quarta-feira, 26 de novembro de 2014

"FIZ CIRURGIA BARIÁTRICA E NÃO ESTOU BEM"

Relato da A.:

Primeiramente, gostaria de dizer o quanto admiro a sua luta no feminismo. E admiro mais ainda a sua humildade em rever seus conceitos e práticas e admitir que errou, como todos erramos muitas vezes, como vc fez no post "Praticamos nossos preconceitos contra quem?"
Vou deixar o meu relato, porque acredito que possa ajudar as pessoas que passaram ou pensam em passar pelo mesmo que eu passei.
Hoje eu tenho 23 anos e, há 8 meses, passei por uma cirurgia bariátrica.
Sempre fui gordinha. Venho de família italiana com mulheres muito obesas. Tenho só duas primas magras, consideradas as mais maravilhosas do mundo pela família, e sempre fui marginalizada e discriminada dentro da minha própria casa, comparada com essas primas e ridicularizada. Só os meus pais não tinham esse comportamento comigo e, por medo de me magoar, hoje vejo que foram até displicentes com a questão da minha obesidade.
Fato é que, aos 22 anos, depois de uma depressão severa e passando pela fase do TCC, cheguei aos 107 quilos. Para os meus 1,62m, estava MUITO acima do peso. Depois dos 17 anos, quando passei a viver sozinha em São Paulo, a obesidade deixou de ser uma grande questão pra mim, talvez por isso eu tenha engordado tanto. Hoje eu percebo que ainda era uma grande questão, mas que eu fazia questão de negar. Vivia bem, me aceitava bem, fingia não ouvir os xingamentos, não sentir o preconceito, mas isso só na superfície. Quando contei às minhas amigas que faria a cirurgia, elas ficaram chocadas e me dizem isso até hoje, porque elas me achavam a gordinha mais incrível do mundo, com a autoestima lá em cima, pegando os caras e etc. 
Bom, fiz a cirurgia e já eliminei 35 quilos, estou quase magra. Minha cirurgia correu muito bem, até os médicos ficaram impressionados. E eu estava muito ciente da minha decisão (demorei 2 anos pra decidir, de fato), então a cabeça estava boa. Passava bem, comia muito pouco e tranquilamente e não tinha grandes problemas. 
Fato é que, de dois meses pra cá, as coisas não estão tão tranquilas assim. Por fatores que ainda não sabemos se físicos ou psicológicos (grandes chances de que sejam psicológicos) passei a ter fortes dores sempre que como, nunca mais tive prazer em sentar pra comer, eliminei quase tudo do meu cardápio. Atualmente, a única coisa que me faz bem é sopa. Passei duas semanas sem comer praticamente nada. Andava emagrecendo 2 quilos por semana, desenvolvi uma anemia fortíssima e tenho que tomar remédio na veia por sete semanas, no hospital, mais injeções muito doloridas para tentar controlar. 
Na semana passada, por causa dos medicamentos, descobri que tinha ganhado 200 gramas, quase morri. Aí sim não queria comer. Sempre que alguém chega pra me fazer um elogio, respondo dizendo que "Não, imagina, ainda faltam 20 quilos". Dez extremamente desnecessários, segundo o meu médico. Meu maior medo é não atingir essa meta que eu mesma me impus, ser tachada como um fracasso por todo mundo, depois de ter feito tudo isso. Mas essa foi a única decisão na minha vida que eu tomei por mim, sem pensar em ninguém. Nesses últimos dias, tenho andado deprimida, a falta de comida faz abaixar as taxas de serotonina e todos os hormônios responsáveis por fazer com que a gente se sinta bem e feliz. Tenho um corpo ótimo, posso comprar todas as roupas que eu sempre quis e isso me deixa feliz.
Mas me entristece não poder apreciar um hambúrguer com os meus amigos no final de semana, me entristece vomitar no meio da rua por comer quatro macarrões e largar o prato todo na mesa, me entristecem as dores e a distorção que eu vejo no espelho. Meus amigos do interior vieram me visitar no final de semana e disseram que nunca me viram tão pra baixo. Isso é muito triste. Me entristece, principalmente, por ser feminista. Por passar a vida lutando contra o discurso machista dominante e no fim me ver tragada por ele. Me entristece continuar sendo tratada como lixo por homens machistas e por essa sociedade misógina.
No fim, o que eu queria dizer é que eu não me arrependo de ter tomado essa decisão por mim. Mas que nem tudo é mar de rosas. Queria dizer pra quem se sente bem com o seu corpo, sendo gordinha ou magrinha, que siga assim. Aos poucos, nós vamos quebrar esse paradigma. Nenhum direito de minoria é conquistado senão com muita luta e com muita lágrima, mas um dia vem.

Meus comentários: Querida A., acho que entendo o que você está sentindo. E creio que não é incomum com quem faz cirurgia de redução do estômago. Por um lado, é realmente muito tentador pra quem sempre foi gordx, pra quem já fez de tudo pra emagrecer, se submeter a uma cirurgia dessas e conseguir realmente perder peso. Por outro, toda a sua relação com a comida muda, e há riscos de óbito (entre 0,5% e 1%). Sem falar que há muitos casos em que a pessoa reganha o peso.
A última vez que fui ver minha gastro (que é muito boazinha, ao contrário da minha ginecologista; a gastro nunca me dá bronca ou faz previsões alarmistas), ela perguntou se eu gostaria de colocar uma banda gástrica (anel) durante uns seis meses. Eu respondi que não, que preferiria tentar emagrecer adotando hábitos mais saudáveis. Tenho o dobro da sua idade, A., e, infelizmente, agora a obesidade começou a pesar. Depois de décadas sem qualquer problema, agora estou com gordura no fígado, princípio de diabetes, e alguma restrição de mobilidade (subir e descer degraus de ônibus, por exemplo, é um sufoco). Esteticamente, já me acostumei a ser gorda. Mas tenho que emagrecer por causa da saúde. Sem neuroses, sem pressa. 
Tô tentando. Desde agosto, incorporei o tal suco verde a minha dieta. Todo dia eu faço um suco muito bom (maridão adora) no liquidificador, com montes de frutas e verduras. Não coo nem coloco açúcar ou adoçante. Pra quem não tomava café da manhã (meu caso), o suco está mudando meu pique. É uma refeição e me passa uma sensação de saciedade. Às vezes tenho uma recaída com chocolate (tipo essas duas últimas semanas), e ainda não estou me exercitando. Mas certamente me alimento melhor. 
Como não me peso, não tenho ideia se já emagreci ou não. O que me interessa é ver se minha taxa de glicose (que tinha passado pra 120 pela primeira vez na vida) baixou. Vou fazer novos exames de sangue em breve, e ficarei revoltadíssima se os índices não tiverem baixado. Putz, todo o chocolate que deixei de comer não causa alteração?
Enfim, euestou revoltada. Porque fui super saudável, apesar de gorda, durante grande parte da minha vida. E foi só ficar mais velhinha que, puf, surgiram vários problemas. O que eu queria era poder continuar comendo o que eu gosto, ser saudável como sempre fui, e viver até os 150 anos. Só! É pedir demais?
Boa sorte, A.! Não fique obcecada com seu peso. Ignore os homens machistas, e preocupe-se apenas com a sua saúde.

terça-feira, 25 de novembro de 2014

PELO FIM DE TODAS AS VIOLÊNCIAS CONTRA A MULHER

Comecei este blog em janeiro de 2008. Já já completa sete anos de vida, uma infinidade em termos de internet. Logo de cara, escrevi um texto que fez muita gente se identificar. O nome era "Toda mulher tem uma história de horror pra contar". 
Claro, não era, nem é, toda mulher, porque não se deve generalizar, e não há toda mulher pra nada. Existem mulheres que tiveram o privilégio de nunca sofrer qualquer tipo de violência, mas convenhamos: é uma raridade. Quando criei essa frase forte do "toda mulher tem uma história de horror pra contar", estava pensando mais em violência sexual. Eu, como tantas mulheres, escapei por pouco de ter sido estuprada. Sei que não foi nada pessoal. Sei que não foi nada que eu fiz. Foi apenas por eu ser mulher. 
A primeira vez foi quando eu era uma menina de 12 ou 13 anos passando férias em Búzios com minha família. Eu estava num cinema improvisado pertinho da casa que alugávamos quando uma mulher simpática veio até mim e me apontou um senhor e disse que ele era muito rico e generoso e que, se eu saísse com ele, ele me presentearia com carro, casa, dinheiro... Só me dei conta da gravidade da situação ao chegar em casa, contar pro meu amado pai, e meu pai sair correndo, furioso, chamar a polícia, fazer um escândalo. 
Na outra vez eu já tinha 15 ou 16 anos e, também em Búzios, fui transar com um rapaz bonito mais ou menos da minha idade, numa casa vazia em que ele tinha a chave. Transamos. Ele se levantou, alguém voltou pra cama, tocou no meu braço, a pele fria. Eu vi um vulto no corredor e imediatamente perguntei, revoltada: "Quem é você?". Sem esperar a resposta, me levantei, peguei minhas roupas, me vesti no banheiro, e saí. Já não havia ninguém na casa, pelo menos não à vista. O carinha com quem transei achou que, se eu transava com ele, transaria com qualquer um, e por isso convidou o primo. 
Na terceira vez eu tinha 19 ou 20 anos, e resolvi ir ao cinema sozinha, à noite, em SP, porque ninguém queria ir comigo num dia da semana ver um filme de quatro horas, Era uma Vez na América (grande épico do Sergio Leone que, aliás, contém uma terrível cena de estupro). Dentro do cinema, na Praça Roosevelt, três homens, um de cada vez, vieram se sentar ao meu lado. Porque acharam que mulher sozinha é mulher disponível. Eu tive que mudar de lugar três vezes para que os marmanjos se convencessem que eu realmente havia ido ao cinema -- olha que incrível -- ver um filme. 
Mas tudo bem, vi o filme, peguei um ônibus, e desci na Av. Angélica. Eu morava em Higienópolis, bairro nobre de SP, na Rua Sergipe. Quando estava quase em frente ao meu prédio, fui agarrada por trás. Caí no chão. E me levantei rapidamente e fui com tudo pra cima do cara, que saiu correndo. E eu fui correndo atrás, gritando, indignada. Não o alcancei. Nem sei o que teria feito se o alcançasse. Contei pro meu pai, liguei pra polícia. Nada.
Na quarta vez eu tinha acabado de fazer 23 anos e estava em Fortaleza, fazendo pesquisa de mercado pro Ibope. Numa rara noite que saí com a única colega da equipe, fomos a um barzinho. Lá conversei com três rapazes, universitários de classe média. Uma conversa bacana sem a menor conotação sexual. Minha amiga ficou com alguém, e esses rapazes se ofereceram para me levar pro hotel onde eu estava hospedada. Aceitei. Era tarde, eu tinha que acordar cedo no dia seguinte, e eles eram legais. Só que eles, sem me consultar, pararam na garagem do prédio de um deles, e insistiram pra que eu subisse pra tomar alguma coisa. 
Tipo, eles viram que eu não bebo (papeamos um tempão no bar, e eu só tomando água sem gás), viram que eu não estava minimamente interessada neles, mas acharam que, pela carona, eu teria que participar de uma suruba. Não desci do carro, e disse calmamente que eu queria ir pro hotel. Eles insistiram muito que seria só por um tempinho. Diante de mais negativas minhas, eles inventaram que eu deveria subir pra pegar algo que um deles havia esquecido no apartamento. Eu disse que, se eles não me levassem pro hotel, eu iria sair do carro e pedir um táxi (era pré-celular). Eles finalmente me levaram pro hotel. E ficaram bravíssimos! 
Foram praticamente essas as minhas histórias de horror. Pouca coisa, se comparadas aos guest posts que publico aqui
E hoje recebo, em média, uma ameaça de morte, ou de estupro, ou de desmembramento, ou de tortura, por semana. Faz uns três anos. Não recebo essas ameaças por causa dos meus faiscantes olhos verdes. É só por ser mulher mesmo. E por ousar ter um blog feminista. 
E, como ironia trágica, esses mesmos energúmenos que me ameaçam toda semana ainda dizem que ninguém nunca iria me estuprar, porque eu -- que aprendi a me achar linda -- seria feia e gorda demais pra ser estuprada. Torturada e morta, tudo bem. Mas estupro, né, estupro é puro desejo sexual e não tem nada a ver com poder e humilhação, logo, apenas top models são estupradas, como estamos cansadas de saber
Não estou sozinha nas minhas (leves) histórias de horror. Uma em cada três mulheres no mundo experimenta ou já experimentou algum tipo de agressão física ou sexual de seu parceiro. Ou seja, uma em cada três mulheres é vítima de violência conjugal, segundo a Organização Mundial de Saúde. E essas mulheres são sortudas, jura a sociedade, porque elas têm um marido. Um homem que as protegerá... de outros homens. 
Hoje, 25 de novembro, é Dia Internacional pelo Fim da Violência Contra a Mulher. Muitas organizações promovem dezesseis dias de ativismo. Começa hoje e acaba lá pelo dia 10 de dezembro. A campanha, quero dizer. Porque a violência contra a mulher, infelizmente, ainda está muito longe de acabar. 
E há inúmeras formas de violência. Há os feminicídios, que matam em média, só no Brasil, quinze mulheres todos os dias. Há a violência doméstica. Há a violência obstétrica. Há a violência do aborto ilegal, clandestino, do Estado que deveria ser laico mas que se nega a reconhecer a autonomia do corpo feminino. Há a pornografia da revanche. Há a violência psicológica, a violência moral. Luto, lutamos, pelo fim de todas essas violências. 
Comecei o post falando do blog, e quero terminar falando dele também. Não sei se já contei isso aqui. O maridão é lindo e fantástico e maravilhoso, mas ele fica nervoso de vez em quando. Obviamente que ele só encosta em mim pra me dar carinho, ou não estaríamos juntos há 24 anos. Porém, no início do blog, às vezes, na sua falta de autocontrole, ele gritava comigo. E eu achava normal. 
Até que uma leitora, não lembro qual, porque são tantas, e todas tão especiais, comentou que gritar também era um tipo de violência. E eu concordei. Eu e o maridão conversamos, e ele aceitou que sim, gritar, levantar a voz, com raiva, era violência. E desde então, nunca mais ele gritou comigo.
Deve fazer uns seis anos. 

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

CARTA ABERTA AO JORNALISMO ALTERNATIVO

Recebi hoje o link para uma reflexão muito instigante e bem redigida sobre o machismo na "mídia independente", mais especificamente no jornal Tabaré, publicação conceituada de Porto Alegre.
O texto fala sobre como o machismo existe também na esquerda, muitas vezes de modo sutil. Tanto que geralmente se torna invisível não só para os homens que o perpetuam como para as mulheres que o sofrem. Vale muito a leitura. 
O texto é escrito e assinado por Jessica Dachs, Julia Schwarz, Juliana Loureiro, Luísa Santos, Luna Mendes, Natascha Castro, e Yamini Benites. 

O feminismo hoje é pauta. As discussões nas redes sociais, as denúncias, os debates e os questionamentos frequentes demonstram o quanto as questões relativas ao lugar da mulher na sociedade vêm sendo gradualmente abordadas em espaços diversos. No entanto, sabemos que o combate ao machismo é feito no dia-a-dia, em nossas relações pessoais, familiares, de trabalho, nas ruas -- naquelas situações de assédio tão banais pelas quais, nós mulheres, passamos e que nos ferem cotidianamente.
Parece redundante falar em machismo nas salas das redações dos grandes veículos de imprensa. Redundante porque o próprio resultado final do trabalho jornalístico -- as matérias, reportagens, artigos -- na grande parte dos casos se resume a produtos machistas, que seguem as mesmas lógicas midiáticas da propaganda abusiva. A forma como as mulheres são tratadas no jornalismo serve de exemplo evidente: enquanto fontes e personagens das matérias, aparecem ou como objetos decorativos a serem apreciados por sua beleza ou como super heroínas que conseguem conciliar uma carreira bem sucedida, a maternidade dedicada e o cuidado religioso com a saúde e a beleza. 
Enquanto fontes especialistas, dificilmente são ouvidas, dando-se preferência aos seus colegas homens nos comentários sobre política, economia, esporte, etc. Como repórteres, são impedidas ou desestimuladas a desenvolverem pautas investigativas, ficando com as pautas “softs”, visivelmente menos valorizadas na profissão. Como público leitor, os assuntos de seu interesse, relativos às suas vivências enquanto mulheres (como aborto, violência doméstica e obstétrica) são visivelmente relegados a segundo plano ou simplesmente marginalizados e silenciados. Fora isso, na rotina diária das redações da grande imprensa, o assédio contra mulheres ocorre a vistas grossas, e a valorização da posição autoritária dos “machos-alfas” é mantida enquanto “cultura profissional”.
Ainda assim, nós, que assinamos esta carta acreditávamos que havia outras possibilidades no jornalismo, que este poderia assumir uma postura de questionar os pré-conceitos e duvidar das verdades e certezas estabilizadas. Tínhamos a esperança de haver espaço para uma prática jornalística diferente, principalmente naqueles ambientes que se colocavam como contestadores, a exemplo das iniciativas de jornalismo alternativo e independente que pipocavam em Porto Alegre e outros lugares.
Como estudantes, procurávamos um espaço livre para poder trabalhar com o que acreditávamos da mesma forma que nossos colegas homens, e com esse intuito decidimos construir alternativas. Formamos parte de um coletivo, de uma equipe, de uma redação independente. Estivemos desde o começo trabalhando em diversas etapas da criação, formação e produção de um jornal impresso em Porto Alegre chamado Tabaré. Algumas colegas se uniram ao grupo tempos depois -- artistas, designers, escritoras, fotógrafas, etc. Muitas nos deixaram com o tempo, poucas se mantiveram durante os quase quatro anos de existência do jornal. Os motivos das desistências eram diversos: outras ocupações, outros interesses, outras necessidades. Apenas uma coisa permaneceu constante durante todo o tempo: a desproporcional presença de homens e mulheres. O movimento de saída gradual das mulheres do jornal estimulou nossas inquietações -– atualmente o Tabaré conta com apenas uma integrante mulher na redação.
Hoje conseguimos perceber que na via “alternativa” algumas estruturas e relações semelhantes às vivenciadas na grande mídia se mantêm. Antes, no entanto, costumávamos acreditar que em um jornal “independente” estaríamos minimamente distantes das opressões das redações dos veículos da indústria da comunicação. Formamos um projeto de relações de trabalho horizontais, de tomada de decisões em assembleias em que todos possuíam o mesmo peso de voz e voto, enfim, de ilusões igualitárias. A partir dessa experiência ficou evidente para nós que as opressões sutis são tão ou mais eficazes do que as opressões explícitas. Seria lindo se de fato mulheres e homens tivessem o mesmo peso de voz e voto em um ambiente de trabalho. No entanto, na prática, muitas vezes tivemos nossas características profissionais desacreditadas e desestimuladas nesse ambiente, fomos silenciadas em nossas reivindicações, outras tantas ridicularizadas em nossas críticas.
Quando passamos a nos reunir fora do trabalho começamos a perceber que alguns constrangimentos eram compartilhados, que alguns sentimentos eram ecoados pelas poucas mulheres que restavam na redação. Percebemos a dimensão do que ocorria quando cada uma contava sua história e de repente tínhamos uma quantidade enorme de relatos de situações que passavam despercebidas por uma vontade de acreditar naquele rótulo “alternativo”. Pensávamos, assim como sabemos que inúmeras colegas pensam, que em espaços independentes, em ambientes “livres”, em grupos de esquerda, o machismo seria pelo menos combatido por todos, seria uma preocupação de homens e mulheres. A verdade é que isso não acontece.
Por mais que muitos dos nossos colegas homens se declarassem apoiadores das causas feministas, quando eram acusados de posturas opressoras e machistas respondiam com indignação. Alguns simplesmente não reconheciam nossas críticas e muitas vezes adotavam a postura nojenta, tão conhecida por nós mulheres, do escárnio. Outros poucos se sensibilizavam, mas na frente dos outros homens dificilmente bancavam um apoio às nossas demandas e reclamações (muitas vezes fomos taxadas de “exageradas”, de “extremistas” ou de “vitimistas”). 
Tentamos esforçadamente discutir opressões, mas a abertura para a crítica e a autocrítica era quase nula –- chegamos a escutar que os homens sabem o que é ser mulher e que portanto nossas reclamações não faziam sentido. Era cansativo ver que todo esforço, todo debate, a cada novo episódio era como se começasse do zero. Juntas, compartilhando nossas experiências, sentimos o quanto esse machismo aparente nas discussões e na falta de abertura para aceitação a críticas é apenas a superfície de um problema muito mais profundo.
É triste perceber que essa é uma característica dos meios de comunicação alternativos. A imprensa independente brasileira sempre esteve fortemente firmada sobre posicionamentos machistas. A grande referência desse estilo de jornalismo, O Pasquim, já foi acusado inúmeras vezes de machismo, principalmente pela forma como expunha as mulheres -- talvez o maior exemplo seja a famosa entrevista com Betty Friedan. Os membros do Pasquim eram declaradamente antifeministas e ridicularizavam as mulheres que lutavam por seus direitos da mesma forma que ridicularizavam o governo militar.
Reconhecemos que O Pasquim era uma grande influência para nossa produção no Tabaré. E a verdade é que todas nós sentíamos nossas potencialidades diminuídas pela maioria dos homens do jornal, duvidávamos de nossas capacidades, e por vezes nos convencíamos de que eles eram melhores. Nossas pautas eram anuladas, nossas propostas sempre pareciam incoerentes e não "jornalísticas" -- retrospectivamente, avaliando as publicações, percebemos pautas publicadas, escritas por homens, que quando haviam sido propostas por mulheres, foram derrubadas. Sem falar nas críticas textuais, muito mais incisivas; nos conteúdos derrubados por atrasos com a justificativa de desconhecimento sobre o andamento de nossa produção; na desconfiança sobre nossos materiais. 
Éramos mais cobradas, precisávamos dar explicações maiores sobre pautas, matérias, textos, imagens, falhas, atrasos, fontes, modos de escrita e a mesma cobrança era feita em outras áreas, como na diagramação e na administração. A inovação deles era criativa, a nossa era anômala. Colegas elogiavam nosso "crescimento" profissional -- elogios que insinuavam o quão inesperado era esse crescimento e que demarcavam a nossa posição de “aprendizes” ali dentro. Éramos avaliadas inclusive pela nossa forma física. Em diferentes momentos era necessário reforçar que não estávamos ali para flertes, mas para trabalho.
Sabemos que "ser mulher" em nossa cultura é ter nossas capacidades questionadas o tempo inteiro. Somos criadas como sendo o Outro (o estranho, o diferente, a emoção ao invés da razão), somos avaliadas e criticadas constantemente (em relação ao nosso corpo, à nossa capacidade intelectual, à nossa sexualidade e desejo). Essas avaliações e cobranças constantes nos fazem sentir menores, inseguras, temos que estudar e trabalhar o dobro pra conseguir "provar" que somos capazes (e mesmo assim nunca será o suficiente). Lidamos desde pequenas com certas formas dos homens se "colocarem" em relação a nós, através de assédios, do aumento do tom de voz, das risadinhas, dos olhares de desprezo, dos questionamentos sobre nossa racionalidade. Práticas muitas vezes sutis, mas que nos dizem desde cedo qual é o nosso "lugar no mundo", sempre abaixo, atrás de alguém. Com o tempo, muitas vezes passamos a acreditar nessa "verdade". As palavras e os gestos, quando reiterados, têm esse poder de se estabilizarem, de se tornarem "verdades", inscrevendo-se em nossos corpos e subjetividades.
Estar no Tabaré foi sentir ainda mais essa diferença de ser localizada cultural e subjetivamente enquanto mulher e os efeitos dessa diferença. Nas nossas trocas percebemos que em nenhum outro lugar, nem em “veículos convencionais”, nos sentimos tão inseguras em relação ao nosso trabalho. Todas nós, em algum momento, nos sentimos menores do que muitos colegas homens, duvidando da nossa capacidade enquanto jornalistas, fotógrafas, artistas e designers. Todas já sentiram algum incômodo com a negação veemente de que eles eram machistas (afinal, os machistas são sempre os outros). De alguma forma, acabamos acreditando nessas falas, olhares e posturas de superioridade. Caímos na falsa ideia de que éramos mesmo menos capazes, que nosso trabalho tinha menor importância e que nossos incômodos eram “exageros”, que era “tudo coisa da nossa cabeça”.
O irônico é que estes nossos colegas não se encaixam no estereótipo do homem machista agressor de mulheres, totalmente insensível às injustiças e desigualdades que atravessam o social. Pelo contrário, são homens de esquerda, supostamente libertários, muitos inclusive afirmam que são feministas; mas, infelizmente, são homens que esqueceram que são humanos, passíveis de erros e falhas, cheios de incoerências e que carregam em si os preconceitos do seu tempo, o que os impediu de exercer um mínimo de autocrítica e de alteridade. Assim, as práticas desses colegas revelam o lado mais perverso do machismo -- sua capacidade de se mascarar em atitudes que não parecem violentas ou graves, através de conversas leves, de uma falsa inexistência de hierarquia, de elogios (em relação à nossa beleza e aos nossos corpos, a como “a gente tinha crescido” graças à oportunidade de estar trabalhando ali naquele lugar, ao lado de homens tão brilhantes), sorrisos de aprovação, demonstração de interesse em nossa vida afetiva-sexual, etc. 
Homens aparentemente engajados, mas que infelizmente não demonstraram sensibilidade e disposição pra fazer o difícil movimento de ouvir as nossas denúncias e reclamações de machismo, de olhar pra si, pensar sobre as suas práticas e discursos.
Isso não é de maneira alguma algo exclusivo do jornal Tabaré, tampouco dos homens que ali trabalham. Queremos deixar claro que o Tabaré é MAIS UM desses ambientes ditos libertários/alternativos pelos quais nós, e tantas outras mulheres como nós, circulamos. O silenciamento e a objetificação que sofremos nesses ambientes é mais difícil de desconstruir e combater justamente por essa sutileza, por essa identificação libertária das pessoas -- dos homens -- que frequentam esses lugares. Não existe uma oposição escancarada, do machista contra a feminista. 
Existem pessoas que dizem apoiar nossas lutas, compreender nossas posições, mas que não têm nenhuma abertura pra qualquer crítica ou denúncia -- ou até a sensibilidade de olhar para os lados e perceber que está cercado de mulheres que não se sentem à vontade para falar ou participar ativamente de uma discussão. Homens que não perceberam que, em um dado momento, sequer havia mulheres ali, que agora se tratava de uma conversa exclusivamente entre homens, homens que não se importam com essa “repentina” ausência de mulheres e muito menos cogitam ter qualquer responsabilidade ou implicação nesse afastamento.
O machismo está em todos os espaços sociais e em todos nós, seres simbólicos que somos, constituindo a nossa subjetividade e se fazendo presente nas nossas relações mais cotidianas. Ser de esquerda, ter tido contato com discussões sobre desigualdade de gênero, achar bonita a “liberdade sexual” feminina e defender relacionamentos abertos não te fazem um homem que busca pensar e problematizar o machismo. 
Pertencer ao movimento feminista e ter a vida toda questionado as inúmeras injustiças que sofreu por ser mulher não te impedem de às vezes cair na armadilha de duvidar da tua capacidade, de se sentir insegura em relação a homens que estão o tempo inteiro te avaliando e duvidando de ti. O medo da rejeição e do desprezo acaba atravessando nossas existências e por isso muitas vezes nós, mulheres, silenciamos e nos acomodamos a uma posição passiva. Estar e participar da construção desses “lugares” de crítica não te faz uma pessoa “iluminada”, imune à reprodução de relações desiguais.
Queremos, portanto, com este relato coletivo fazer um convite à reflexão por parte das mulheres e homens que estão engajados nesse tipo de projeto: qual o papel das mulheres nas iniciativas independentes? Por que a discussão de gênero sempre é relegada a um papel secundário? Por que outras questões parecem ser mais “urgentes” nesses espaços e projetos “independentes”? São perguntas que nós mulheres precisamos fazer. Entendemos ser fundamental compartilhar experiências (parecidas ou diferentes) para perceber na cumplicidade dos relatos que esses espaços independentes precisam mudar. 
Nós, mulheres, precisamos assumir o protagonismo de iniciativas alternativas e combater toda forma de machismo, a sutil e a violenta. Contamos nossa experiência na esperança de estimular outras mulheres a problematizar esses espaços de “liberdade” que ainda não nos inclui completamente.