quarta-feira, 23 de julho de 2014

O FUNDAMENTALISMO RELIGIOSO APRONTA MAIS UMA

Enquanto isso, no Uruguai...

Eu sempre achei que falar sobre aborto em caso de estupro fosse um bom argumento a favor da legalização do aborto de modo geral. Afinal, o aborto em caso de estupro é permitido na maior parte dos países do mundo (inclusive no Brasil, desde 1940), e mesmo muitas das pessoas que são contra o aborto em outros casos apoiam que uma mulher que engravide após ter sido estuprada possa abortar.
Sem falar que todo o discurso de "a vida é sagrada" desmorona um pouquinho quando a gravidez ocorre através de um estupro. É só ver como os conservadores americanos se embaralham para responder como podem ser intransigentemente contra o aborto e negar a uma mulher que tenha sido estuprada a escolha de abortar. Então eles inventam hipóteses mirabolantes que demonstram o quanto não conhecem nada do corpo feminino e dizem que mulher estuprada não engravida, já que o corpo mata o espermatozoide indesejado (ahn, só nos EUA, mais de 32 mil gravidezes decorrentes de estupro ocorrem a cada ano). 
Homens religiosos de extrema direita
protestam contra aborto de
fetos anencéfalos em 2012
Mas ultimamente os reaças daqui do Brasil decidiram que são contra o aborto em todos os casos, mesmo naqueles permitidos por lei (gravidez por estupro, risco de vida pra gestante, e fetos anencéfalos). Pois é, é isso mesmo: ainda que uma mulher esteja passando por uma gravidez de alto risco, que pode custar-lhe a própria vida, a vida do embrião ou feto (que também acabará se a vida de sua mãe acabar) é mais importante. Vamos deixar nas mãos de Deus, que ele sabe o que faz. Ciência? Leis? Pra quê, né? 
Vamos aos fatos: a mulher deve ter o direito ao aborto se for estuprada e engravidar. Isso é lei há 74 anos. Na prática, a mulher que opta por fazer um aborto em caso de estupro não consegue ser atendida. Há pouquíssimos hospitais no país que se habilitam a isso, e ninguém sabe quais são. Em agosto do ano passado, a presidenta Dilma sancionou um projeto aprovado no Senado regulamentando que mulheres vítimas de violência sexual pudessem ser atendidas na rede pública. Ora, isso é apenas permitir que a lei de aborto em caso de estupro pudesse ser cumprida. Mas os evangélicos encararam a sanção como a legalização do aborto no país.
Mas só a regulamentação não quer dizer grande coisa. Portanto, em maio último, a portaria 415 -- que disponibilizava verba para que o aborto nos três casos previstos por lei pudessem ser realizados -- foi aprovada. A gritaria dos religiosos foi tamanha, e o medo do governo, tão grande, que, poucos disas depois, o Ministério da Saúde voltou atrás. Porém, só descumprir as leis não é suficiente para os conservadores. O Estatuto do Nascituro continua rondando a Câmara. A última agora é proibir a pílula do dia seguinte. Mais ainda: proibir qualquer informação sobre o direito ao aborto às vítimas de estupro. 
Reproduzo aqui a nota da CFEMEA, para que vocês possam se dar conta da ameça de mais este retrocesso: 

"Há algum tempo o deputado Eduardo Cunha se articula para tentar votar já no Plenário da Câmara, o PL 6033/2013, cuja intenção é revogar integralmente a Lei nº 12.845, de 1º de agosto de 2013, que dispõe sobre o atendimento obrigatório e integral de pessoas em situação de violência sexual. Sim, a bancada conservadora e fundamentalista quer acabar com o procedimento que cuida e orienta as mulheres e meninas que são estupradas. Eles não querem que essas vítimas tenham acesso à pílula do dia seguinte, que pode evitar a gravidez fruto de estupro, e também não aceitam o procedimento e o acesso à informação de que essas mulheres e meninas têm direito ao aborto legal. Há também o PL 6061/2013, que propõe alterações no texto da Lei nº 12.845. 
Os projetos encontram-se na Comissão de Seguridade Social e Família da Câmara, e representam o principal alvo de ataque da bancada conservadora neste ano. A questão central é a ação corretiva do governo com outro PL 6022/13, que qualifica 'violência sexual como todas as formas de estupro sem prejuízo de outras condutas previstas em legislação específica' e ainda a 'medicação com eficiência precoce para prevenir gravidez resultante de estupro', o que na compreensão dos deputados da bancada fundamentalista seria a legalização do aborto no Brasil. É importante salientar dois pontos importantes da estratégia da bancada fundamentalista para a aprovação deste tipo de projeto:
1) A argumentação utilizada por eles é a de que a pílula do dia seguinte seria 'abortiva', o que NÃO CORRESPONDE ÀS EVIDÊNCIAS CIENTÍFICAS DISPONÍVEIS, e mesmo que fosse 'abortiva', lembramos que a interrupção voluntária da gravidez resultante de estupro é permitida por lei desde 1940. Portanto, utiliza-se da já prevista desonestidade intelectual da politicagem que manipula o conhecimento em favor dos retrocessos. É importante que a grande mídia se dedique a esclarecer as falsas informações que têm sido ostensivamente propagadas por sites, blogs e fan pages religiosos, que se aproveitam da ignorância e fé de nossa população para a disseminação de informações falsas.
2) A principal mudança proposta pelo PL 6061/2013 restabelece o que chamamos de rota crítica da revitimização das mulheres, a via crúcis das mulheres vítimas desse tipo de violência que se traduz no constrangimento físico e psicológico de prestar queixa em delegacias, fazer exames de corpo de delito e inúmeras vezes serem maltratadas nas delegacias e Institutos Médicos Legais por falta de preparo e dos funcionários. Assim, fica muito mais difícil para qualquer mulher atingir a plenitude de seus direitos. 
VAMOS LUTAR PARA QUE O FUNDAMENTALISMO NÃO ROUBE NOSSOS DIREITOS!"

Faz poucos dias, foi lançado um abaixo-assinado exigindo que o presidente da Câmara impeça que a Lei nº 12.845 seja votada. Porque, se for, com a Câmara conservadora que temos, será aprovado. Por favor, assinem a petição "Não estuprem uma mulher duas vezes". E peçam para que amigxs, conhecidxs e parentes assinem também. 
O principal nome por trás desta lei é o do deputado federal Eduardo Cunha (PMDB-RJ). Da bancada evangélica, líder do PMDB na Câmara, Cunha não é capaz de separar igreja e estado, e quer que seus dogmas religiosos sejam a lei da sociedade. Mas ele sempre vai um passo além: não basta ser contra a união estável homoafetiva, popularmente conhecida como casamento gay -- Cunha tem que apresentar um projeto para criminalizar a heterofobia (é, porque héteros são muito discriminados, e dezenas de brasileiros são mortos todos os anos por serem hétero). Não basta ser contra a legalização do aborto -- ele tem que impedir que o aborto seja proibido em todos os casos, mesmo naquele em que é permitido desde 1940. 
Em março, a revista IstoÉ dedicou a ele uma matéria. O nome era "O sabotador da República", uma espécie de chantagista profissional. Desde janeiro, Cunha diz a interlocutores sobre a presidenta: "Se ela não sabe o que é respeito, vai aprender da pior maneira". O jornal Zero Hora o aponta como o deputado mais poderoso do Brasil. A candidatura à presidência do pastor Everaldo Pereira (PSC, partido de Marco Feliciano e de outros 16 deputados, pasmem!) é obra dele. O apoio de Pereira no segundo turno será usado como moeda de troca para o candidato que pagar mais.
Infelizmente, homens como esses têm enorme poder. Se depender deles, o Brasil vira uma teocracia.
Ontem participei de um hangout muito interessante, organizado pela ONU Mulheres, com o tema Pequim + 20: Mulheres no poder e na tomada de decisões (vídeo inteiro aqui). A cientista política Lúcia Avelar lembrou algo que me deu alguma esperança: que "nossos" representantes no Congresso são muitíssimo mais conservadores que a média do povo brasileiro. 
E é verdade. Temos apenas 8,6% de mulheres na Câmara. A bancada evangélica é o dobro (e calcula-se que vai crescer nas eleições deste ano). E isso sem contar os deputados retrógrados de outras religiões. Essa gente obviamente não nos representa. Mas tem poder pra mandar no corpo de todas as brasileiras.
Não vamos nos render.

terça-feira, 22 de julho de 2014

GUEST POST: EXISTE MEIA RECUPERAÇÃO?

A A. me enviou este relato:

Lendo o terrível post da S., fiquei pensando na questão da recuperação, de como o trauma te altera, de como ecoa pela vida.
Minha família é pseudo-conservadora, do tipo que não sabe onde se situa, mas que atende a maioria dos requisitos. Catolicismo Romano brabo, respeito militar aos pais e autoridades, racismo, classismo, homofobia, o lote todo (mas só em casa, não na frente dos outros). E eu cresci internalizando tudo isso. Meus pais eram austeros e acreditavam na boa educação da cinta. 
Quando veio a puberdade, minhas amigas não suportaram a ideia de eu nunca ter beijado ninguém ainda aos 13. Fui a uma festinha junina escolar e beijei um rapaz, por pressão das tais. Todo mundo menos eu ficou feliz, mas encerrou a questão por um tempo.
No ano seguinte eu conheci um amigo de amigo de amiga, sabe. Ninguém conhecia muito bem, mas achava legal. Ele tinha 18 anos, era quieto como eu, conversávamos bem. Comecei a sair com ele sem ninguém saber (imagina o escândalo em casa). Saímos por um ano. E muita cagada que eu não tinha como processar na época aconteceu nesse ano.
Ele era um excelente manipulador. Agia como se fosse o cara mais sossegado na face da terra, vivia afirmando que isso de ciúme era bobeira, mas em certos momentos, me agarrava e dizia que era bom mesmo que eu era dele, me dizia pra usar certos tipos de roupa pra ele, que ele gostava de ver os outros caras me olhando na rua, sabendo que eles não podiam fazer nada. Ele sempre falava calmamente, nunca, jamais levantava a voz ou dizia algo ofensivo. Era tão diferente do que acontecia em casa que era intoxicante.
Nos primeiros meses ele era contido nas ficadas. Pedia licença pra tudo, perguntava se tava tudo bem, se eu gostaria que ele fizesse tal e tal. À certa altura ele começou a perguntar de sexo. Casualmente inseria sua namorada anterior no meio de conversas, de que ele tinha sido o primeiro dela.
Eu sempre insisti que não estava interessada nisso por enquanto, e ele sempre aceitou. Mais ou menos nesse tempo ele começou a agir diferente. Trancava a porta do quarto, apesar de irmos à sua casa apenas quando estava vazia. Ele começou a fazer coisas agressivas. Me morder, beliscar, sem pedir. Uma vez puxou meu cabelo e mordeu tanto meu pescoço e ombros que tive que cobri-los por um mês -- algumas mordidas ficaram quase pretas. 
Numa outra ocasião, ele pôs as duas mãos no meu pescoço e me asfixiou, pausadamente, por uns 20 minutos. Quando ele parava ele me acariciava, beijava, dizia que fazia isso com a ex e ela adorava.
Eu comecei a ficar ansiosa com ele. Não queria vê-lo, não queria ver minhas amigas, não queria estar em casa. Sentia que não tinha uma alma no mundo em que pudesse confiar.
Ele notou minha distância, começou a me mandar presentes via conhecidos, com declarações, também contidas, no início. Após uns dois meses de relativo silêncio, ele me mandou uma carta muito perturbadora. Ele dizia que estava morto de medo de ter me perdido, que não entendia o que havia acontecido, que meu comportamento era cruel, que ele estava se acabando, sem saber o que fazer.
Eu comecei a vê-lo de novo. Não ficamos por um tempo, apenas conversávamos. Quando começamos a ficar de novo, ele estava muito, muito violento. Não esperava eu entrar no quarto, me agarrava pela mandíbula, com um braço pra trás, e me pressionava contra a parede. Tirava minha blusa sem pedir, mordia meus seios dolorosamente, e meus lábios até abrirem cortes, cravava os dedos no meu estômago. Sempre calmo, sempre dizendo besteirinhas acolhedoras, sempre afirmando que era tudo aprovado pela ex.
Eu já estava um caco a essa altura. Não sabia como sair dessa, pensava na carta, pensava no massacre que seria contar aos meus pais. Eu queria sumir do mundo.
A internet ainda engatinhava na época, mas acabei fazendo um amigo em Portugal através de uma lista de discussão literária, e apesar de apenas discutir vagamente meus problemas com ele, ele me deu um gás pra decidir deixar o cara pra trás.
Fui à casa dele com a inabalável intenção de terminar, não importa o que ele dissesse. Agora preciso falar da questão da intuição e do medo, que tem sido abordada bastante aqui. Eu tinha uma sinfonia de alarmes disparando na cabeça enquanto ia à casa dele. Todo tipo de 6º, 7º, 8º sentido me dizia que era péssima ideia. Era algo bem abstrato. Eu malemá estava a par do conceito de estupro, não era isso que me passava pela cabeça, apenas pensamentos vazios, atordoados, de "algo ruim". 
Mas eu ignorei essas intuições. Eu realmente acreditava, honestamente, que toda aquela agressividade era só coisa dele, de homem, que ele fazia isso com a outra namorada, que eu apenas não estava pronta, que ele me respeitaria se eu não quisesse fazer nada (não que ele andasse perguntando, mas eu pensei, oras, eu também não andei negando).
Pedi pra conversar e nos sentamos civilizadamente. Eu lhe disse que não queria mais esse tipo de relacionamento, mas que poderíamos continuar amigos.
Ele acenou com a cabeça, levantou-se vagarosamente e trancou a porta. Eu gelei. Ele começou a me beijar e me despir. Eu o empurrava, pedia pra parar, ele ignorava, não dizia nada dessa vez. Eu comecei a tremer, meus olhos encheram de lágrimas, eu olhei pra janela, tinha um vizinho a um grito fácil de distância. Nesse momento senti algo duro cortando contra o meu pescoço, era o cinto dele. Eu tive uma fisgada de certeza que fosse morrer. Ele fez o mesmo esquema que havia feito com as mãos da outra vez, me asfixiando pausadamente. Eu estava petrificada.
Eu acho que tive um orgasmo involuntário. Um psiquiatra insistiu que, devido à asfixia intermitente, é bem mais provável que tenha sido simplesmente um leve desmaio, ou até despersonalização. Não sei mesmo. Eu tive desmaios desde então. No entanto, nunca mais tive a sensação de novo, pra comparar. 
E essa é uma das questões. Isso tudo ocorreu onze anos atrás. E eu sinto que, bem, não "superei", entende? Eu nunca mais consegui fazer sexo. Sequer consigo pensar sobre sexo sem virar o estômago.
Nunca contei à minha família, nem amigos. Nos anos seguintes fiquei com depressão, parei de comer, parei de ir à escola. Meus pais não sabiam, nem perguntavam, qual era o problema. Um dia me levaram à força ao hospital, e fui mandada ao psiquiatra, que diagnosticou depressão. Passei a tomar medicação, voltei a comer, a ir à escola, mas eu basicamente não "estava mais lá". Não sentia mais nada.
Não sei precisar quantos anos foram assim, chuto uns 4 ou 5. Eu basicamente fui quicando pela vida sem dar a mínima, daí gradualmente foi ficando menos pior, e menos pior, até que era só ruim, e daí tolerável.
Mas não passou um dia sequer nesses 11 anos em que eu não tenha pensando em morrer. 
Ainda sim, os últimos anos foram melhores. Em algum ponto comecei a sentir de novo, a conseguir me emocionar, a tentativamente imaginar um futuro.
Mas eu sinto que ainda não voltei, não completamente. Eu posso viver "corretamente". Eu consigo trabalhar, sair, me interessar por coisas. Mas no fundo me parece artificial, como se as outras pessoas fizessem tudo genuinamente, porque querem, e eu faço apenas porque... bem, por que não? Tenho horas pra preencher. Ainda sinto que tô quicando.
Eu tentei terapias alternativas à psicologia, um retiro religioso. Tentei uma outra medicação dois anos após ter descontinuado a primeira. Eu fico bem, no geral. Mas ainda é aquele bem "que seja".
E isso, bem, me assusta, e me irrita. Já foram 11 anos.
Faz dois anos que descobri o feminismo, que venho desprogramando toda a merda que aprendi. Eu sei que é um processo, eu sei que admitir certas coisas em você te faz sentir mal (com razão). Leio relatos de sobreviventes tão fortes, que arrumaram a vida, que estão bem agora. Não sei quantos anos levaram, mas acho que nem foram tantos.
Mas eu não consigo. Quando alguém me toca, é involuntário, eu odeio a sensação. Eu odeio ouvir sobre sexo. Estou ciente de que há sexo saudável, mas eu não tô falando de teoria. É imediato, instintivo.
Minha atual terapeuta diz que sim, é possível que esta fase nunca passe, que tem gente que fica a vida toda correndo de si e não ganha. Mas que, concomitantemente, há casos de gente saindo feliz de uma lama de 15, 20 anos. Que realmente, isso não tem padrão.
Faz sentido, eu acho. Fico pensando se não é questão de simplesmente admitir, talvez aceitar o fato de que alguma coisa quebrou de vez. E agora é assim. Sei lá, talvez o incômodo seja mais pelo o que acho que deveria estar sentindo?
Bom, é isso. Não sei bem se tem alguma questão aí que você possa dar uma luz. Mas é que meia recuperação não é algo que vejo muito por aí.

Meu comentário: Querida A., sinto muito pelo que você passou. Você obviamente não tem culpa de nada, mas espero que algumas meninas e mulheres captem algumas dicas baseadas no seu relato: 1) siga sua intuição. Se tem algum alarme interno apitando, respeite este aviso; 2) não caia nessa da pressão social. Só porque a "ex-namorada fazia" ou "todo mundo faz", não quer dizer que você tenha que fazer. Só faça qualquer coisa se você quiser; 3) quando for terminar um relacionamento com alguém que por algum motivo te amedronta, marque para fazer isso num lugar público, como numa praça ou parque (à luz do dia), ou lanchonete. Infelizmente, o que o ex de A. fez -- estuprar como vingança -- não é nada incomum (lembre-se: estupro está mais relacionado com poder, humilhação e dominação do que com sexo); e 4) denuncie sempre um estupro. 
Não sei se posso te ajudar em alguma coisa, A. Só vou te dizer o que você já sabe: as pessoas têm tempos e maneiras diferentes para curar as feridas e superar traumas. Não existe fórmula, não existe prazo certo. Eu acredito sim que você vai sair dessa. E eu também acredito em "meia recuperação". Você passou por essa experiência horrível quando tinha apenas 14 anos, uma menina. Você está passando por uma longa fase. O pior já passou. Você admite que os últimos anos foram melhores. 
Tenho certeza que os próximos serão ainda melhores, que você vai reencontrar seu equilíbrio, você vai "voltar". E não se pressione, porque quando chegar a hora, o momento, o parceiro em quem você pode confiar, a vontade de fazer sexo também virá. 
Você vai conseguir superar. Você faz terapia e tem total consciência de tudo que te aconteceu. Fico na maior torcida por você.

segunda-feira, 21 de julho de 2014

ENTREVISTA SOBRE DEPILAÇÃO E OUTRAS IMPOSIÇÕES

Anúncio de cera para depilação: "Seja lembrada". Você, mortinha, não vai querer que as pessoas pensem das suas pernas peludas, né?

Ano passado, uma jornalista de um grande jornal me entrevistou sobre depilação, a partir de um artigo que havia saído no The Guardian. Que eu saiba, o artigo nunca foi publicado. Como tenho pouquíssimos posts sobre depilação, vou deixar a entrevista aqui.
Recentemente, li uma notícia interessante sobre uma professora de Estudos de Gênero na Universidade do Arizona. Na sua disciplina, ela dá pontos a mais a alunas que deixarem de se depilar durante o semestre e registrarem sua experiência num diário. Os alunos também recebem crédito extra se se depilarem do pescoço pra baixo. Parece uma ótima ideia!
Se eu desse aula de Estudos de Gênero (eu mais ou menos dou, mas é curso de extensão; logo, sem avaliação) e não de Proselitismo Comunista I, como apontou ontem um leitor, eu bem que implantaria essa ideia. 
Aqui a entrevista:

- Como você acha que um grupo como esse do Reino Unido, de mulheres contra a depilação, seria recebido e avaliado no Brasil?
Eu: Por grupos alternativos e feministas, o movimento contra a depilação seria bem recebido. Por pessoas mais convencionais, seria recebido a pedradas, porque vai contra um dos símbolos da femininidade, que é a pele sem pelos. Qualquer coisa que vai contra os padrões enfrenta resistência numa sociedade ainda muito tradicional como a nossa.

- Você acha que estamos vivendo uma ditadura dos pelos? Por quê? Pode citar alguns exemplos?
Sim, a imposição de estar sempre sem pelos parece uma ditadura. Como em todos os outros padrões de beleza, não há lugar para a diversidade. Através da mídia, nosso olhar é treinado para aceitar apenas um tipo de axila. 
Algumas décadas atrás,
"ursinho de pelúcia". Hoje,
alvo de gozações
Mesmo entre os homens héteros está começando a haver uma imposição de que peito sem pelo é que é bonito. É só ver como fazem piada com o Tony Ramos. Mas, claro, pra variar, pra mulher é muito pior. 
A imposição para que mulher não tenha pelo nas axilas, embaixo do nariz e nas pernas existe há muito tempo. Mas, na minha adolescência, na primeira metade dos anos 80, era raríssimo mulher depilar a vagina. A gente tirava o excesso, o que ficava pra fora do biquíni, e só. Basta comparar como as modelos e atrizes que posavam nuas pras revistas apareciam na época e hoje. 
Por causa da influência da pornografia, que ficou cada vez mais mainstream, atualmente o que é visto como "normal" é a vagina sem pelos. Os médicos podem dizer que tirar os pelos púbicos é anti-higiênico, porque os pelos protegem, mas, pro senso comum, criou-se a ideia de que pelos é que são anti-higiênicos. 
Tem um filme pouco conhecido de 2007 chamado Towelhead que começa com uma menina de 13 anos depilando a vagina. O motivo é que ela está sendo sofrendo bullying na escola, sendo chamada de Chewbacca (aquela criatura peluda de Guerra nas Estrelas) depois de nadar numa piscina. Hostilizar alguém que está minimamente fora das convenções é impor.

- Por que você acha que as mulheres, desde a adolescência, são ensinadas a pensar que é melhor retirar todos os pelos para serem femininas? O que pensa a respeito?
Tem o lado capitalista: depilação é uma indústria de bilhões de reais. Somos ensinadas desde cedo de que muito do que é natural nos nossos corpos é feio, sujo e indesejado. Precisamos consumir sempre, e cada vez mais cedo, para tentar alcançar um padrão que é sempre inalcançável. 
Hoje existem spas para meninas de 8 anos, meninas que obviamente não têm pelos nem linhas de expressão, mas já recebem tratamento "preventivo". E, claro, já recebem a lição de que ter pelos ou rugas é horrível e moralmente errado, praticamente um desvio de caráter. 
Além do lado mercadológico, existe também a suspeita de que é mais fácil dominar quem tem a autoestima baixa. Nós mulheres temos a autoestima baixa porque sabemos que não nos parecemos com as 500 imagens que vemos por dia na mídia. E, ao mesmo tempo, somos ensinadas que nossa maior qualidade deve ser a beleza física. É difícil fugir. 
Cartaz Marcha das Vadias Cuiabá 2014
O padrão único de beleza, no qual a ausência total de pelos está inserida, não impõe apenas que ser magra e ter cabelo liso e não ter pelos é o que é bonito. Esse padrão também nos diz que qualquer coisa que escape disso é suja e moralmente condenável. 
Anúncio de creme para
depilação: pelo ou cabelo?
E as pessoas acreditam: ter pelos não é só considerado anti-estético, mas também anti-higiênico. Ser gorda não é só ser feia, é também ser doente e descontrolada. Não estar dentro do padrão de beleza é por em dúvida a nossa femininidade. E, querendo ou não, o gênero é algo que nos define desde que nascemos. Portanto, se você é mulher e não se depila, muita gente não te considerá feminina e nem hétero, e fará um enorme patrulhamento pra te levar ao "bom caminho".

- Você acredita que o preconceito contra pelos é maior por parte dos homens ou das próprias mulheres?
Liberdade e independência para
mulheres é... não ter pelos
Não sei. Nós mulheres somos grandes patrulhadoras umas das outras. Muitas de nós validamos o machismo ao dizer coisas incrivelmente ofensivas que jamais diríamos a um homem. Então certamente há um grande preconceito das próprias mulheres em relação aos pelos. Mas tenho visto muitos homens jovens chamando de "nojentas" mulheres com pelos púbicos. O padrão de mulher sem pelo nenhum vem da mesma sociedade, e a mensagem é recebida por homens e mulheres. O preconceito é geral. Creio que é mais comum entre os jovens.

- Você mesma tem o costume de se depilar com frequência? Como são seus hábitos?
Cartaz da Marcha das Vadias de 2013
de BH: "Se amar meus pelos é ser
vadia então eu sou vadia"
Tive a "sorte" de nunca ser muito peluda, então nunca fiz buço ou modelei a sobrancelha. Meus pelos demoram pra crescer e não são tão visíveis. Mas durante vários anos eu fiz depilação com cera nas axilas e na metade da perna. Eu detestava, porque doía muito. Depois de uma sessão especialmente dolorosa com uma vizinha, decidi que não queria mais passar por essa tortura medieval. Isso já tem uns quinze anos. 
De lá pra cá, só me depilo com gilete. Não é nenhuma perfeição, e minhas axilas não são claras e lisinhas como as de comerciais de desodorante, mas pelo menos não dói nem custa nada. Agora, nos pelos púbicos, é só uma aparada com tesoura muito de vez em quando. Afinal, sou da geração em que ver a Claudia Ohana nua na Playboy não causava tanta estranheza.
Anúncio de creme para depilação mostra pelos púbicos como mata a ser desbravada

P.S.: Por coincidência, na mesma data em que fiz este post, o Terra publicou um artigo dizendo que a depilação de pelos púbicos pode aumentar o risco de doenças sexualmente transmissíveis. O lado positivo é que a depilação erradica os piolhos púbicos, os chamados chatos. Ok, eu podia viver melhor sem lembrar de piolhos nos pelos humanos (inclua aí barba, bigode e até cilios).