segunda-feira, 15 de setembro de 2014

UMA EVOLUÇÃO POSSÍVEL: MENOS CARROS, MAIS BICICLETAS

Venho acompanhando meio de longe a polêmica em torno das novas ciclovias em São Paulo, cidade em que morei durante 16 anos, até 1993. 
Antes de mais nada, só uns avisos: não ando de bicicleta desde os meus 15 anos, por aí. Nunca fui muito boa nisso, me faltava equilíbrio. Se a bicicleta tivesse rodinhas, ou se fosse um triciclo, seria mais convidativa pra mim. Que mais? Não sou fã de carro. Desde que cheguei em Fortaleza, quase cinco anos atrás, ainda não peguei no volante. Aliás, minha carteira de motorista venceu. Talvez eu a renove, mas não sinto falta nenhuma de dirigir. Mesmo.
De todas as cidades onde morei (na ordem: Buenos Aires, Rio, São Paulo, Joinville, Florianópolis, Detroit, Fortaleza), a que menos gostei foi SP. Hoje até gosto de visitar, mas, na época, eu tinha chegado ao meu limite. Fui assaltada lá três vezes. E detestava a poluição, que barrava as estrelas. Mas o pior era o trânsito, e olha que estou falando do trânsito de vinte anos atrás. Era inviável morar numa metrópole dessas. 
Campanha nos anos 1920
Em 2010, o Estado de SP recebia 1.200 novos carros todos os dias. Na capital, são 680 veículos novos sendo emplacados a cada dia. A cidade já tem 7 milhões de veículos, ou seja, um carro para cada duas pessoas. Além de lotar todo o espaço e poluir o ar, os carros matam. Em 2009 houve 1.382 mortos em acidentes de trânsito na capital, contra 1.301 vítimas de assassinato. 
Os números de SP são assustadores. Vão mesmo contra qualquer bom senso. 
Segundo um engenheiro de transporte, apenas 20% dos paulistanos andam regularmente de carro. No entanto, esses 20% ocupam 80% das vias públicas. Não é muito democrático, é? Fica menos ainda se pensarmos que, em todos os governos, as políticas "públicas" (não parecem privadas?) são feitas focando só os carros. 
E qualquer administração que ofereça alternativas ao monopólio dos carros enfrenta enorme resistência. Quando Luiza Erundina e Marta Suplicy investiram nos corredores de ônibus, a galera chiou. 
Agora é a vez de Fernando Haddad (também do PT), que promete investir em ciclovias, virar alvo. É uma guerra urbana: os 20% que andam de carro veem a cidade como sua, totalmente sua, unicamente sua, e não aceitam dividi-la com mais ninguém -- nem motos, nem ônibus, nem bicicletas, e muito menos pedestres. Esquecem-se que carro não é liberdade. É opressão social
Semana passada, uma professora e pesquisadora, referência em semiótica no Brasil, deu uma bola fora ao reclamar contra as ciclovias em SP e ainda, pra piorar, associar a cor vermelha (padrão internacional para faixas de bicicletas) com propaganda do PT. 

O senador e candidato a vice-presidente pelo PSDB, Aloysio Nunes, também se posicionou: contra as ciclovias, a favor dos moradores de Higienópolis. Aqueles que foram contra um metrô no bairro, porque traria gente "indesejável". Os mesmos que protestaram contra a construção de um shopping (que hoje eles adoram). 

Uma cidade do tamanho de SP tem hoje apenas 60 km de ciclovias. 
O atual prefeito, Haddad, quer aumentar esse número para 400 km até o final do ano que vem. Além de todas as vantagens possíveis (diminuição do trânsito, da poluição e do barulho, economia para a cidade, saúde para quem pedala), um efeito colateral das ciclovias é aumentar a segurança urbana. Já pensou nisso? Foi com a ajuda das ciclovias que Bogotá conseguiu reduzir drasticamente a criminalidade em suas ruas.
É simples: pra combater a criminalidade, é muito melhor ter mais gente nas ruas do que ruas desertas.
Fui convencida disso quando estive na Universidade Federal de Juiz de Fora, no ano passado. Lá, eles abrem as portas do campus nos fins de semana, para que cidadãos possam caminhar e pedalar. Muito mais eficaz que manter uma universidade lacrada e monitorada por guardas. Ocupar o espaço urbano deveria ser a palavra de ordem. 
É preciso sim superar a cultura do automóvel. É preciso refletir: de quem é a rua?
Campanha nos anos 20:
carros como máquinas
mortíferas
Em 1920 muita gente achava que ruas eram espaços públicos para crianças brincarem. Nada andava mais rápido que 16 km/h. Uma rua era como um passeio público, em que você só precisava se desviar de animais ou outras pessoas. Aí vieram os carros, que no início foram vistos como máquinas da morte, pois atropelavam -– e matavam –- pessoas, principalmente crianças. 
A relação dos cidadãos com a rua mudou. A rua pouco a pouco virou um lugar de carros, não de gente ou bicicletas. O fato é que essa relação entre pedestres, ciclistas, passageiros de transporte público, e motoristas de carro não é algo natural, que surgiu de repente. É uma construção social. E, como tal, pode ser desconstruída. Por que uma cidade privilegia os carros? Quem ganha com isso?
Uma das muitas casas
abandonadas em Detroit
Eu morei um ano em Detroit, Michigan. Felizmente, aluguei um lugar que ficava pertinho da faculdade, a quatro quarteirões, então era possível ir andando. Quando precisava pegar ônibus para ir a algum outro lugar não era muito bom (mas também não era um desastre, é só que demorava). Detroit é tida como uma das piores cidades americanas no que se refere ao transporte público. Por quê? Porque Michigan foi o estado em que ficavam todas as grandes montadoras de veículos (foi, não é mais. Hoje Michigan está falido justamente porque as montadoras, para aumentar os lucros, saíram dos EUA à procura de países onde podem pagar salários incomparavelmente menores e ainda ganhar isenções fiscais, como o Brasil). 
E obviamente não interessa às marcas de carro ter bom transporte público. Elas fazem lobby para que o transporte seja o pior possível, para que todas as pessoas precisem de um carro (a propósito, foram elas também que mataram o carro elétrico). 
Também morei em Joinville, conhecida como "a cidade das bicicletas", pois tem uma para cada quatro habitantes. Durante algum tempo eu dei aula na Tupy, que ficava a 1,5 km da minha casa, então eu ia andando. Quando dava a saída da fábrica, era um mar de bicicletas. Imagina toda essa gente indo de carro, ou lotando ônibus. E Joinville está longe de ser bem equipada em matéria de ciclovias. 
Tem um vídeo maravilhoso sobre como Copenhagen virou a cidade das bicicletas a partir dos anos 70. Hoje 55% dos habitantes da capital da Dinamarca vão de bicicleta para o trabalho todos os dias. São 350 km de ciclovias. É a capital com menor índice de congestionamentos urbanos na Europa. Mas nem sempre foi assim. E foi a pressão popular que fez com que Copenhagen mudasse de atitude.
Copenhagen nos anos 1930
O arquiteto Jeff Risom explica que havia centenas de bicicletas na Copenhagen da década de 1930, mas nos anos 50 chegaram os carros. Se olharmos fotos da cidade entre as décadas de 50 e 70, não veremos bicicletas. Só que, nos anos 70, com a crise do petróleo, as pessoas passaram a exigir (“como os paulistas devem fazer”, acrescenta Risom) mais opções de transporte. Foram os cidadãos que saíram às ruas para pedir ciclovias. 
Bicicletada em São Paulo
No começo, como toda mudança, ficou um pouco congestionado. Mas, à medida que mais pessoas começaram a deixar o carro em casa e adotar a bicicleta, mais espaço foi aberto para esse meio de transporte. E olha só, os dinamarqueses têm um alto padrão de vida. Não teriam dificuldade pra comprar um carrão. Só que lá carro não é status, é locomoção. E bicicletas são o meio mais rápido, barato, e não poluente de chegar a um lugar.
Os ciclistas em Copenhagen andam a 20 km/h, em média. Acha pouco? É porque você assiste muita Fórmula I, ou porque você fica fantasiando com a potência do seu automóvel. A velocidade média dos carros em SP é de 13 km/h. 
Aqui tem um texto muito bom rebatendo as principais críticas feitas às ciclovias de SP (que são muito parecidas às críticas feitas às ciclovias em qualquer lugar). 

Combater a cultura do automóvel é superar mitos, é parar de ver carro como símbolo de status e masculinidade, e admitir que outras alternativas são mais que possíveis -- são urgentes. 
Desde quanto estacionamentos são mais importantes que calçadas, máquinas têm mais prioridades que pessoas? É como o Patrick lembrou: muitos prédios públicos não oferecem creches para que seus funcionários possam deixar os filhos enquanto trabalham. Mas oferecem estacionamentos, com vigias. No nosso mundo, babás para carros são mais fundamentais que babás para crianças. 
Carros estacionados em cima de faixa
para bicicletas, em SP
Eu vou e volto andando de casa pra faculdade. Fiz essa opção, e paguei muito mais caro, para poder viver perto do meu trabalho. Assim, ganho em tempo e economizo no transporte. Não é perfeito: as calçadas são esburacadas, sujas, e muitas vezes ocupadas por carros e motos que decidem que precisam estacionar bem ali onde os pedestres passam. Os motoristas tampouco respeitam as faixas de pedestres (se não respeitam as calçadas, vão respeitar uma faixinha numa rua que eles têm certeza que pertence a eles?). 
O momento mais bacana no meu trajeto não acontece todos os dias. É quando, durante alguns segundos, o trânsito dá um suspiro. É o tempo que demora pro sinal abrir e todos os automóveis voltarem. Mas durante aqueles segundos, a cidade é outra. É silenciosa, calma, o ar é melhor. Nesses raros instantes, eu imagino como seria viver num lugar em que a cultura do automóvel não fosse tão predominante.

domingo, 14 de setembro de 2014

SÓ DIZ QUE ANTIGAMENTE ERA MELHOR QUEM NÃO VIVEU LÁ

Domingo retrasado publiquei alguns dos excelentes relatos que foram deixados no post "No tempo da vovó era melhor. Era mesmo?", que por sua vez foi um lindo comentário escrito no post sobre mulheres contra o feminismo. Adoro quando uma discussão rende desse jeito.
A ideia é a mesma: quem diz que "antigamente é que era bom", não sabe do que está falando. Ou talvez saiba, e não queira admitir: era bom pra quem? Porque pras mulheres é que não era.
Aqui outras reflexões maravilhosas escritas por leitorxs idem.

"A minha avó com certeza não tinha a menor saudade do meu avô.
Às vezes ele ficava numa onda meio deprê e botava umas músicas tristes pra ouvir durante o almoço ou o jantar, depois de comer. Todo mundo tinha que ficar na mesa, quem saísse antes dele terminar de ouvir as tais músicas deprimentes levava um belo tapão na cara." (Death)

"As mulheres mais novas não tem a menor ideia de como era difícil a vida das mulheres. O machismo era tão naturalizado que bem poucas se davam conta dos absurdos de desigualdades a que éramos sujeitas diariamente.
Fico pasma quando vejo garotas jovens dizendo que o feminismo não é mais necessário. Se elas soubessem como era, jamais diriam tamanha besteira. 
Eu creio que sou mais velha do que a grande maioria das suas leitoras Lola, mas fui educada de maneira até mais liberal. Escutava das minhas amigas coisas inacreditáveis.
Uma delas tinha muitos irmãos e irmãs, e o pai desconfiava da mãe dela, mesmo sem nenhuma prova. Espancava a esposa na frente de todos os filhos, humilhando-a de maneira brutal. Nessa época isso não era digno de sequer ser levado às autoridades, e muitas mulheres passavam por isso como se fosse natural, parte da vida de uma mulher. 
Se fosse só esse relato de uma amiga, já seria bem triste, mas infelizmente conversei com várias mulheres que passaram por situações que hoje seriam consideradas impensáveis.
Tenho também uma mãe de amigos, um amor de mulher que eu tenho como amiga. Em uma oportunidade ela desabafou comigo sobre como foi a vida dela. É de chorar.
Mesmo ela tendo uma profissão antes de casar, o marido não a deixava trabalhar em hipótese alguma, e preferiu ver os próprios filhos passarem fome durante um período de desemprego, do que deixá-la trabalhar. Ela, desesperada com essa situação, começou a fazer costuras escondida dele. Ele quando descobriu a espancou, e insultou os clientes que ela tinha. 
Sem contar a parte sexual: várias diziam que os maridos não as procuravam. Essa amiga disse que a última relação que teve com o marido foi aos 40 anos de idade, e elas tinham que se conformar com isso, e nem reclamar podiam, pra não serem chamadas de vagabundas. 
Mesmo minha mãe que nem era muito machista, quando servia a mesa, era meu pai quem tinha que se servir primeiro, e nem pensar em pegar uma porção maior que a dele. Essa era uma regra que estava implícita na maior parte das casas.
Poderia ficar horas me lembrando de situações machistas e injustas que no passado eram tão comuns.
Só posso lamentar que ainda hoje não são todas as mulheres que lutam pelo feminismo. Se elas soubessem..." (Sara)

"Me emocionei muito com esse post.
Minha avó materna tem uma história parecida. Meu avô era uma pessoa muito ruim, e chegou a deixar a minha avó, quando nova, a duas quadras do hospital (na frente do bar onde ele entrou) enquanto ela estava tendo uma hemorragia. Minha avó caminhou sozinha até o pronto-socorro para ser atendida.
Assim como no post, minha avó descobriu o que era a liberdade e a auto-determinação quando eles se separaram.
Curioso pensar que essas mulheres só se sentiram verdadeiramente felizes como indivíduos (não como mães) depois de se livrarem de seus maridos, verdadeiros algozes." (Anônimo)


"Minha vó SÓ sofreu nesta vida por ser MULHER, mulata. Ela nasceu no Sul do país. Ela já tinha dois irmãos e quando nasceu foi desprezada por ser, adivinha, mulher. Depois de humilhar e maltratar ela por anos, a então mãe dela a 'emprestou' para uma senhora que morava em uma vila alemã. Lá ela disse que foi feliz. Aprendeu a costurar, sempre separada das pessoas, mas não era maltratada como em casa. Mais tarde, ela começou a ter um namoradinho, negro, com quem trocou cartas.
O pai dela, quando descobriu, a surrou muito, cortou o cabelo dela e disse que ia casar ela com algum fulano. Ela fugiu. Mudou de nome. E foi parar em Santa Catarina. Fazendo o que sabia, que era costurar, limpar terreno e usar plantas medicinais para ajudar pessoas. Conheceu meu avô, que era estrangeiro. Era um amor de pessoa, segundo ela. Ele a chamou para ir para São Paulo com ele. Ele a trouxe e a botou para trabalhar com ele, o que não era nada, se ele não tomasse todo o dinheiro dela para jogar e usar com outras mulheres. 
Fora as surras. Meu avô quebrou braços, dedos, dentes. Minha avó odiava tanto ele, que nunca quis ter filhos. Ela abortava direto, por via de plantas (e olha que tem gente que acha que planta não faz nada), e ajudava outras mulheres a fazerem o mesmo. Quando tinha uns 30 anos, começou a demonstrar os traços de vitiligo, o que fez ela se sentir pior ainda. 
Mesmo assim, ela teve 5 filhos. A primeira é minha mãe, que minha avó, como foi ensinada, odiou por ser mulher. Meu avô já tinha 50 anos quando minha mãe nasceu. Mas ele precisava dela. Com 14 anos ela sustentava a casa, e parte dos vícios dele. Minha mãe fez ele parar de bater na minha avó. Minha mãe diz que minha avó só soube o que era sentimento quando teve netos. Ela se sentiu amada e amou. Mas mesmo assim no final da vida. A gente via o quanto de dor ela carregava." (Anônimo)

"Não acho que no tempo da minha avó as coisas fossem melhores (e espero que o futuro seja muito melhor que hoje), entretanto, vejo meus avós casados há 50 anos e enxergo um dos casais mais lindos do mundo! Ambos sempre trabalharam, pedreiro e doméstica, e meu avô nunca levantou a mão ou a voz pra minha avó. Sei que a maioria acha pouco mas ele cozinha, lava louça e a trata como se fossem namorados até hoje, com presentes e surpresas.
Com certeza são 'exceção à regra'; afinal, vieram para SP do interior da Bahia e, diga-se de passagem, minha avó é infinitamente mais machista que meu avô. Ela acha que é obrigação da mulher cuidar da casa e que somente o casamento e a maternidade podem fazer uma mulher plenamente feliz, enquanto ele tem o sonho de ter alguma neta engenheira...
Espero que um dia não precisemos mais do feminismo, mas enquanto esse dia não chega continuemos a luta!" (Anônimo)

"Eu jamais trocaria os dias de hoje por 50 anos atrás. Acho que nem por 10 anos atrás. Só mesmo se o mundo estivesse atravessando uma terceira guerra mundial, infestação de zumbis, invasão alienígena etc. Aí sim. Mas fora isso, nem pensar. 
E pra mostrar que o caso da avó da NormalidadeRealidade não foi isolado, minha avó apanhou do marido por 17 anos. Ela casou novinha, foi estuprada na noite de núpcias, ficou toda mordida. Não podia trabalhar, estudar. Já aconteceu inclusive de meu avô rasgar um vestido lindo que ela tinha ganhado de presente -- isso entre muitas outras coisas. 
Ele não punha comida dentro de casa e ainda reclamava quando não tinha nada pra comer. Quando casaram, eles moravam num barraco mixuruca porque nem um lugar decente ele pode arrumar. Os dois só conseguiram morar num lugar melhor porque ela ajudou lavando roupa pra fora e também servindo de servente de pedreiro. Alguém consegue imaginar uma mulher baixinha, magrinha e delicada carregando sacos de cimento e baldes de areia? E alguém consegue imaginar essa mesma mulher apanhando de um sujeito que devia ter 1,70 m e era forte como um touro? Pois é. Era a minha avó. 
Depois de ajudar a construir a casa com dinheiro e serviço, sabem o que aconteceu? De tanto apanhar, ela decidiu pedir o divórcio. Mas na época a coisa estava tão feia que ela acabou tendo que fugir. O que aconteceu depois? O juiz deu abandono de lar e falou que por causa disso ela não teria direito a nada, mas meu avô resolveu dar a metade da casa por causa da minha mãe, e fez isso como se fosse uma caridade. Anos depois ele ainda teve o atrevimento de jogar na minha cara que eu dependia dele desde o nascimento só por causa disso, sendo que ele nunca sequer comprou um saquinho de leite pra mim. 
Aí vem mascuzinho dizer que bom era nos tempos da vovó. Bom pra quem? Só se for pros misóginos estupradores e espancadores de mulheres, que podiam fazer o que bem entendessem porque não tinha nem delegacia da mulher. Se eles acham que vamos abrir mão de todos os direitos que conquistamos pra voltar a esses tempos, então eu sugiro que eles se matem de uma vez porque isso não vai acontecer." (Mallagueta Pepper)

"Canso tanto de falar a mesma coisa que já devia andar com uma plaquinha na mão: só diz que 'antigamente era melhor' quem não viveu lá." (Anônimo)

sábado, 13 de setembro de 2014

GUEST POST: NÃO QUERO SER REDUZIDA AO MEU PESO

A P. me enviou este email:

Não te conheço, mas posso lhe dizer sem dúvidas que você tem sido uma boa amiga para mim. Nunca pensei em te escrever por não saber bem sobre o que falar. Nunca fui vítima de nenhuma violência física ou sexual, meu pai nunca foi agressivo com minha mãe, nunca tive namorados agressivos. Eu nunca nem tive namorados. 
Sempre fui uma menina gordinha, séria, nerd e com fama de brava. Aos 11 anos nenhuma das crianças na escola queria ser minha amiga. Porque eu era gorda. Uma vez cheguei em casa chorando muito e ao falar com meu pai pelo telefone ele me disse pra não chorar, que essas pessoas não mereciam minhas lágrimas. Desde então eu não chorei mais em público, e passei a revidar os comentários maldosos. 
Quando me diziam que eu era gorda, respondia: e você que é burro?! Que não vai passar de ano? Assim a escola que me odiava passou a me chamar de má -- porque eu não abaixava a cabeça aos abusos deles. 
Aos 14 anos e 97 kg eu vivi um dos piores anos da minha vida, todos da minha turma me detestavam, eu era vitima constante de piadas e abusos emocionais. Sentia vergonha de contar isso em casa, minha mãe dizia que eu precisava emagrecer, ser mais vaidosa, mas eu já havia desistido disso. Eu não queria mudar meu corpo, queria mudar a forma como as pessoas me tratavam. 
Isso aconteceu no ano seguinte com a entrada de um menino novo na escola. Ele era muito bonito e mesmo assim queria ser meu amigo. Todas as meninas queriam ficar com ele, mas era pra mim que ele guardava um lugar ao seu lado. Por ele me ver de uma forma diferente, as pessoas passaram a me ver assim também, e os meus últimos três anos na escola foram de popularidade e, surpreendentemente, de emagrecimento. No fim do terceiro ano eu pesava 74 kg. 
Algumas pessoas me perguntavam se eu estava doente, mas eu estava feliz. Ficava com caras, não era mais zoada por ser gorda. 
Pouco antes do vestibular eu perdi meu pai e fiquei completamente perdida na vida. Fiz o vestibular, passei numa universidade federal e comecei a morar numa república com colegas. Não estava magra, mas meu peso havia deixado de ser uma questão para mim até recentemente. 
Comecei a engordar descontroladamente. Eu não me preocupava, até que perdi todas as minhas calças jeans. Quando desisti de fazer com que elas entrassem no meu corpo, doei todas e segui em frente. 
No entanto, eu te digo que tem sido muito difícil. Não, as pessoas não me zoam na universidade. Pelo contrário, hoje eu tenho amigos maravilhosos. Mas todAs as minhas amigas vivem falando de dietas e regimes. Não importa quanto elas pesem, todas querem emagrecer. Três das minhas amigas mais íntimas estão em regimes radicais atualmente. Uma delas está tomando remédios tarja preta, outra perdeu 14 quilos nos últimos dois meses. Todas as conversas são monotemáticas. 
Eu não quero emagrecer, Lola. Eu estou no meu último semestre da faculdade, estudando freneticamente para concursos futuros, não tenho como investir nem tempo nem dinheiro para emagrecer agora, mas eu estou triste porque quando minhas amigas estão comigo, elas falam de como elas estão perfeitas agora, o que me diz indiretamente de quão eu estou desajustada. Eu sei que não é a intenção delas, mas é isso que está posto na nossa sociedade. 
Ontem fui numa aula e encontrei uma amiga que não via há muito tempo. Enquanto conversávamos, ela olhava incessantemente pra minha barriga. Eu disse a ela: eu sei que estou gorda, não precisa ficar olhando. Ela deu risada e me mandou fechar a boca.
Por que eu preciso fechar a boca?! Por que as pessoas não podem simplesmente cuidar de suas próprias vidas? Para evitar esse tipo de comentário e observação eu tenho evitado sair de casa, não vejo as pessoas com quem eu costumava sair, nunca mais fui a barzinhos e shows que eu gostava. Não quero que me olhem como se eu fosse apenas minha barriga. 
Evito todas as pessoas que me fazem bem porque algumas me fazem mal sem perceber. 
Eu sei que estou gorda, Lola. Estou 24 kg acima do meu peso ideal, mas o que anda pesando mesmo são as pessoas reduzirem tudo que eu sou a 24 kg.

Meu comentário: Não deixe de fazer as coisas que você gosta de fazer e de sair com quem você gosta por causa de meia dúzia de gente que te faz mal. É uma droga mesmo ser vista como "a gorda", mas certamente você tem amigas e amigos que não limitam você a sua barriga. Agora, essas conversas monotemáticas são um saco mesmo. Não é possível que até na faculdade só se falem peso! Acho que entre o pessoal mais politizado não é assim, ou é também?