sábado, 24 de janeiro de 2015

GUEST POST: "NÃO HÁ O QUE PROVAR, E SIM O QUE FAZER"

Sempre me perguntam se o Nordeste é uma região mais machista que as outras. 
Eu não sinto essa diferença. Já vivi no Sul e Sudeste, e na Argentina e nos EUA, e vi machismo por todos os cantos. 
Mas o relato da J., que tem 40 anos e é professora e sindicalista, mostra uma realidade muito distante da minha: 

Venho de uma família com mais três irmãos. Hoje posso analisar com tranquilidade como é ser mulher entre homens. Meu pai veio de família muito pobre, sem estudos, a vida na roça afastava da escola. Encontrou no exército o caminho para mudar de vida. 
Minha mãe nos criou em meio a animais de todos os tipos; galinhas, porcas, cabras, patos, e até vacas para vender o leite. Plantava capim para os animais, milho, feijão. Por aí, já dá para perceber que somos do sertão do Seridó, RN. A seca nunca foi empecilho para continuar trabalhando. Meu pai sempre viajando, minha mãe sempre comandando tudo. 
Fomos criados debaixo do chicote, tudo era motivo para apanhar. Foi a forma com que minha mãe foi educada. Meu avô era muito bruto. Foi assassinado pelo genro, e isso gerou na minha mãe uma revolta capaz de fazer com que ela passasse anos e anos seguindo os passos dele. Pelos relatos, ela sempre foi à frente de seu tempo. Vestia calça, sapato, chapéu, e montava cavalo. 
Como foi o namoro dos meus pais, eu não sei. Mas ele diz que ela chegou um dia e perguntou: Quer casar? Se não, vá passando! Quando queria algo, não pedia, fazia. O que eu mais gostava era quando papai chegava depois de uma viagem longa. Era uma tranquilidade, só que ele levava meus três irmãos para passear, e eu ficava com mamãe, pilando pimenta para as buchadas que ela fazia, e que não conheço quem faça tão gostosa. 
Igreja do Rosário hoje, em Caicó,
região do Seridó, RN
Ela sempre nos levou para passear por todos os cantos. Dizia que tínhamos que expandir a ruindade. Ela era pai e mãe; em casa, na escola, na igreja, em todo canto, e ele sempre mais calado, calmo, brincalhão. Mamãe não fazia distinção na forma com que conversava com homens e mulheres. Em casa, todos tinham que fazer suas tarefas.  
Fui crescendo e vendo que a situação para mim era mais difícil que para meus irmãos. Na escola, sempre gostei de conversar com homens, tenho até hoje amizades cativas. Não fui criada com vaidades, a forma dura que minha mãe nos ensinou talvez tenha ficado gravada para sempre. 
Mas me revoltava quando queria sair e não podia. A verdade é que a escola era minha fuga. Nela, eu era dona de mim. Ficava impaciente quando via aquela turma de meninas de um lado e meninos do outro. Coisa mais chata. Não teria como ficar todos juntos, não? Ah, e eu fui. Na mesma hora, percebi como fui olhada por elas. E o que há de errado, pensei. Ali, me dei conta que somos diferentes, não podemos andar e conversar com homens se não for para namorar. Valha! 
Escola em Caicó (sem relação
com o texto)
Meu primeiro beijo foi horrível, o rapaz olhou para mim e disse: Você nem sabe beijar! Rebati: E você sabe? Ele ficou irado por eu enfrentá-lo. E as regras foram aumentando para mim. Não pode ir pra praça, vai virar rapariga. Não quero que você ande com essa menina, ela parece puta. 
Lembro de um dia em que levei um namorado para casa. Quando entrei, recebi uma mãozada na cara. Essa bicha nasceu para ser puta! Não apanhei mais, pois meu pai tomou a frente. Primeira vez que fui para uma festa, minha mãe mandou meu pai ir para a porta do clube. O tempo foi passando, eu não notava que ela definitivamente não queria que eu namorasse. Eu deveria estudar e terminar o segundo grau e ficar em casa. Faculdade? Nem sonhar, era coisa para os meninos. E fui me anulando. 
Mesmo assim, as coisas foram acontecendo. Perdi a virgindade. Nem lembro mais como mamãe soube. Acho que a família do rapaz começou a conversar. E já viu, né? Aqui, quando a moça perde a virgindade, é assunto de muitos anos. Poxa! Todo mundo comenta. Parece que é público. 
Estava trabalhando numa escola particular, mesmo sem que meu pai aceitasse, pois filha dele, ele podia sustentar. Com 18 anos, meu então namorado, atual ex-marido, me convenceu a abortar. Foi o pior dia da minha vida. Parecia que estava sendo enterrada viva. Era como aqueles filmes de terror que nunca amanhece. Ele conseguiu tudo. Parecia o capeta dizendo que agora não. Enfim, fiz. Quase morri, e ele pulando carnaval. Passou. Continuamos juntos, e um tempo depois, outra gravidez. 
Dessa vez ele disse: agora não tem como abortar, você pode morrer. Me senti como gado no pasto sendo levada para onde ele quisesse. O dia do casamento foi tão sem graça, precisava casar? Casei. 
No sexo, nunca fui santa. Levava para a escola as revistas dos meus irmãos. Aprendi oral sem nem fazer. Não entendia porque toda vez que fazíamos meu ex-marido perguntava com quem aprendi. Isso me deixava sem jeito. Depois, ele disse que a filha não era dele, já que era loirinha. Só vivemos bem durante dois anos. Depois disso, comecei a acordar. 
O jeito com que fui criada não batia com a criação que ele recebeu. A mãe não podia conversar com o vizinho que era chamada de rapariga pelo marido. Eu só podia sair de casa se fosse com alguém. Foram anos difíceis, tentei deixá-lo várias vezes. Queria estudar, ele dizia que mulher que queria estudar era pra passar chifre no marido. Se eu conversasse com um homem, estava chifrando. 
Um dia, ele me disse que a certidão de casamento era a posse dele sobre mim. Comecei a me revoltar. Comecei a estudar para concursos. Tentei um de Oficial de Justiça, naquela época bastava segundo grau. Foi um inferno. No dia das provas, só o ouvia dizer: Você não passa! Fiz um para professora do Estado, passei e nunca fui chamada. Tentei para o município, e ele dizia que este era bom, pois eu não receberia mais que ele. 
Fui chamada, fiz faculdade, e ele dizendo que não precisava. Tentei me separar três vezes. Ele dizia que eu queria ser rapariga. E cada dia foi ficando mais possessivo, me sufocando. Houve dias de ameaçar me bater. Reagi com o que tinha mais próximo das mãos, uma faca. Eu disse que se ele me batesse, que fosse para matar, pois se eu me levantasse, não teria médico neste mundo que o costurasse. 
E a revolta fez com que eu tivesse a atitude de dar um basta. Meus pais se separaram depois de trinta anos de casados, e eu tinha que me sujeitar a ser chamada de rapariga dentro da minha própria casa? Enfrentei. Ele me perseguiu. Primeiro disse que não era para eu sair de casa no Carnaval, pois iam dizer que ele era corno. Ainda passei seis meses tendo paciência. No fim, mandei que ele saísse de casa. Quando minha filha pediu para ele sair, ele saiu. 
Praça em Caicó hoje
Meu nome virou conversa de bar para ele e os amigos. Ele disse que se separou porque eu o traí. Que eu tinha virado prostituta, toda essa merda que eles dizem. Aqui em Caicó, na região de Seridó, quando uma mulher se separa, vira alvo dos amigos do ex. Eles apostam entre si quem vai pegar primeiro. 
O fato de dormir em paz era um sonho realizado. Enfrentei o preconceito da família dele. Minha mãe e meu pai estavam mais preocupados em ele como policial não me matar. Eu, estava mais preocupada em ser livre, e levar comigo minhas duas filhas. 
Ele tentou me deixar na rua, levar minhas filhas e minha reputação. Dane-se minha reputação! Uma de minhas filhas, com 18 anos hoje, foi minha maior cúmplice. Ela sabia que o salário que eu recebia como professora não nos sustentaria. Orientei que ela fosse comer na casa da avô materna. E eu me alimentava da merenda da escola. 
Sou uma sobrevivente de uma relação que poderia ter sido diferente, se não fosse o pensamento machista do meu ex-marido. Separei não por não gostar mais dele, mas por escolher respirar.
Tenho orgulho de educar minhas filhas para que não sofram e nem sejam objeto de perpetuação do machismo. Ser sindicalista é mais uma vitória nesse meio tão machista. Não preciso provar nada para ninguém. Não sinto que sou uma mulher, um ser diferente, no meio de muitos homens. Sinto que somos pessoas. Não há o que provar, e sim, o que fazer. 

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

ENTREVISTA SOBRE O STALKER DO BBB

Eu tentei ver uns pedaços do BBB15, mas que programa ruim! Acho que não consigo mais ver TV diariamente, ter que se ater a horários. E também, como competir com quem tem pay-per-view e assiste BBB o tempo inteiro? Lembra muito um grande filme, Truman Show, e a ausência de ter uma vida própria
Enfim. Mas me orgulho de ter sido uma das primeiras a ter noticiado que Adrilles é um stalker. Semana passada publiquei o relato da G., e dois dias depois a história da "Ana", que foi mal contada pelo Extra. De lá pra cá, vários reaças me atacaram para defender o Olavette (que, pelo que vi, ainda não falou de política no programa), e fãs do BBB em geral duvidaram das vítimas. Normal.
Um Tumblr foi inaugurado
Incrível que ainda existam dúvidas, principalmente depois que a mídia tradicional deu destaque a algumas "vítimas" (entre aspas porque não sei se elas se consideram vítimas), como a ex-BBB Analice (que disse que ele é "um pouco mais freak do que eu pensava") a blogueira de moda plus size Maristela, que mostrou algumas conversas em que ela dizia a ele "tá estranha essa conversa" e "vc tá me assustando". Já vi que há gente que só vai acreditar se Adrilles stalkear alguém ao vivo no programa (como se stalkers agissem assim publicamente...).
Mensagens entre Maristela e Adrilles
Vários veículos me enviaram emails pedindo para entrevistar G. e "Ana", mas elas se recusaram. Já vou avisando que, se alguém quiser me processar, eu tenho provas referentes ao que publiquei (mas não posso mostrar, em respeito ao pedido de uma das vítimas). 
Anteontem dei uma entrevista para a Patrícia, do R7, que publico aqui: 

- O que é um stalker?
Resp: Stalker é uma pessoa tão obcecada por outra que a persegue incansavelmente. Na grande parte dos casos o stalker é homem e persegue mulheres que terminaram o relacionamento com ele ou não lhe deram a atenção que ele acha que merecia.

- As pessoas confundem o "romântico em excesso" com o stalker?
Resp: Acho que é o contrário: as pessoas confundem o stalker com o "romântico em excesso". Um exemplo disso é a clássica canção do Police, "Every Breath You Take", que o senso comum vê como uma música romântica, tanto que vez por outra é até usada em casamentos. É o mesmo que muita gente acha de ciúmes, que não ter ciúmes é não amar. Como se ciúmes ou qualquer obsessão fosse algo positivo. Uma pessoa romântica aceita um "não" e respeita os limites da outra. Já o stalker, não.

- Como identificar um stalker? E como agir com ele na hora que ele "ultrapassar os limites"?
Conversa de ex-BBBs
sobre Adrilles
Resp: Geralmente o stalker tem um histórico. Ele não está perseguindo alguém pela primeira vez. Já perseguiu outras pessoas antes. Por isso é importante acreditar nas vítimas. Se uma amiga te diz para tomar cuidado com aquele cara, convém tomar cuidado. O ideal é cortar todo tipo de contato com o stalker assim que ele mostrar os primeiros sinais de obsessão. Por exemplo, alguém que você mal conhece mas que já pesquisou na internet e descobriu toda a sua vida -- isso é um péssimo sinal. Ou alguém que descobre seu telefone e fica ligando insistentemente pra sua casa. Tem que deixar bem claro que você não quer nada com ele, que não adianta insistir. É comum a mulher querer ser educada, polida, cortar gentilmente. Com stalker não funciona. Tem que ser firme e cortar todo tipo de contato, deletá-lo nas redes sociais, bloquear email, não responder. E, se ele insistir, fazer boletim de ocorrência.

- O Adrilles, do BBB, perseguiu várias mulheres. Algumas entraram em contato com você, como foi isso?
Resp: Assim que o nome dele foi anunciado no BBB15, apareceram vários boatos nas redes sociais de mulheres dizendo que foram perseguidas por ele. Saiu também uma matéria mal contada no Extra, narrando a vez em que ele acabou com o casamento marcado de uma moça por quem era obcecado. Uma dessas moças me enviou um email contando sua história, que é bastante leve em comparação a outras. Eu publiquei esse relato com o título que ela me mandou, "Meu stalker entrou pro BBB". Porque imagina só, é muito chocante você ver uma pessoa que te perseguiu, que te aterrorizou, num programa de TV. 
No dia seguinte, uma pessoa diretamente envolvida com a história do casamento também me enviou um email, e então vi que o padrão de stalking era ainda pior. Adrilles perseguiu durante dez anos uma moça que conheceu na faculdade. Ela teve que largar o emprego por causa dele. Ele só parou quando, no Juizado Especial Criminal, assinou um termo se comprometendo a não se aproximar dela por mais de 500 metros, a não ligar mais pra casa dela ou de amigos dela.

- Por que você decidiu contar a história delas?
Resp: Porque costumo acreditar nas vítimas. No meu blog, que está completando sete anos, há inúmeros relatos de mulheres, e de homens também, que sofreram algum tipo de violência. Creio que é menos difícil superar um trauma quando você vê que não está sozinha, que isso que está acontecendo com você já aconteceu com outras pessoas. 
É importante que as pessoas vejam que stalking não é bonito, não é romântico, não é um elogio ou uma prova de amor. É uma obsessão doentia. Como alguém com este perfil pode ter sido chamado para participar de um programa de TV, ainda mais um programa que diz que seus participantes passam por exames psicológicos, é uma incógnita.

- Qual foi o impacto que Adrilles causou na vida destas mulheres?
Mensagens de Adrilles
divulgadas pela ex-
BBB Analice
Resp: No caso da moça que ele perseguiu durante dez anos, ela teve que largar o emprego, pois ele foi trabalhar onde ela trabalhava. E ela teve tanto medo que só ia para o seu carro acompanhada do segurança da empresa. Ela tentou fazer boletim de ocorrência, mas não pôde porque o terror é psicológico, não físico. A sugestão do delegado foi que o noivo desse uma surra em Adrilles. Foi uma década de perseguição, e isso que essa moça nunca mostrou o menor interesse por ele. É um trauma grande ser alvo de um stalker. A vítima passa a temer que isso se repita em outros relacionamentos, passa a desconfiar das pessoas, tem pesadelos. Afinal, um stalker mostra que amor e ódio caminham juntos. O "eu te amo" rapidamente se transforma numa ameaça de morte na primeira negativa. Eu conheço casos em que a mulher teve que fugir, ir morar em outra cidade.

- Você citou, em seu post sobre o Adrilles, o caso de estupro no BBB. Qual é a sua opinião sobre o assunto?
Resp: Eu e muita gente achamos que o caso do estupro no BBB12 nunca foi bem esclarecido. O mais terrível foi ver Pedro Bial dizendo "o amor é lindo" enquanto o Brasil inteiro comentava sobre o que aconteceu embaixo do edredon, com uma participante desacordada.

- O BBB é um programa machista?
Resp: O mundo ainda é um lugar muito machista, e as representações que vemos na mídia costumam ilustrar bem esse machismo, esse racismo, essa homofobia. Eu não diria que o BBB inteiro é machista, depende dos participantes e da edição, do que o programa escolhe mostrar. Mas é sempre lastimável quando o BBB seleciona participantes preconceituosos como Marcelo Dourado, ou stalkers como Adrilles. Certamente o BBB conhece o perfil deles.

- Em seu blog, há textos criticando o programa e alguns participantes, como o Dourado. Do seu ponto de vista, o reality faz com que crimes como estupro, preconceito e perseguição sejam naturais?
Resp: Ainda não sabemos se esta faceta de Adrilles virá à tona na TV. É óbvio que os outros participantes, e o próprio Adrilles, não sabem que há várias mulheres dizendo que ele é um stalker. Se esses traços obsessivos dele aparecerem, não sabemos se a edição irá destacá-los ou escondê-los. Os programas de TV normalmente naturalizam crimes porque são programas superficiais, com pouco ou nenhum espaço para críticas e questionamentos. Não sabemos quanto tempo Adrilles ficará no programa. A torcida das vítimas é que ele saia o quanto antes.

- Tem algo a acrescentar sobre o assunto?
Resp: É incrível como as pessoas são rápidas em desacreditar as vítimas. São muitas mulheres denunciando que Adrilles é stalker -- todas estão mentindo? Outra crítica que ouvi é que elas estariam querendo aparecer. Como, se insistem em permanecer anônimas? 
Gostaria que as pessoas se colocassem no lugar das vítimas. Como se sentiriam ao ver no horário nobre um sujeito que fez de tudo para arruinar a sua vida? Achariam isso romântico? Bonitinho? Divertido?

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

COMO AFASTAR MULHERES E NEGROS DAS ÁREAS DE CIÊNCIAS QUANDO MAIS SE PRECISA DELXS

Este artigo de Jennifer Selvidge mostra algumas das dificuldades que uma mulher enfrenta na área tecnológica, uma área ainda vista como masculina. Pedi à querida Elis para que o traduzisse:

Todxs nós já ouvimos as notícias preocupantes: precisamos de um milhão de novos profissionais formados nas áreas de CTEM (Ciências, Tecnologia, Engenharia e Matemática), estamos em uma crise. [No Brasil também é assim: calcula-se que temos um déficit de pelo menos 40 mil engenheiros]. No entanto, nós, como sociedade, parecemos estar sofrendo de alguma espécie de dissonância cognitiva, porque com o mesmo fervor, ou ainda mais, estamos desencorajando sistematicamente mulheres e pessoas negras de buscarem formações e carreiras nos campos de CTEM.
Estou no último ano da minha graduação no MIT (Massachusetts Institute of Technology), sou engenheira de materiais, uma estudante com notas altas, e sou mulher. E também já ouvi centenas de vezes que não mereço estar onde estou. As decisões de admissão do MIT são divulgadas no dia 14/03 todos os anos. Às oito horas da manhã do dia 15, todo mundo na minha escola sabia que eu havia sido aceita. Muitas pessoas vieram me parabenizar naquele dia e posteriormente. Mas, estranhamente, elas pareceram insistir em me lembrar que “é muito mais fácil entrar quando você é mulher, porque eles têm muito menos candidatas mulheres".
A ideia de que havia algum tipo de cota para mulheres seria repetida para mim muitas e muitas vezes nos meses seguintes, e as coisas só pioraram quando cheguei ao MIT. Eu ouvia comentários maliciosos de meus colegas o tempo todo, variando de “estão forçando alunos negros e hispânicos que nem querem estar lá a fazerem faculdade” a “estão rejeitando candidatos qualificados em favor de candidatas menos qualificadas”.
Ingenuamente, imaginei que as coisas melhorariam conforme eu ficasse mais velha. Achei que a minha comunidade começaria a me respeitar e deixaria de atacar meu direito de estar ali. Pelo contrário, as coisas pioraram. Os professores, sem cerimônia, faziam comentários sobre a metalurgia ser um “campo masculino” e tentavam humilhar publicamente nossas poucas professoras. Um dos assistentes de ensino tentou me convencer de que pessoas negras são geneticamente inferiores em decorrência das práticas de reprodução empregadas na época da escravidão. Outro assistente tentou me usar como serviço de encontros online, pedindo que eu lhe desse o telefone de uma mulher que estava em uma foto comigo no Facebook e tentando me persuadir a ir à casa dele, o que configura assédio sexual.
A misoginia e o racismo que sofri e testemunhei no MIT se tornaram cada vez mais preocupantes, com professores fazendo piadas do tipo “voltem para a cozinha” e o que pareciam ser legiões de alunos de PhD assediando sexualmente alunas de graduação. Eu vi muitas de minhas colegas negras trocarem de departamento e ouvi histórias de terror sobre seus conselheiros que as pressionavam a fazê-lo. Ao mesmo tempo, as vi passar de alojamento a alojamento e por fim deixarem os alojamentos do MIT em busca de um lugar onde pudessem viver livres de assédio. 
E essas coisas têm consequências. Trocar repetidamente de departamento pode forçar as pessoas a se formarem com atraso. Trocar de alojamento com frequência dificulta encontrar um grupo fixo de amigos com quem estudar. Dinheiro e oportunidade vão pelo ralo. Como é que eu, minhas colegas e meus colegas negros podemos esperar prosseguir em doutorados, mestrados e conseguir trabalhar no setor, quando as pessoas que distribuem as aprovações, notas e cartas de recomendações, bem como nossos futuros colegas, nos veem como “pedaços de carne” e/ou geneticamente inferiores?
Neste ano, estou andando pelos corredores do MIT pela última vez e escrevendo minha tese. E enquanto eu certamente preencherei meus dias com a caracterização óptica (trabalho com óptica), minha mente também ficará cheia de preocupações com o futuro. Eu sei que meu nome -- Jennifer -– no topo do currículo terá um papel tão decisivo para determinar meu valor como candidata a um doutorado quanto os vários artigos em que sou listada como autora. E sei que mesmo tendo quase todas as notas máximas, ainda não serei bem recebida em minha comunidade científica e como engenheira. 
Competirei com homens brancos com desempenho inferior e menos experiência em pesquisa que provavelmente serão escolhidos em meu lugar, como acontece com os professores nos comitês de graduação. Afinal, alguns desses mesmos membros dos comitês das escolas de graduação provavelmente se lembram com nostalgia "daqueles dias em que homens eram engenheiros e mulheres eram comissárias de voo". 
Os problemas das áreas de CTEM são as pessoas dessas áreas. Eu não deveria ter que me esforçar para alcançar as pessoas, quando já estou na frente delas.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

GUEST POST: NOSSA ESCOLHA DE PARIR NÃO É AUTÔNOMA

Este comentário anônimo surgiu na caixa de comentários no guest post da P., que não tinha nada a ver com o assunto (publiquei outros comentários daquele post aqui):

Em grupos de mães tem aquelas que julgam e falam besteira sobre as que escolheram a cesárea, assim como aqui no blog temos muitas feministas julgando, xingando e cagando regras em outras mulheres. Não dá pra julgar todo um movimento por suas maçãs podres. O movimento pelo parto normal é extremamente necessário neste momento, onde as cesáreas ultrapassam 50% da totalidade de partos feitos no brasil (SUS + Planos particulares), quando a recomendação da OMS é de que as cesáreas não ultrapassem 15% dos partos.
É sim escolha da mulher, é ÓBVIO! O que acontece é que esta escolha não é exatamente autônoma, há uma indústria médica que convence as mulheres de que seus corpos são imperfeitos e incapazes de parir, que o parto é sujo, primitivo, animalesco, dolorido e que nenhuma mulher moderna e bem sucedida "deve" se submeter a esta humilhação toda. Isto é mentira. É parecido com a campanha da Gilette nos anos 70 convencendo às mulheres de que pelos (apenas os femininos, diga-se de passagem) são sujos, horríveis e etc para vender mais produtos. Consegui me fazer entender sobre a analogia?
Obviamente, não há problema nenhum em se depilar pra se sentir mais bonita, mas devemos entender o contexto histórico onde este "desejo de depilar" está inserido.
Já a opção pela cesárea é algo mais complexo do que a opção pela depilação, pois envolve a saúde materna e a do feto/bebê. Há diversos estudos que apontam que a cesariana eletiva (aquela que é agendada antes de o bebê demonstrar maturidade pulmonar suficiente para nascer -- o que se dá quando o trabalho de parto ativo é iniciado) eleva em três vezes o risco de mortalidade materna e infantil. MULHERES estão morrendo por uma escolha não informada, pois a cesariana é mais conveniente para os obstetras (dura 30 minutos, enquanto o normal pode durar dias. pense no lucro).
Há um contexto muito maior do que MEU CORPO MINHAS REGRAS. Especialmente porque as regras, neste caso, não são SUAS, ou da MULHER, mas do MÉDICO que quer ter mais lucro e mais comodidade (imagina um parto normal no natal, que horror! melhor agendar uma cesariana no dia 20 e ficar sossegadão em casa com a família, não é mesmo?)
No final das contas, eu acredito que a opção deva ser exclusivamente da mulher. mas da mulher bem informada dos benefícios e riscos de cada procedimento (e isto não vem acontecendo, ok?). 
O movimento do parto natural tem absolutamente TUDO a ver com feminismo, com empoderamento da mulher. Até porque, 50 anos atrás a esmagadora maioria dos médicos era do sexo MASCULINO, então parece lógico terem tirado da mulher o "poder" de parir, para que, até neste momento que a natureza lhe conferiu total autonomia, ela precisasse loucamente de um HOMEM para fazer isso por ela. 
Cinquenta anos atrás foi quando começou a transição do parto em casa com parteira (tradicionalmente MULHER) para o pato hospitalar com médico (tradicionalmente HOMEM). Adivinhem qual ganhou no quesito confiabilidade?