratava de maneira grosseira o tempo todo. Já comigo, o Carlos sempre foi simpático, elogiava sempre o meu desempenho, dizia que eu era uma médica promissora. Ao final do mês recebi nota máxima na avaliação, com muitos elogios. Terminei o mês disposta a retornar ao hospital para fazer minha sonhada especialização em nefrologia pediátrica.
Prestei então concurso para três grandes serviços de especialização e passei para todos, inclusive o chefiado pelo Carlos. E foi lá que escolhi ficar, por ser no hospital que me formei, por ter sido bem acolhida, mesmo tendo ouvido de diversos médicos mais velhos que deveria escolher outro serviço.
Cheguei no primeiro dia da nova residência feliz, finalmente iria estudar o que sempre sonhei. E recebi a primeira bomba. No primeiro encontro com Carlos, onde ele nos explicaria sobre o funcionamento do serviço, ouvi a seguinte frase:
- Você só está aqui porque eu quis. Eu aumentei a sua nota na prova prática, senão você não passaria.
Fiquei desconcertada, não soube o que responder. Como já disse, eu sempre fui muito estudiosa, sempre passei para concursos por mérito. Nunca pedi ou insinuei a ele que me desse qualquer tipo de ajuda. E a prova disso é que havia passado para dois outros ótimos hospitais onde ninguém me conhecia. Hoje sei que essa frase já tinha como objetivo me deixar submissa, mostrar o poder dele. 
Éramos quatro médicos residentes no total, eu, a Joana, que havia entrado comigo, e mais dois do ano anterior (a residência tem duração total de dois anos). Inicialmente fiz amizade com a Joana, trabalhávamos bem juntas. E não ouvi mais nenhum comentário daquele nível do Carlos. Pelo contrário, recebia diversos elogios, sempre voltados ao meu desempenho como médica. Cheguei a acreditar que o Carlos não era uma pessoa tão ruim como pintado por todos ao meu redor (santa inocência). Com o passar do tempo, eu, Carlos e Joana criamos uma amizade. Viajamos juntos para congressos, discutíamos casos, mas tudo de maneira profissional. 
Com o tempo, os "elogios" do Carlos para mim e para Joana evoluiriam. Ele fez um convite para que fizéssemos diversos trabalhos ao fim da residência juntos, para atendermos juntos em seu consultório. Sabe, Lola, os últimos anos de residência em medicina são de muita ansiedade. Estava louca para exercer minha especialidade, as oportunidade são poucas. Convites desse tipo de um professor conhecido são vistos como uma grande oportunidade de crescer no início da carreira. 
Mas a partir daí as coisas mudaram. Carlos passou a nos convidar para almoçar com ele, para ir em sua casa tomar champanhe, passou a elogiar nossa beleza e forma física... E por último veio nos anunciar que havia terminado o seu relacionamento (na época ele namorava uma ex-aluna).
Percebi que o interesse dele na gente era puramente sexual. Me culpava por ter sido tão inocente. As evidências eram enormes! Não queria nada com ele, estava noiva, ia casar. Já a Joana, solteira, demonstrou interesse nele. Logo, Carlos e Joana começaram a namorar. 
Nesse meio tempo tive uma briga com a Joana (por motivos alheios à residência médica) e nos afastamos um pouco. O primeiro ano terminou, entraram mais dois novos residentes, e meu inferno começou. Carlos passou a me agredir verbalmente, criticar meu trabalho, ao mesmo tempo que passava a mão na cabeça da Joana. Levava ela para almoçar no nosso horário de trabalho, enquanto eu atendia as crianças. Deu a ela diversas regalias que sempre foram negadas aos residentes (como um dia de folga na semana, um armário para guardar os pertences). Quando havia algum procedimento interessante a ser feito alegava sempre que era a vez da Joana. Nos procedimentos mais chatos, era sempre a minha vez de fazer. Emendava feriados para viajar com a Joana (enquanto os outros residentes trabalhavam). 
Fazia reuniões de serviço com os residentes onde exaltava todas as qualidades da Joana e criticava todos os defeitos meus e dos outros residentes. Chegava a ser caricato. O clima foi ficando insuportável. Os outros professores estavam cientes da situação, achavam um absurdo tudo isso, mas ao mesmo tempo não queriam enfrentá-lo, pois ele era o chefe do serviço.
Perdi toda a vontade de estudar. Ia ao hospital obrigada. Minha autoestima ficou no pé. Achava que aquilo era o fim da minha carreira, que eu era um fracasso, que era tudo culpa minha. Chorava constantemente em casa. Até que o ano acabou. Na minha última semana ainda ouvi mais ofensas dele, dizia que eu era uma pessoa manipuladora, que não tinha compromisso. Me proibiu de frequentar o serviço, falou que nunca mais ia aceitar a minha presença em nenhum local que ele trabalhasse. Uma outra residente, que iria para o segundo ano, não aguentou a pressão. Fez prova novamente e foi para outro hospital. Pra você ver como a situação era crítica. Ela preferiu jogar um ano de estudos fora, recomeçar do zero, a ter que passar mais um ano aturando as ofensas do Carlos.
Fui convidada por um outro professor do hospital para fazer mestrado. Aceitei, pois sempre sonhei em ser professora. Mas já nas primeiras reuniões ele me falou para darmos preferência a marcar reuniões fora do hospital. Não queria que Carlos me visse com ele, para não dar problema. Me senti muito mal. Não era justo que eu mais uma vez fosse prejudicada quando o Carlos era o agressor!  
Decidi então romper todos os vínculos. Larguei o mestrado, passei a procurar locais para trabalhar de forma independente. No início foi muito difícil. Não conseguia nenhuma oportunidade, achava que o Carlos estava certo e eu era realmente incapaz. Ou que ele realmente tivesse conseguido acabar com a minha imagem. Mas com o tempo tudo foi ficando melhor. 
Oportunidades foram aparecendo. Passei em um concurso para médico de um grande hospital universitário, montei meu consultório, fiz diversos contatos profissionais. Apesar de não ter feito mestrado nem virado professora, tenho muito contato com alunos, posso passar a eles minha experiência e isso me faz bem.
Hoje estou crescendo na carreira, tenho uma boa relação com todos os colegas que me cercam. Não tenho mais nenhum contato com o Carlos e a Joana. Hoje levo o que aconteceu como uma experiência sobre o que eu NÃO quero ser no futuro. Sobre como não agir caso um dia eu chegue a ser chefe de serviço. Aprendi a acreditar em mim mesma, e que ninguém, por mais poderoso que seja, pode mudar o meu futuro. E o principal, aprendi a ser menos inocente. Sei que é errado julgar alguém baseado nas opiniões de terceiros, mas quando todos falam algo sobre uma pessoa, vale a pena ficar com o pezinho atrás. Alguém que lhe trata bem quando maltrata todos ao seu redor sempre terá um interesse oculto por trás disso, que pode lhe fazer bem ou não.

quinta-feira, 30 de julho de 2015

E CHEGOU O DIA DA CAÇA

Poucas coisas na vida me dão tanta raiva quanto gente que caça por prazer. 
Só fiquei sabendo ontem do caso do dentista de Minneapolis Walter Palmer, que gastou 55 mil dólares para ir ao Zimbabwe matar um leão. Não foi a primeira vez que Palmer caçava. 
Ele já havia matado pelo menos 43 animais grandes, entre leopardos, ursos, rinocerontes, elefantes, antílopes. Aprendeu a atirar quando tinha 5 anos, coisa de americano e seu fetiche por armas. Palmer costumava caçar com arco e flecha, daqueles high-tech que a gente vê no cinema.
O azar de Palmer foi que desta vez ele matou um bicho com nome e coleira de proteção, o leão Cecil, de 13 anos. Cecil vivia no Parque Nacional Hwange e era monitorado à distância por cientistas da Universidade de Oxford. Para tirá-do do parque, Palmer e sua equipe de caçadores contratados atraíram Cecil com uma carcaça puxada por um carro. Então o cegaram com luzes, para que Palmer pudesse acertá-lo com uma flecha. 
Mas isso não matou Cecil, que, mesmo ferido, sofreu durante 40 horas antes de ser encontrado pela equipe e, aí sim, morto com um tiro, decapitado, e roubado de sua pele. Sua carcaça foi abandonada na selva. Sua cabeça foi decorar a parede da casa de Palmer. É o que leva o nome, em inglês, de trophy hunting. Caça pra gerar troféus. Pra adornar lareiras. Não é caça pra comer ou pra defender alguém. É pelo ego. É um esporte cometido por homens muito ricos para mostrar que podem tudo. Porque são ricos. Porque são homens.
Essa ligação entre masculinidade e matar por esporte é tão forte que fez o apresentador de TV Jimmy Kimmel perguntar indignado em seu monólogo: "É tão difícil assim pra você conseguir uma ereção que você precisa matar coisas?"
Palmer é hoje a pessoa mais odiada da internet. A frente de seu consultório foi coberta com bichinhos de pelúcia e cartazes de "Covarde" e "Assassino" -- obra de ativistas em defesa dos animais, que não vão deixar barato. Ele não aparece há dias, mas lançou uma nota alegando se arrepender de ter "taken" (pegado? Ele não usa a palavra matado) Cecil, e culpa a equipe que contratou por não ter lhe avisado que estariam "pegando" um leão protegido. 
Essa desculpa, pra mim, parece a daqueles playboys cariocas que espancaram uma empregada doméstica na rua de madrugada, enquanto ela esperava o ônibus. Quando presos, eles justificaram: pensaram que era uma prostituta. Porque bater numa prostituta, tudo bem. Matar um leão qualquer, estaria tudo certo. 
"Então, quando você vai parar de se fazer de vítima e se desculpar para aquele pobre dentista cuja vida você arruinou?"
Schwarzza entra na briga (mas
ainda insiste numa masculini-
dade machista)
Palmer já teve alguns problemas com a lei (a lei americana, óbvio. Não parece que ele vai ter problemas com as leis de uma ex-colônia africana). Em 2003, o dentista foi multado por pescar em lugar proibido. Em 2008, por violar uma licença e matar um urso em Wisconsin. Teve que pagar multa de 3 mil dólares, que deve ser equivalente ao que ele cobra pra fazer um tratamento de canal. E, pra coroar seu comportamento predatório, em 2009 foi acusado de assediar sexualmente uma recepcionista, que era também sua paciente. Isso lhe custou um pouco mais que a multa por matar um urso: pagou US$ 127,500 para a moça.
Última foto de Cecil
Assim que li a notícia sobre a caçada de Palmer, me lembrei de outro caçador -- Olavo de Carvalho, guru da extrema direita brazuca. 
Olavo posa ao lado do filhote de urso
que assassinou por lazer
Olavão, que mora nos EUA, ano passado comemorou a chegada da sua licença de caça. "Pau no c* dos ursos", prometeu ele, com seu típico linguajar dercy-gonçalvesiano. Segundo Robson, autor do Veganagente, os seguidores reaças de Olavão aproveitaram a deixa para atacar defensores dos animais, sempre ligados à esquerda.
Na época, Olavão não parou com suas provocações. Afirmou, "fora de brincadeira", que sua mente só seria destravada após "matar uns bichos".

E, de quebra, posou para uma foto com o padre reacinha Paulo Ricardo (aquele que faz vídeo afirmando que mulheres não devem usar calça ou trabalhar fora, e que o maior inimigo das mulheres é... o feminismo):
Agora, com a celeuma toda em torno de Cecil, Olavão teve de se manifestar. A favor do caçador covarde, é lógico.

Mas nisso de falar da Disney o astrólogo até que tem razão. 
Um estudioso de Cambridge jura que a consciência ecológica de toda uma geração começou com Bambi. A criançada, ao ver a terrível cena da mãe de Bambi sendo assassinada por caçadores bem no início do filme da Disney, se comoveu. 
Espero que essa consciência aconteça de novo agora, e que a morte de Cecil não seja em vão (assine a petição). 
Vamos proibir a caça recreativa para sempre, em todos os lugares, inclusive em propriedades particulares. Vamos mostrar o que pensamos de homens que precisam provar que são homens atirando contra animais indefesos em seu habitat natural. Vamos desconstruir essa ideia danosa de que pra ser homem é preciso destruir. 
Pro resto da humanidade, caçadores não passam de uns covardes.
Para quem acha que caçar regula o meio ambiente 

quarta-feira, 29 de julho de 2015

"NÃO QUERO ME SEPARAR, MAS NÃO SUPORTO O MACHISMO DO MEU MARIDO"

A C. me enviou este relato:

Desculpe-me pela intimidade, mas te acompanho há tanto tempo que sinto que você é minha amiga. Te escrevo pra pedir um conselho sobre algo que vem me incomodando no meu casamento. 
Meu pai amado segura uma
Lola bebê
Antes de começar minha história gostaria de falar um pouco sobre como cresci, só pra contextualizar: meu pai, assim como o seu, é o melhor pai do mundo, um homem sábio, devotado, ótimo marido. E veja bem, meu pai é militar, e foi militar na época da ditadura, mas ainda assim pense numa pessoa sem preconceitos e a favor da liberdade pessoal de cada um, incluindo aí suas filhas e seu filho. Dito isso, me casei muito cedo, tive uma linda filha, esse relacionamento não deu certo, e há quatro anos me casei novamente.
E é aí onde começa o meu dilema. Meu marido também e militar e, até onde eu achava, uma pessoa sem preconceitos. Porém, Lola, acho que me enganei. Quando vieram a público os casos de estupro nas faculdades de São Paulo, assistindo ao jornal começamos o debates sobre a questão da falta de apoio às vítimas e a falta de punição dos culpados. Teria sido um debate normal, se não fosse a seguinte frase: se fosse minha filha, eu diria para ela não ir a esse tipo de festa, pois é isso que vai se encontrar lá. 
Ora, eu estudo em uma universidade federal, e perguntei: e se fosse eu? E a resposta foi que eu não bebo e não ando de roupa curta, então a probabilidade de isso acontecer comigo era quase zero. E se mesmo assim eu for estuprada, a culpa vai ser minha? Ou eu estou previamente desculpada, por não fazer nada de "errado"? E se for minha filha, a culpa vai ser dela? As mulheres não têm direito de se divertir, sem estar o tempo todo acompanhada de alguém que zele por sua vida? Quer dizer que só porque as mulheres bebem e usam roupa curta elas merecem ser estupradas? 
A resposta pra última pergunta foi que merecer não merecem, mas estavam procurando problema, então que arquem com as consequências.
A questão, Lola, é que passei a notar diversas outras atitudes no meu marido, que antes para mim eram absolutamente normais, como claros sinais de machismo violento, por exemplo: nós moramos durante um tempo em outro estado, e nesse tempo eu fiquei sem trabalhar. É óbvio que o trabalho da casa ficava todo pra mim, afinal eu estava em casa, não me custava fazer o trabalho. Entretanto, depois que nós voltamos, e eu voltei a trabalhar e estudar, todas as tarefas continuaram sendo minhas, sendo que eu passo muito mais tempo fora de casa. 
Não é só nesse âmbito. Por exemplo: eu não consigo encerrar uma discussão, a palavra final é sempre dele. Eu acabava deixando pra lá, só pra não ficar naqueles loopings de discussões que não acabam nunca, até que, depois desse episódio das estudantes, passei a sustentar minha opinião, e adivinhe só? Ouvi que estava falando demais, e que aquele assunto (seja ele qual for) não me compete, não sou especialista e a minha opinião não vale de nada.
Lola, antes de conhecer seu blog, eu já me considerava uma pessoa a favor da liberdade das pessoas. Eu não gosto de roupa curta, mas quem gostar que use, eu não julgo ninguém por isso. Eu também não bebo, mas quem quiser beber, beba, eu simplesmente não tenho nada a ver com a vida alheia. Mas agora sei que sou feminista, e sempre fui. Eu luto por igualdade, e isso nada mais é do que feminismo.
A minha questão, Lola, é que tenho medo de não ter enxergado esse lado antes e fico me perguntando se sempre foi assim, e eu é que nunca reparei. Tenho pensado muito nisso e até já cogitei me separar, por que machismo comigo não dá, mas amo meu marido e acho que todos merecem aprender e ter segundas chances. Já tentei colocar essas questões e não obtive sucesso. O que te peço é uma luz, uma maneira de lidar com isso sem precisar de extremos, algo que eu possa fazer para tentar mostrar o erro nessas atitudes com as quais estou sendo obrigada a conviver.

Minha resposta: C., querida, obrigada pelo carinho e pela lucidez. Você identificou vários problemas no seu relacionamento que antes passavam batidos, e hoje te aborrecem. E você está tentando resolvê-los.
Ridícula essa imagem? Mas a gente
aceita o inverso sem pestanejar
Concordo totalmente contigo que todos merecem ter a oportunidade de aprender. Seu marido recebeu a educação machista padrão que tantxs de nós recebem (e dão): acreditar que o homem deve ter a última palavra, achar que tarefas domésticas são dever da mulher, crer que, no fundo, alguma coisa uma mulher aprontou pra ser estuprada. Seu marido não é exceção. Infelizmente, esses valores e opiniões ainda são a regra na sociedade machista e patriarcal em que vivemos. 
Claro que, mesmo dentro de uma sociedade machista, a gente pode fazer o melhor possível para se cercar de gente tolerante e inteligente. Casar com um machista realmente complica a vida pessoal de uma mulher. 
Eu e Silvinho em junho
Acho que já disse algumas vezes que Silvinho, vulgo maridão, é a pessoa mais sem preconceitos que já conheci. Sem dúvida essa parte de sua personalidade foi algo que muito me atraiu nele, e que explica porque ele continua tão apaixonante pra mim depois de 25 anos (que vamos comemorar agora em agosto). Mas ele também teve uma educação conservadora e machista.
Quando comecei o blog, 7,5 anos atrás, era bem comum que, nas nossas brigas (quase todo mundo briga, discute, se desentende), ele ficasse muito nervoso e levantasse a voz. Às vezes ele gritava. Óbvio que nunca me xingava (palavrões não fazem parte do seu vocabulário, nem do meu), mas eu não gostava daquela gritaria. Afinal, eu não grito. Sou capaz de discutir calmamente, e nunca apelo pra respostas de menino mimado do tipo "Porque sim!". Comentei algo no blog, e foi uma leitora, não lembro qual, que me alertou que gritar também era um tipo de violência. 
Eu pensei: putz, é mesmo. Faz sentido. E sentei pra conversar com o maridão (claro que não foi no meio de uma discussão!). E coloquei aquilo que minha leitora havia dito, e por que a gritaria me incomodava, e como eu não merecia aquilo, e como eu via isso como uma falha que ele conseguiria corrigir. Ele concordou comigo. A partir daí, ele mudou. E nossas discordâncias passaram a ser muito mais civilizadas. 
Certo, a pessoa tem que estar aberta a críticas e a mudanças. Mas acho que o diálogo sempre vale a pena. Sente-se com seu marido e ponha essas cartas na mesa. O pensamento retrógrado do "essa pediu pra ser estuprada" será confrontado aos poucos, mas você tem que exigir mudanças imediatas, como na participação das tarefas domésticas e no costume ditatorial de querer ter a última palavra. Se ele for uma pessoa sensata, refletirá sobre o assunto. E verá que você não está pedindo nada de mais.